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“O que se passa no Universo Porto da Bancada é um crime cometido semanalmente” - entrevista exclusiva a Luís Bernardo

Há uma nova figura no futebol português a ocupar o espaço central da discussão. Não joga, treina, preside ou apita, apenas decide o que se fala e, sobretudo, como se fala. Chama-se diretor de comunicação. Cada clube tem o seu, mas é entre os responsáveis de FC Porto, Benfica e Sporting que a atenção mediática se divide. Há quem diga que o protagonismo é excessivo. Há quem os culpe pela agressividade. Eles dizem que não é bem assim e explicam porque é que não se calam na defesa dos interesses dos seus clubes. Falámos com os três e hoje publicamos as respostas de Luís Bernardo, do Benfica

Pedro Candeias

Alberto Frias

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1. Um diretor de comunicação deve dar entrevistas a jornais? 
Se sim, porquê?
Um diretor de comunicação numa entidade com as características de um clube com a dimensão global do Sport Lisboa e Benfica assume muitas vezes o papel de porta-voz da instituição, sendo natural que dê entrevistas sobre temas da atualidade aos mais variados órgãos de comunicação social. Mas os principais protagonistas mediáticos de um clube devem ser o presidente, os órgãos sociais, os treinadores e os atletas.

2. Dado o seu passado profissional, o diretor de comunicação representa um papel, ou melhor, é forçado a representar um papel público quando assume funções para chegar aos seus adeptos?
O vínculo [Luís Bernardo foi jornalista e assessor] que tenho ao SLB é no âmbito de uma prestação de serviços, através de uma empresa de comunicação na qual sou administrador. Sou profissional com mais de 20 anos de direção de diferentes entidades ao nível de comunicação, nunca fui nem sou forçado a fazer qualquer papel imposto que contrarie a minha vontade. No Benfica não se entende este cargo como uma espécie de animador ou instigador.

3. Ainda consegue 
retirar prazer ao ver 
um jogo de futebol?
Claro que sim.

4. Assume alguma responsabilidade nesta escalada verbal que se assiste em alguns programas de TV?
Nunca me viram a responder a jornalistas e comentadores e tenho procurado manter um registo institucional na comunicação do clube.

5. Qual o envolvimento 
dos presidentes na elaboração destas estratégias de comunicação?
O presidente define as grandes linhas de orientação em todas as áreas relevantes do clube, e depois a concretização dessa estratégia e a gestão do dia a dia é feita pelos profissionais dos diversos sectores.

6. Os treinadores estão 
a par e/ou são chamados a envolverem-se?
Existe uma articulação entre a comunicação institucional e o futebol, respeitando-se claramente as naturais especificidades de cada área. Aqui não é necessário haver recados ou clarificações sobre, por exemplo, quem fala em nome do futebol do clube.

7. Porquê a existência 
de programas de televisão como “Chama Imensa” 
e “Universo Porto da Bancada”?
O “Chama Imensa” é um programa que existe há três meses na BTV e está em linha com diferentes programas de análise aos jogos do fim de semana. É perfeitamente natural e justificável a sua existência, desde que a denúncia de determinadas situações não seja o único fundamento para a sua existência.

8. Programas como estes fazem parte de uma estratégia comunicacional? 
Com que objetivo? E que dividendos se retiram daqui?
Não podemos comparar um programa que há mais de um ano faz da sua essência o ataque sistemático a um outro clube rival com um programa como o “Chama Imensa”, que só esta semana esteve a abordar especificamente um conjunto de informações que entendeu tornar públicas.

9. Tem noção que a agressividade deste tipo de comunicação está a prejudicar o futebol português?
Quando um programa que existe tem como base uma suposta informação roubada a outro clube e se divulga troca de correspondência privada está tudo dito. É um crime cometido semanalmente.

10. Qual o papel que os diretores de comunicação devem tomar para contribuir para a pacificação do atual estado
Muitas vezes fomos acusados até de demasiada descrição e sobriedade. Essa atitude até foi apontada como um defeito, mas partia da convicção de que perante o descontrolo dos nossos rivais mais tarde ou mais cedo tudo se tornaria insustentável. Por outro lado, temos a lucidez de fazer uma autocrítica em determinadas situações. Ainda recentemente houve um tweet pouco feliz da nossa parte, que indiretamente afetou um árbitro que é respeitado pela sua honestidade e integridade, que foi o caso do Artur Soares Dias.

11. Já foi retirado algum patrocínio ao clube face ao tipo de comunicação que está a ser praticada? Por outro lado, algum patrocinador já se manifestou incomodado com este tipo de estratégia?
Apesar do ruído e clima gerado, até hoje ainda nada ocorreu.

12. Os presidentes 
da Liga e da Federação Portuguesa de Futebol 
já falaram consigo 
ou recomendaram algum tipo de atitude?
Penso que no meu caso tal não é necessário e, como tal, talvez por isso, nunca ocorreu.

13. As intervenções nas redes sociais por parte dos diretores de comunicação contribuem também para alimentar o clima de crispação do futebol português?
Não tem sido essa a minha atitude, infelizmente outros têm outras opções. O resultado não é bom.

14. Se nos anos 80 e 90 os clubes tivessem as suas próprias televisões 
e as redes sociais já existissem, 
o que hoje se passa, 
passar-se-ia nessa altura?
Muitas das discussões de café e entre amigos têm agora uma oportunidade de serem ampliadas através das redes sociais de acesso livre e noutros espaços mediáticos. Não é possível comparar realidades diferentes, nos termos e nos ritmos.

15. Os diretores de comunicação dos clubes falam com os comentadores desportivos para os preparar antes dos debates?
Não passemos esse atestado de menoridade à grande maioria dos comentadores. Agora, estou sempre aberto para dar esclarecimentos sempre que sejam solicitados.