Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

No futebol como no amor, o melhor processo é ter processo: está aí o FC Porto-Benfica

Juntar amor e futebol num título não é para todos, como não é para todos escrever como Rui Malheiro o faz sobre futebol. E por isso é que temos de ler o que ele tem para explicar sobre o jogo que todos anseiam: FC Porto-Benfica, 20h30, Estádio do Dragão

Rui Malheiro

getty

Partilhar

O empate do FC Porto na deslocação ao terreno do Desportivo das Aves (1-1) mudou a cara do clássico. Isto porque o Benfica, bem para lá da pungente goleada imposta a um fragilíssimo Vitória de Setúbal (6-0), encurtou para três pontos a diferença pontual para o líder do campeonato, que entrará em campo com a pressão acrescida de poder ser alcançado/ultrapassado pelos dois diretos antagonistas na corrida pelo título, algo que nunca aconteceria se tivesse ganho na Vila das Aves.

Assim, na antecâmara de uma semana efervescente para o FC Porto, que receberá o Mónaco na próxima quarta-feira à distância de um triunfo dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, onde o Benfica ainda não somou qualquer ponto, dilacera-se o cenário catastrófico de um adeus benfiquista à luta pelo inédito penta no primeiro dia de dezembro, o único plausível caso o fosso pontual se dilatasse para oito pontos, e abre-se a possibilidade, que até há cinco dias parecia inverosímil, de os encarnados poderem sair do Dragão em igualdade pontual na classificação com o rival.

Contudo, o maior engodo em que se poderá cair, até pela curtíssima diferença de quatro dias entre as duas partidas, é passar da depressão profunda de Moscovo à euforia do rolo compressor da receção aos sadinos na Luz. A mudança de organização estrutural promovida por Rui Vitória, ao abdicar de um 1x4x4x2 estagnado e conjeturável para recorrer tardiamente a um 1x4x3x3 – que parte, em momento defensivo, de um 1x4x1x4x1 – não resolve os problemas do Benfica, que se centram na parca qualidade do processo de jogo ideado pelo seu treinador, mas pode garantir uma ocupação mais racional dos espaços e, sobretudo, que mais jogadores com qualidade individual acima da média caibam no mesmo onze. O que ajuda a marcar clivagens profundas em vários jogos, já que uma equipa que assenta o seu sucesso em premissas individuais estará sempre mais perto de ganhar se conciliar Jonas, Pizzi, Krovinovic, Zivkovic e Grimaldo no mesmo onze.

getty

No entanto, no futebol como no amor, na comunicação ou na (arte da) guerra, o melhor processo é ter processo. Por isso, importa não olvidar que a calamitosa exibição que conduziu à derrota em Moscovo (0-2), ante um CSKA distante da fulgência que o FC Porto já evidenciou esta temporada, aconteceu com a equipa organizada estruturalmente em 1x4x3x3, incapaz de esconder as debilidades profundas nos seus processos defensivo e ofensivo, subtraídas da presença de Zivkovic (entrou aos 83 minutos), Krovinovic (não foi inscrito na Liga dos Campeões) e Grimaldo (lesionado). Viu-se, então, uma equipa partida em dois blocos, sempre com inúmeras dificuldades em oferecer linhas de passe ao portador da bola, votado quase sempre a um total ostracismo, como também o paupérrimo critério em zonas de criação, onde, além da sobreposição de jogadores, a busca de cruzamentos largos para Jonas – abandonado entre três centrais de elevada estatura – estava condenada ao insucesso. Do ponto de vista defensivo, o desastre não foi menor. Tudo começava numa pressão individualizada de Jonas, incapaz de condicionar a primeira fase de construção face a três defesas-centrais que rodavam a bola com facilidade, mas também pelas inúmeras complexidades em controlar o espaço entre a linha intermédia e a ofensiva, e entre a linha defensiva e a intermédia, já que o posicionamento em linha – ora horizontal, ora vertical – do tridente de médios-centro, sempre muito distante de Jonas, abria crateras para o opositor explorar.

Depois, quando o Benfica defendia mais baixo, até pela ausência de Svilar e Rúben Dias, jogadores que, face à sua agressividade posicional, afiançam um controlo mais incisivo da profundidade e a possibilidade da última linha se posicionar mais alta, afundava-se com extrema facilidade dentro da sua área, desguarnecendo o espaço à frente desta. Algo que poderá ser autodestrutivo ante um rival como o FC Porto, extremamente incisivo no ataque a segundas bolas.

getty

Apesar de se afigurar como certo o recurso do Benfica a uma organização estrutural em 1x4x3x3/1x4x1x4x1, dando sequência ao que aconteceu nos últimos cinco jogos oficiais, resta perceber se Rui Vitória, que nunca derrotou os dragões em 17 jogos oficiais (6 empates, 11 derrotas – 10 golos marcados, 36 golos sofridos), com tudo a ganhar e muito pouco a perder, resiste à tentação de oferecer maior robustez e centímetros ao sector intermediário, abdicando de Pizzi ou Krovinovic para lançar Samaris. Ou se, caso opte pela titularidade do internacional grego, não desloca um dos criativos para os corredores laterais, abdicando de Cervi, Zivkovic ou Diogo Gonçalves. Isto porque Salvio, a imagem do futebol de vertigem (individual) que preconiza, dificilmente não será titular.

No FC Porto, as dúvidas sobre qual a estrutura que Sérgio Conceição irá utilizar são maiores. Contudo, o jogo do líder do campeonato, independentemente da opção pelo recurso ao 1x4x2x3x1/1x4x4x1x1, não sofrerá alterações substanciais, pois manter-se-á fiel a uma dinâmica e a uma vertigem cáusticas, sustentadas pela impressionante velocidade colocada na circulação da bola e na vontade indómita em chegar rápido e com muitos jogadores a zonas de finalização. Algo que, por vezes, como se viu na Vila das Aves, resvala em impaciência e em pouco critério na construção e na criação, dificultando ou inviabilizando a chegada com qualidade à área rival.

No entanto, tudo assenta na mobilidade incessante das suas unidades, onde é evidente uma maior tendência por indagar o jogo exterior do que a combinação curta no espaço interior, na agressividade esdrúxula colocada nas ações com e sem bola, e numa reatividade tremenda à perda que procura asfixiar o adversário através da pungência da primeira linha de pressão. A grande diferença entre as duas estruturas acaba por ser o maior equilíbrio que oferece o 1x4x2x3x1/1x4x4x1x1, permitindo que a equipa defenda de forma mais curta e compacta, não correndo tantos riscos de desequilibrar no momento de transição, além de evidenciar uma contundência tremenda na exploração de contra-ataques e ataques rápidos, onde a potência de Aboubakar e Marega, servidos pelo incisivo desequilibrador Brahimi – cada vez mais envolvido com o coletivo – ou através de uma construção mais longa, é o mote para chegar com ferocidade à baliza adversária.

getty

Dos vinte jogos oficiais disputados pelos portistas em 2017/18, dez ocorreram na condição de visitado. Em sete dessas dez partidas, o técnico dos azuis e brancos recorreu, de início, ao 1x4x4x2, tendo as exceções sido os confrontos diante de Leixões (Taça da Liga, 0-0), Belenenses (campeonato, 2-0) e Portimonense (Taça de Portugal, 3-2). Contudo, nos jogos de grau de dificuldade mais elevado disputados no Dragão, ante Besiktas e Leipzig, Conceição acabou por recorrer, durante a partida, ao 1x4x2x3x1/1x4x4x1x1: ao intervalo, quando perdia por 1-2, frente aos turcos; aos 13 minutos, por lesão de Marega, diante dos alemães. Também tem sido essa a estrutura a que tem recorrido nos jogos de grau de dificuldade mais elevado fora de casa. Foi assim ante Rio Ave (2-1), Mónaco (3-0), Sporting (0-0), Leipzig (2-3) e Besiktas (1-1).

Ante o Benfica, Sérgio Conceição não poderá contar com o castigado Corona e será a opção que tomar em relação ao seu substituto a definidora da estrutura inicial. Se a escolha passar por formar um corredor direito com Maxi (ou Layún) e Ricardo, o FC Porto deverá apresentar-se em 4x4x2 com Aboubakar e Marega (ou Soares) a formarem a dupla de ataque. Caso a preferência seja a de colocar Marega no corredor direito do ataque, Conceição não deverá juntar de início Aboubakar e Soares na frente do ataque, pois correria o sério risco de desequilibrar a equipa em momento defensivo. Por isso, a titularidade do franco-maliano no corredor direito deverá conduzir à opção por um terceiro médio, com Sérgio Oliveira – a opção habitual nos jogos de grau de dificuldade mais elevado – a afigurar-se, em relação a André André, Óliver e Otávio, como principal candidato ao lugar, o que libertará Herrera para opções mais avançadas com e sem bola (preponderante na subida das linhas de pressão).

getty

Assim, o FC Porto deverá apresentar-se entre o 4x4x1x1 (momento defensivo) e o 4x2x3x1 (momento ofensivo), e dificilmente não quererá impor um ritmo elevado no jogo logo desde o início, sempre com uma agressividade extrema com e sem bola. Com o Benfica a adotar uma organização estrutural em 4x3x3, que parte, muitas vezes, em momento defensivo, de um 4x1x4x1, tudo aponta para um encaixe tático, onde as movimentações de Brahimi para o espaço interior no ataque às entrelinhas poderão ser um fator de desequilíbrio crucial, caso o Benfica revele dificuldade, como aconteceu em Moscovo, no controlo das entrelinhas. Os lances de bola parada, principalmente os laterais, em que as duas equipas são muito fortes (o FC Porto ainda mais dilacerante do que o Benfica), também poderão ser preponderantes e poderão ser mais um motivo para Rui Vitória abdicar de um criativo para lançar um médio de contenção como Samaris, de forma a ganhar centímetros. Mas é (quase) sempre o cérebro a fazer a diferença.