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Presidente do Vitória de Setúbal demite-se

Fernando Oliveira apresentou esta tarde a sua demissão do clube sadino, que liderava há oito anos, devido à contestação de um grupo de adeptos

Lusa

RUI MINDERICO/GETTY

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O presidente do Vitória de Setúbal, Fernando Oliveira, anunciou hoje a demissão do cargo que ocupa desde 2009, considerando que a sua direção está a ser impedida de trabalhar.

"Tomo a decisão de apresentar a minha demissão. É algo que me custa muito, mas não posso aceitar que um grupo de pessoas continue a denegrir o Vitória e a sua direção. Demos vontade, amor e dedicação a este clube. Queríamos ir até ao fim, mas não nos deixam trabalhar", afirmou Fernando Oliveira, em conferência de imprensa.

Na segunda-feira, no jantar de aniversário do clube da I Liga de futebol, Fernando Oliveira, de 76 anos, tinha criticado um "pequeno grupo de sócios que se acha dono da verdade" e que por duas vezes reprovou o relatório e contas de 2015.

Fernando Oliveira liderava o Vitória de Setúbal desde 2009

Fernando Oliveira liderava o Vitória de Setúbal desde 2009

Vitória de Setúbal

Eis a declaração de Fernando Oliveira, reproduzida na íntegra pelo site oficial do Vitória de Setúbal:

“Vitorianas e Vitorianos,
Senhoras e Senhores Jornalistas,
Boa tarde.

Apesar de não ser natural desta cidade, foi aqui que me estabeleci, é aqui que vivo é aqui que quero ficar enquanto esta vida mo permitir.

É com profundo orgulho que afirmo, que adotei Setúbal como a minha cidade e sinto também que Setúbal me adotou a mim como um setubalense.

Fazem já vários anos que a minha família ganhou mais um elemento, o nosso Vitória Futebol Clube, que é sentido, vivido e respeitado por nós como se de um filho ou até de um pai se tratasse.

Vibro por este clube, ao qual desde sempre me dediquei com todas as minhas energias e forças.

Foi com imenso orgulho e sentimento de dever cumprido que exerci funções em várias Direcções deste clube, outras tantas enquanto seu Presidente.

Fui eleito presidente, pela primeira vez, à mais de 30 anos e quando o mandato cessou, confesso que jamais pensava regressar.

Mas o apelo foi grande, o amor pelo Clube maior, e no ano de 2009, num momento em que todos atiravam a toalha para o chão, no momento em que se escolhia o nome do clube quando descesse para a terceira divisão, não hesitei, e assumi as dificuldades, contra tudo e todos, inclusive com prejuízo para a minha vida familiar e pessoal, e assumi os desígnios do clube, não o deixado descer para a Terceira divisão.

Este clube é enorme e possui uma tradição ímpar no panorama desportivo nacional.

Ontem festejou 107 anos, e manifestou uma vez mais a sua vitalidade enquanto Instituição.

O Vitória Futebol Clube tem cerca de 8.600 sócios e cerca de 300 mil adeptos, espalhados pelo distrito de Setúbal, pelo país e por todo o mundo, sendo um dos clubes com maior massa associativa do país.

O Vitória exige e merece respeito.

Conceitos que um punhado de sócios do Vitória, que não representam um todo, outrossim uma parte, desconhecem por inteiro.

Ontem disse-o, “Há uma oposição organizada há mais de duas décadas, que não hesita em colocar o clube sob permanente exposição, chegando até ao ponto de o ridicularizar. Preferem viver num clima de permanente guerrilha e maledicência, na maior parte das vezes sem argumentos, o que só prejudica o Vitória”.

Estes Adriões, estes Américos, estes Vitores, estes Farinhas e Santanas, apenas tem como objetivo criar o caos para derrubar uma direção democraticamente eleita há cerca de sete meses, porque entende que assim ficam com o caminho aberto para tomar o poder e satisfazer os seus interesses pessoais.

Embora com comportamentos distintos entre eles, mas com igual objectivo: o poder pelo poder e em total desrespeito pela eleição democrática desta direcção.

E tem sido assim, principalmente na última década, uma prática reiterada por parte de um grupo de sócios que pura e simplesmente não sabe ou não quer aceitar a vontade da maioria.

E não se diga que esta Direção não quer ou não aceita a existência de oposição.

Meus amigos, a oposição é sinal de crescimento, é uma manifestação de democracia com a qual não só devemos, como indiscutivelmente queremos viver.

No entanto, a oposição não pode ser feita a qualquer preço, não devemos aceitar, nem cultivar a política do insulto, nem a política do berro, nem do Não porque não.

A oposição exige-se construtiva e não destrutiva.

Não é admissível que um grupo de sócios instrumentalize o nosso Clube para se auto promover, descredibilizando a instituição que é o Vitória Futebol Clube.

O Vitória merece mais, muito mais.

Não é admissível, meus senhores, que alguém numa Assembleia Geral chumbe sistematicamente as contas do Clube, sem sequer se dar ao trabalho de analisar as mesmas.

Esta atitude é vergonhosa, isto é o culto do NÃO PORQUE NÃO.

No Vitória, como em qualquer outro clube ou empresa, é legítimo e até de salutar os contributos de todos, no sentido de fazer mais e melhor, no entanto não podemos, não posso, pactuar com esta atitude repetida do não porque não.

Como é que é possível que alguém que se diz sócio deste Clube e que, nessa mesma qualidade, teria a obrigação de zelar pelos interesses desta nobre instituição tenha o desplante de afirmar publicamente que votou contra as contas de 2015, e que voltará a votar contra as contas de 2015, as de 2016 e qualquer outra proposta desta direcção, pura e simplesmente …..porque não.

Como é possível alguém emitir uma declaração de voto, em que assume claramente que votou Não, mas que o não, não é por causa das contas, outrossim para sancionar uma direcção, esquecendo-se das obrigações perante o clube, perante os outros sócios e não sabendo distinguir tais obrigações e objectivo do seu voto, com as suas ambições pessoais, ou seja, e mais uma vez temos o Não, porque não.

Vitorianos isto é antidemocrático, antivitoriano e degradante.

Esclareça-se que a informação que passou para a comunicação social de que o Vitória perderia o estatuto de utilidade pública no caso das contas serem chumbadas por três vezes, não é precisa.

Tal informação, tratou-se de um evidente lapso que não tem correspondência directa com o legalmente estabelecido, mas não deixa de perceber esta política de desrespeito de alguns sócios com a realidade do clube.

Ainda que ocorresse a reprovação das contas por três vezes consecutivas daí não decorria a imediata e automática perda do estatuto de utilidade pública.

E mesmo que o Vitória perca o estatuto de utilidade pública não desaparece como clube, como também erradamente foi proclamado, mas não deixa de ser relevante que este punhado de “abanões dos interesses pessoais dos Adriões e outros como este”, não procuram dignificar algo que tanto demorou a conquistar: o respeito que merece e ganhou este nosso Clube.

Vejam que as contas do Clube mereceram a aceitação e aprovação inequívoca dos credores do Clube, no âmbito do Processo Especial de Revitalização que foi apresentado pelo Clube.

Aqui os seus credores, exatamente no ano em questão, 2015, aprovaram um plano de revitalização e aprovaram porque o analisaram concretamente e perceberam da bondade, da certeza da sua realização.

No entanto, vejam V Exas que os credores confiam no Clube, os credores que possuem dinheiro aqui investido, aqui possuem interesses, acreditam no Clube, no projecto, nas contas do clube e na sua direção, mas este punhado de “Adriões e Santanas e Américos e Farinhas, chumbam as contas do exercício de 2015. AQUI ALERTO E ENFATIZO, votam Não, porque não.

Estes sócios utilizam as Assembleias Gerais do Clube para, ao abrigo da política do berro e do insulto denegrirem as pessoas que trabalham e lutam diariamente pelo Vitória.

E não se diga que esta política do não tem tido reflexo no trabalho desenvolvido por esta Direção e pelas Direções anteriores igualmente encabeçadas por mim.

– Diziam vezes sem conta que não conseguíamos inscrever a equipa de futebol profissional – SIM FOI SEMPRE INSCRITA.

– Diziam que não conseguíamos as certidões das Finanças e da Segurança Social – SIM CONSEGUIMOS EM TODAS ESTAS ÉPOCAS DESPORTIVAS, seja em dezembro, sejam as de Julho.

– Diziam que a Direção nada faria para recuperar o Estádio do Bonfim – SIM JÁ ESTÁ A SER DISCUTIDO JUDICIALMENTE O RETORNO DO ESTÁDIO AO CLUBE.

– Diziam que a Direção nada faria para recuperar o lote onde está edificado o Pavilhão do nosso clube – SIM JÁ ESTÁ A SER DISCUTIDO JUDICIALMENTE O RETORNO DO MESMO AO CLUBE.

Conseguimos renovar e modernizar os balneários do nosso estádio;

Conseguimos melhorar a sala de imprensa que não possuía a dignididade que todos vocês merecem nem cumpria os regulamentos;

E, mesmo após esta última assembleia, a do Não porque Não, está em curso a colocação das cadeiras da lateral sul poente no estádio do Bonfim, bem como a renovação dos camarotes da comunicação social, tudo para dar ao Vitória e aos seus sócios o que eles merecem.

Tivemos ainda a coragem, de proceder á atualização do número de sócios deste clube.

E, sobretudo, conseguimos ter os salários em dia, algo que muitas vezes não foi conseguido e de que tanto nos orgulhámos.

O vitória mudou, modernizou-se, e negociamos um contrato com os nossos patrocinadores que em dez anos nos poderá trazer mais de 40 milhões de euros.

Mas o que diz a nossa oposição: NÃO!!! E SABEM PORQUÊ??? PORQUE NÃO!

Esta Direção tinha, como todos sabemos, uma herança pesada de anteriores Direções, mas nunca virou a cara à luta e os resultados estão à vista.

No entanto e apesar de toda a vontade e amor pelo Vitória chega uma altura em que temos que dizer BASTA!

Não podemos continuar a pactuar com estas posturas de um grupo organizado que apesar de sistematicamente derrotado nas urnas, recusa-se a aceitar um resultado democraticamente alcançado e parece ter um desejo desmedido do poder pelo poder.

Honestamente nos últimos tempos tenho refletido muito sobre tudo o que já fizemos no Vitória e tudo o que ainda ambicionávamos fazer, e creio que, embora estejamos ainda no início do nosso mandato, não posso permitir que esta situação continue e que o nome do vitória seja arrasado na comunicação social

Temos que marcar uma posição de manifesta discordância com estas posturas em que não me revejo.

O Vitória merece mais e melhor!

Infelizmente temos uns Estatutos brandos que permitem que um grupo de 100 sócios, que podem ter-se inscrito cinco dias antes, possam requerer a marcação de uma assembleia geral e nesta destituir uma Direção.

Veja-se num histórico recente, que uma Assembleia Geral requerida precisamente com o objetivo de uma destituição tinha uma assinatura de um sócio de oito meses, e olhem que não era de antiguidade de sócio, era de idade!!!

É precisamente com estas posturas que não posso de modo algum concordar e que me levam a tomar esta decisão de apresentar a minha demissão. – SIM, DEMITO-ME, DEMITE-SE A MINHA DIREÇÃO.

Creiam que é algo que me custa muito e que queria a todo o custo evitar, mas não posso, não consigo aceitar que um grupo de pessoas que não representam, de todo, o Vitória, continuem reiteradamente a denegrir o Vitória e esta Direção.

Creiam que temos projetos;

Creiam que sabemos fazer;

Creiam que temos vontade;

Creiam que temos amor e dedicação por este Clube;

Creiam que estávamos neste projecto com vontade de o levar até ao fim, mas,

NÃO NOS DEIXAM TRABALHAR.

Chego mesmo a pensar, que não querem que trabalhemos, pois assim fica ainda mais difícil aos Adriões e companhia chegarem ao local para onde os Vitorianos em eleições nunca os escolheram.

Senhoras e senhores não nos deixam trabalhar.

E porquê? Porque não!!!!!!

O Vitória é maior do que qualquer um de nós e assim será sempre.

VIVA o Vitória e todos os verdadeiros Vitorianos.

Vitória Sempre”.