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Football Manager da vida real? Já chegou. E é português

FootballISM é uma plataforma 100% portuguesa e única no mundo que integra todas as vertentes da gestão de um clube, desde o tratamento da relva a acordos de contratação. Com ambição para dar e vender

Tiago Oliveira

Paredes meias com o stand da Liga Portuguesa e a Taça de Campeão Nacional, a FooballISM encontrou-se com Pedro Proença para solidificarem ligações de futuro

José Caria

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Não se tratam propriamente de planos de domínio do mundo ao melhor estilo de um maquiavélico super-vilão de 007 (e sem tubarões com lasers). Mas a ambição da equipa responsável pela plataforma FootballISM - ISM que significa Integrated Software Management - de ser omnipresente no mundo do futebol é assumida sem qualquer tipo de pejo. Sem surpresas, quando de acordo com os próprios é a mais complexa e avançada ferramenta do género jamais criada. Portuguesa da silva e com espaço para evoluir ainda mais num mercado onde "onde praticamente não existe concorrência. Não há nada assim."

Palavras de Filipe Esteves, diretor geral da agap2IT (empresa de consultoria tecnológica responsável pelo projeto) acompanhadas pelos muitos visitantes, a título privado ou como representantes de clubes ou federações, que passaram pelo stand onde se encontravam na Web Summit, paredes meias com o espaço da Liga Portuguesa de Futebol Profissional e a taça de campeão nacional. "O Pedro Proença já veio cá e ficou muito impressionado", conta. Com medidas a condizer. Já lá vamos.

É um verdadeiro "Football Manager da vida real" mas antes de mais importa ir à parte que costuma ancorar todas as histórias que se prezem, o início. Esse, pode marcar-se há "mais ou menos cinco anos", quando foram contactados pelo Sporting com um conceito (na altura mais) básico de desenvolver uma ferramenta para "melhorar a gestão da academia." Instalaram-se de malas e bagagens em Alcochete e aperceberam-se do potencial da ideia e do muito que havia a ganhar em desenvolver algo que integrasse todas as vertentes da gestão de uma entidade desportiva.

"O grande foco inicial foi o futebol de formação e trabalhamos para que a plataforma inclua todos os dados de um jovem jogador", conta, desde médicos a académicos, passando por psicológicos. No fundo, aquilo que pode "separar um Cristiano Ronaldo de um Fábio Paim." Num universo onde o a falta de uniformização de processos ainda é prevalecente, com o "papel e o excel" e outros métodos a serem ainda muito utilizados por diferentes departamentos, o objetivo é que o FootballISM seja transversal a todos os funcionários de um clube, "a única ferramenta de trabalho que precisam de utilizar."

Para o pai e para o filho

Olhemos para o scouting, um dos campos mais relevantes na vida de um emblema desportivo. As "mais de duas mil horas de análise" que levaram para implementar a plataforma e as muitas conversas com pessoas do meio não deixaram dúvidas quanto à necessidade de uma aplicação interna onde deixe de haver confusão e métodos diferentes. Basta introduzir e atualizar. E não só para os profissionais dos clubes. Também pode ser utilizada pelos "pais dos jogadores para que estejam ao corrente do progresso dos filhos e dos seus horários", por exemplo.

Fora da gestão da formação, as funcionalidades da ferramenta ultrapassam os dedos das mãos e permitem marcar hotéis, aferir do tratamento da relva, contratos de jogadores, planos de treino coletivos e individuais (os jogadores recebem notificações nos telemóveis com mudanças), orientações do departamento médico, etc. Tem também integração de estatísticas com a Opta e, no futuro, vai ter com a Video Observer, empresa portuguesa de análise vídeo de atletas. No total, a plataforma divide-se em cinco apps, mas se um clube quiser "algo mais específico", podem sempre desenvolver

Na altura da criação, ficou acordado com o Sporting que a empresa poderia depois lançar livremente o FootballISM no mercado. E assim foi em abril deste ano (os leões tiveram primazia de utilização durante um ano) com muito interesse manifestado e clubes que já utilizam "no Brasil, América do Norte e França." As reuniões já se sucederam com emblemas como o "Chelsea e o Arsenal" e instituições como a "Federação Irlandesa de Futebol." A fase de desenvolvimento teve alguma resistência por parte de "uma geração não tão habituada" e mesmo essas preocupações foram tidas em conta, assim como "mecanismos de segurança para garantir que toda a informação sensível" (seja de jogadores ou finanças) não sai da esfera do clube.

As reações são "sempre de quem nunca viu nada assim", sobretudo pela complexidade, alcance e capacidades multilíngue, o que leva Filipe a crer que o modelo pode ser replicado noutras modalidades. "Para o ano vamos lançar no basquetebol e no râguebi e já tivemos em conversações para o andebol também", revela, ao mesmo tempo que não esconde a meta de chegar às muito competitivas ligas norte-americanas. "Pelo andar da carruagem, até pode ser mais cedo do que contamos", atira entre risos. No futuro a ambição é que, por exemplo, os donos que têm vários clubes de diferentes desportos possam ver todos os seus ativos numa "master ISM."

Democratizar o futebol

E os custos, já quase que consigo ouvir? Existem duas modalidades de utilização: a primeira de licença única por €200 mil e a segunda de aluguer mensal por um valor que pode ir dos €1000 aos €5000. Preços ao alcance de uma elite cada vez mais profissionalizada e que se reflete nos objetivos de, para o ano estar já em dois dos melhores cubes de Inglaterra e França e ter mais clubes da Primeira Liga.

Mas não se querem ficar por aí. Filipe admite que os valores são elevados e "incomportáveis para alguns clubes mais pequenos." Por isso estão a preparar uma versão light, mais económica para que cheguem a mais instituições e parcerias com federações. É o caso da Liga Portuguesa, com quem já tinham tido um "primeiro encontro há duas semanas" e agora a vizinhança que ajudou a desenvolver um princípio de acordo para colocar o software "nos serviços partilhados da Liga" e facilitar o acesso a clubes.

Por outro lado celebraram um protocolo com a Escola Superior de Desporto de Rio Maior para que toda "uma nova geração de treinadores e profissionais de desporto utilizem o FootbalISM de base." Tudo para que não seja só domínio de alguns e ajude a "democratizar o futebol." Se Tó Madeira o fazia no mundo digital, esperemos para ver o que sucede com o Football Manager da vida real.