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Direto ao assunto, sem medo de criticar seja quem for: uma análise ao futebol português que vimos até agora

Fizemos o exame ao primeiro terço da temporada futebolística: por aqui há de ler sobre processos defensivos coriáceos, haverá reparos às doses esdrúxulas de chavões, desvendamos a pungência da primeira linha de pressão e prometemos que dificilmente encontrará um exame mais minucioso e contundente do que este

Rui Malheiro

Bas Dost a mostrar a Filipe quem é o melhor a saltar de olhos fechados

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O primeiro terço da temporada tem sido marcado pela quebra de dogmas. O principal, que os resultadistas acólitos de Rui Vitória procuraram tornar em verdade absoluta, passava por criar a ideia de que o melhor processo é não ter processo. O futebol elaborado, em forma de ode permanente ao futebol combinativo, do Rio Ave, a equipa com a ideia de jogo mais arrojada do campeonato, contraria-o com resultados, tal como procura fazer o Chaves, mesmo que os desfechos não acompanhem a qualidade de jogo que expõe num jogar onde a formação de triângulos alumia permanentemente o bom futebol.

Mas também podemos olhar para o Braga, com um dos planteis qualitativamente mais ricos da sua história, a crescer exponencialmente fruto da solidez que apresenta no processo defensivo, mas com espaço, fruto da elevada qualidade técnica e criatividade que apresenta do meio-campo para a frente, para atingir registos de nota artística bem superiores aos que tem expressado, ou para o Marítimo, uma equipa que parte de um processo defensivo coriáceo para a contundência na exploração de contragolpes e de lances de bola parada. Não há, por isso, um caminho único para o sucesso, mas é a partir da solidez de uma ideia de jogo e dos seus processos que se está bem mais perto de o filar.

Abel Ferreira, o homem que já avisou que é preciso contar com o Braga

Abel Ferreira, o homem que já avisou que é preciso contar com o Braga

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Não deixa de ser curioso que alguns colunistas tenham deixado de defender aquilo em que fingiam acreditar. O mote, claro está, a crise de resultados do Benfica. O início de exercício comprova-o, em forma de críticas ferozes e/ou apocalípticas – ou então pelo silêncio corrosivo metamorfoseado em loas às ideias que não credenciavam – daqueles que defendiam acerrimamente o ideário do 8.º melhor – se a vitória valesse três pontos – ou do 10.º melhor – se a vitória valesse dois pontos – bicampeão da história do futebol português: Rui Vitória. Nada mais injusto. É que o professor de Alverca do Ribatejo continuou fiel aos princípios que nortearam as tão elogiadas conquistas, onde não falta o recurso em doses esdrúxulas a chavões para encapotar problemas e resistir à busca de imprescindíveis soluções. Mas “o sol vai voltar a brilhar”, garantiu-nos. Isto após uma das pavorosas exibições dos encarnados neste primeiro terço de temporada.

Tem sido um início de época apertado para o Benfica

Tem sido um início de época apertado para o Benfica

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Foi preciso esperar dois anos e quatro meses, curiosamente numa altura em que o sol de outono se transformou numa densa e ríspida bruma invernosa, para que Vitória percebesse que a estrutura em 1x4x4x2 que defendeu exaustivamente, com os princípios – cada vez mais ténues – herdados do antecessor, estava esgotada numa previsibilidade que se estendeu de uma crise de rendimento – já visível quando a equipa arrecadava títulos e troféus – numa pungente crise de resultados. O relançamento do Benfica na corrida pelo penta é uma missão hercúlea, mas não é de todo impossível. Mesmo que só muito tardiamente Vitória comece a derrubar dogmas. À cabeça, seria impossível pensar numa estrutura diferente do 1x4x4x2, até porque Jonas, o melhor definidor do campeonato nos capítulos do passe e do remate, não conseguiria encaixar numa estrutura em 1x4x3x3. Como se o jogador mais decisivo fosse o problema, quando é e será sempre a solução. Mas também o dogma de que o plantel, após as perdas significativas de Ederson, Nelson Semedo e Lindelöf, que enfraqueceram contundentemente o sector defensivo, se tivesse desfigurado num filme de terror encarnado do final dos anos 1990-início dos 2000. Só que a qualidade individual do meio-campo para a frente continua a ser tanta que Zivkovic, Rafa ou Cervi nem sequer têm entrado nas contas recentes do treinador, que, mesmo tratando-se de um “grande gestor de balneários”, tem relevado uma extraordinária imperícia para lidar com os dois primeiros. Não esquecendo que Krovinovic, o cerebral e virtuoso croata que já tinha começado a sentar-se no banco de suplentes em agosto, o que não explica a sua inefável ausência da lista de escolhas para a Liga dos Campeões, só agora comece a surgir como opção principal.

Krovinovic até a cair é diferente dos outros

Krovinovic até a cair é diferente dos outros

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Ter os melhores jogadores em campo, sobretudo numa equipa que assenta – e continuará a assentar, como mostrou em Guimarães, no seu melhor momento em 2017/18 – as suas premissas na qualidade individual superlativa dos jogadores, ajuda imenso. Mais ainda se for numa organização estrutural que permita retirar o melhor de cada um, robustecendo o todo. Rui Vitória terá que dar no próximo mês – com a deslocação ao Dragão e a luta pela sobrevivência nas competições europeias, onde segue numa paupérrima marcha de cinco derrotas consecutivas (com dois dos cinco maiores desaires europeus de um colosso no seu currículo) – uma resposta lancinante.

Sem mácula

Sérgio Conceição a mostrar o lugar onde o Porto está

Sérgio Conceição a mostrar o lugar onde o Porto está

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Apenas dois pontos perdidos, num clássico em Alvalade em que esteve mais perto do triunfo do que o rival, outorgam uma liderança justa à décima-primeira jornada de um FC Porto que se desprendeu do chavão “ser Porto” e passou a “praticar Porto” com veemência. A espantosa empatia entre adeptos, treinador e clube, num inédito jejum de quatro de anos sem títulos e troféus na era Pinto da Costa, começou a delinear-se na pré-época e promete perdurar, até porque resistiu à arrojada “opção técnica” de alterar de guarda-redes – abdicando de Casillas, após um período de pausa, em que trabalhou menos do que devia, para lançar às feras José Sá, o rosto do futuro, enquanto Diogo Costa prossegue o trajeto de maturação na equipa B, da baliza do dragão – quando nada o fazia prever. Sérgio Conceição é o grande protagonista do primeiro terço de competição, já que conseguiu superar todas as expectativas, construindo um jogar assente numa dinâmica e numa vertigem cáusticas, sustentadas pela impressionante velocidade colocada na circulação da bola e na vontade indómita em chegar rápido e com muitos jogadores a zonas de finalização. O que obriga a uma mobilidade incessante das suas unidades e conduz a uma “visão FC Porto” assente nos últimos 45-50 metros, onde é evidente uma maior tendência por perscrutar o jogo exterior do que a combinação curta no espaço interior, conduzindo à perda de titularidade do cerebral Óliver Torres em detrimento do acelerador e pressionante Herrera, capaz de se metamorfosear de patinho feio em zorro sem capa mas com espada.

O treinador dos dragões foi sagaz a perceber que a organização estrutural em 1x4x4x2 – o plano A – não seria a ideal para encarar os jogos de grau de dificuldade mais elevado e introduziu o terceiro-médio, transformando a estrutura em 1x4x4x1x1, 1x4x2x3x1 ou 1x4x1x4x1 consoante as especificidades dos adversários e o desenrolar das partidas. Aí, além da agressividade esdrúxula com e sem bola, e da tremenda reatividade à perda que procura asfixiar o adversário através da pungência da primeira linha de pressão, percebe-se que o plano B dos dragões desenha-se a partir de um maior equilíbrio, procurando defender de forma mais curta e compacta, e de uma contundência tremenda na exploração de contra-ataques e ataques rápidos, onde a potência de Aboubakar e Marega, servidos pelo incisivo desequilibrador Brahimi – cada vez mais envolvido com o coletivo – ou através de uma construção mais longa, é o mote para chegar com ferocidade à baliza rival.

Um jogador do Mónaco a assistir à formação de um tremor de terra

Um jogador do Mónaco a assistir à formação de um tremor de terra

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Se mantiver a vantagem pontual sobre os rivais até ao final de dezembro, Sérgio Conceição, que terá que gerir até aí um plantel extremamente curto, sobretudo para quem está em quatro frentes, poderá receber em janeiro os reforços que não teve no defeso. Será esse o caminho, assim como a boa gestão da sua comunicação para o exterior, um dos seus trunfos nos primeiros cinco meses de trabalho, para continuar a ser protagonista no segundo e no terço da competição.

Interrogações com resposta

Estar mais perto na tabela classificativa do Benfica – 1 ponto de vantagem – do que do líder FC Porto – 4 pontos de desvantagem – é a única derrota de um Sporting invicto nas competições internas. Um desaire que se desenha na perda de seis pontos – Moreirense (fora), FC Porto (casa) e Braga (casa) – nas últimas cinco jornadas, depois de um arranque com seis triunfos consecutivos, onde está incluída uma exibição impressionante em Guimarães (5-0) na antecâmara de duas noites europeias soberbas em Bucareste – 5-1 ante o Steaua – e em Pireu – 3-2 ao Olympiacos, onde saiu para intervalo a vencer por um vigoroso 3-0.

Parece um movimento de Michael Jackson, mas na verdade este homem pôs o seu Sporting a movimentar-se na Champions acima de todas as expectativas

Parece um movimento de Michael Jackson, mas na verdade este homem pôs o seu Sporting a movimentar-se na Champions acima de todas as expectativas

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A quebra interna do Sporting não é alheia ao adensar da competição, onde devem ser incluídos os duríssimos encontros – com ótimas exibições – ante Juventus (um empate caseiro e uma derrota extramuros pela margem mínima) e Barcelona (derrota caseira pela margem mínima), e ao elevado número de lesões que têm retirado unidades nucleares do onze-base delineado por Jorge Jesus. Está aí o grande problema do leão. A falta de soluções de qualidade que façam face às ausências de Mathieu, Fábio Coentrão e William Carvalho, jogadores que oferecem muito mais competência defensiva e, principalmente, ofensiva, ao ligarem, em construção ou em condução, as diferentes fases. Algo que Jesus, um eterno insatisfeito com os planteis que tem à sua disposição, quererá corrigir em janeiro.

A versão 2017/18 do Sporting, mesmo sem Adrien, apresenta um futebol bem mais próximo do que encantou há dois exercícios do que o que desiludiu rotundamente na época passada. Para isso também contribuiu a maior variabilidade entre uma organização estrutural em 1x4x4x2, a que transformou Jorge Jesus no grande influenciador do futebol português na última década, e o recurso acertado ao terceiro-médio nos jogos de grau de dificuldade mais elevado, aproximando-se do 1x4x4x1x1 e do 1x4x2x3x1, com Doumbia como falso referência ofensiva, aproveitando as aquisições certeiras de Bruno Fernandes e de Acuña, jogadores de enorme disponibilidade física – como tanto gosta – que oferecem muitas mais soluções com critério e qualidade em lances de bola corrida e em bola parada. Com isso, e não olvidando o suporte dado por William, Mathieu e Coentrão, deixou de estar dependente da conexão entre o superlativo Gelson Martins, tremendo a criar desequilíbrios e cada vez mais incisivo na definição, e o predador Bas Dost, que se reencontrou com os golos depois de um início de exercício em que a relação de desconfiança com a baliza rival o transformou num avançado excessivamente altruísta. Algo que tem feito com que os leões se revelem menos vigorosos na chegada a zonas de finalização, onde têm vindo a revelar uma eficácia tremenda. Tem dúvidas? É só olharmos para os jogos mais recentes: Sp. Braga (2 golos em 6 remates enquadrados); Juventus (1 golo em 2 remates enquadrados); Rio Ave (1 golo em 1 remate enquadrado); Desp. Chaves (5 golos em 5 remates enquadrados); Juventus (1 (auto-)golo e 1 remate enquadrado); FC Porto (0 golos em 1 remate enquadrado); Barcelona (0 golos em 3 remates enquadrados); Moreirense (1 (auto-)golo e 2 remates enquadrados); Tondela (2 golos em 4 remates enquadrados).