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Ele, happy

Há menos de uma semana, Bas Dost estava a dar os primeiros toques de português, em direto. Agora resolveu com a cabeça um jogo em que o Sporting teve menos bola, rematou menos e foi, muitas vezes, quase dominado pelo Rio Ave. Mas ganhou (0-1) num campo difícil porque a equipa que lá mora gosta de jogar futebol

Diogo Pombo

JOSE COELHO/LUSA

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Há jogadores que, simplesmente, conectam. Quando um tem defeitos e virtudes que são compensados pelas virtudes e pelos defeitos do outro, eles até podem nem se falar, não interagirem lá fora, em sociedade, mas encaixam quando estão no campo. Havendo lugar para dois avançados, se houver um grande, lento e menos móvel, técnico e participador, convém que haja outro ao lado que seja pequeno, ágil, rápido e com mais raio de ação, pés e criatividade para fazer coisas.

Não fosse esta ideia do mais redutor que há, o futebol seria um mundo perfeito de equilíbrios e compensações, em que bastaria aproximar tipos que se complementam e a coisa ia ao sítio.

Onde quero chegar é que não é por o português baixote que parece uma criança, com os seus 1,63m - e as palavras não são minhas, mas de quem me refiro a seguir -, jogar atrás do holandês que é uma torre nos seus 1,96m, que o futebol do Sporting vá funcionar melhor (por muito que Bas Dost diga que Podence é “um excelente jogador”).

Porque, no mesmo campo que eles, que não é o deles, está o Rio Ave.

A equipa de Vila do Conde joga como um grande e engrandece quando é visitado por um grande que, como ela, joga com a defesa subida, deseja sair a jogar de trás e pretende abrir espaços com a bola e os jogadores a avançarem no campo juntos. É raro o Rio Ave de Miguel Cardoso bater uma bola, sem nexo, na frente, dar chutões ou levantar passes longos em buscar do avançado por não ter outra maneira de existir.

Esta forma de jogar, com bola, com os centrais abertos e os laterais a avançarem para lá da linha do campo, a puxarem adversários e forçarem espaços para os médios receberem passes, controlarem e viraram-se para a baliza dos outros, trama a vida ao Sporting. Os vilacondenses têm mais posse de bola (a primeira parte acaba com 60%-40%) e nunca deixam que os leões, após a recuperarem, liguem uma jogada com passes curtos - porque pressionam logo, em cima e bem lá na frente. O Rio Ave, em duas palavras, arrisca e é valente.

Remata muito mais vezes à baliza (11 contra quatro), mas também é verdade que todas as bolas são disparadas fora da área à exceção de uma das duas que acertam na baliza: vinda da cabeça de João Novais, após cruzamento de Lionn, que obriga Rui Patrício a saltar e esticar-se todo para a defesa da noite (32’). Porque o Sporting é organizado a defender, tem os jogadores nos sítios certos e faz com que o Rio Ave, mesmo com tanta bola e passe e jogadas, tenha que jogar mais por fora do que por dentro. Não consegue entrar na área e encontrar Guedes, é demasiado dependente no jogo de tabelas de Rúben Ribeiro.

O Sporting mantinha-se algo encolhido, com Gelson e Acuña mais preocupados em ajudar Piccini e Coentrão. Sem que os jogadores tentassem esticar as suas posições para darem largura e arranjarem espaço para que, alguém, pudesse receber a bola quando a equipa tentava jogar. Podence apenas se via a pressionar, Bas Dost corria perdido atrás das coisas que os leões despachavam para a frente e eles só tinham bolas para rematar quando o Rio Ave errava passe ou se precipitava a sair a jogar como um grande.

O que só aconteceu duas vezes.

JOSE COELHO/LUSA

Tão dominado estava o Sporting que Jorge Jesus provou a falta de sentido do início desta crónica, desfez a coexistência Dost-Podence e tirou o pequeno para Battaglia fazer companhia a William e Bruno Fernandes avançar uns metros para a equipa ficar como costuma estar na Liga dos Campeões, por exemplo. O que foi uma das razões para os leões melhorarem. A outra foi a quebra do Rio Ave, algo que já tinha acontecido frente ao FC Porto.

Eles demoravam mais tempos até chegarem aos sítios certos, erravam mais passes, enquanto os leões pressionavam mais em cima e usavam o espaço que já tinham entre as linhas adversárias. Bruno Fernandes esticava a equipa em diagonais e tentava encontrar Bas Dost com cruzamentos rasteiros. O médio até marcou um golo depois de a bola ir à cabeça do holandês, mas foi anulado pelo fora-de-jogo que o videoárbitro confirmou.

O Rio Ave continuava a ter mais a companhia da bola, embora fosse mais direto, mais jogadores a olharem para a frente a passarem de acordo. Eram mais verticais. O que é quase escrever que arriscavam mais e perdiam mais bolas. Chegavam com a aparente mesma facilidade à entrada da área e rematavam muito dali. Edgar Barreto, a concluir a melhor jogada da equipa na partida, com primeiros toques e simulações, rematou de pé esquerda para Rui Patrício fazer outra parada da noite. Rúben Ribeiro, depois, recebeu um lançamento lateral, livrou-se de Piccini e rematou em arco para a bola rasar o poste do direito.

E, depois, Nuno Santos, à entrada da área, rematou um bola quase à figura, mas tão forte e no meio de tantas pernas que Rui Patrício a defendeu para a frente - onde apareceu Guedes, a atirar por cima uma bola que estava a dois metros de um golo. Logo na jogada seguinte, o Sporting atacou rápido a desorganização estupefacta dos vilacondenses, levou a bola até Battaglia, na esquerda, onde o argentino a cruzou para a cabeça de Bas Dost.

Assim, de repente, o holandês marcou e o Sporting colocava-se a ganhar, aos 87’, numa partida que nunca chegou a controlar ou dominar.

Ainda houve tempo, nos descontos, para Rúben Ribeiro, talvez o melhor em campo e detentor de uma pinta e pés de craque, brincar com Battaglia e tirar um cruzamento tenso cuja bola tocou em ninguém, a um metro da baliza. Foi o último suspiro da equipa mais rematadora, que mais arriscou e que mais bola teve, que tem a coragem de querer tudo e mais alguma coisa contra os grandes, num campeonato em que a tradição é os pequenos encolherem-se perante eles.

Ganhou o grande que teve soube aguentar e adaptar-se e tem o que o Rio Ave talvez nunca teve - um avançado que garante perigo e golos. Hoje fez um depois de, no jogo anterior, ter feito três e ter dito arriscado, no final, as primeira palavras em português numa flash-interview. Na altura, entre dizeres variados, lá disse “eu, happy”.

O avançado holandês bem pode estar happy por ele e o Sporting terem arrancado este resultado de Vila do Conde.