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Um conto de dois guarda-redes

Guarda-redes. Esta deverá ser a segunda vez esta década que FC Porto e Benfica jogam com portugueses na baliza. Uma história de lendas e sombras

Diogo Pombo

Um de vários pontos em comum entre Bruno Varela e José Sá é que ambos já erraram esta época e tiveram culpa em golos que a equipa sofreu

FOTO Carlos Rodrigues/Getty Images e FOTO Murad Sezer/ REUTERS

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Júlio César chegou primeiro (2014/15) ao Benfica, Iker Casillas na época seguinte ao FC Porto, e mesmo que ambos não fossem guarda-redes muito bons, ou excelentes, era sabido que vinham para jogar sempre. Os reflexos, a destreza e o tempo de reação, as defesas decisivas, as intervenções que rendem pontos e a voz de comando na área — eles continuavam com tudo isso. Eram homens vividos entre os postes de equipas grandes, mais do que habituados aos longos hiatos de ação, a terem de se manter concentrados nos jogos em que a bola anda, quase sempre, longe deles.

O brasileiro e o espanhol foram jogando, defendendo e salvando as equipas, errando e comprometendo-as também, um ganhando e o outro vendo-o ganhar. No fundo, foram jogando por serem quem são — salvo quando tinham lesões, que roeram ambos e também Ederson, um fenómeno de guarda-redes que tapou Júlio César no Benfica. E os dois entraram nesta época para serem titulares, quase incontestados na sua supremacia.

Só que nenhum deles vai jogar o clássico que pode mudar a liderança do campeonato. Porque dois tipos que, com eles no plantel, viviam na sombra, quase como meras precauções para a eventualidade de eles se magoarem, passaram-lhes à frente. José Sá e Bruno Varela são novos (24 e 23 anos), não têm muita experiência (21 e 34 jogos na primeira liga) e, provavelmente, vão ser titulares no clássico de hoje. Será apenas a segunda vez na última década que haverá dois portugueses na baliza de FC Porto e Benfica, embora “ainda não tenham conquistado o seu espaço”, ressalva António Fidalgo, hoje comentador e outrora guarda-redes que defendeu os encarnados no espaço mais ingrato e subvalorizado do futebol.

É nesse espaço, que deverá ser deles mas do qual ainda não são donos, que cabe a história de como chegaram lá.

Bruno Varela nasceu em Lisboa e dos arredores de Ponte Frielas foi para o Benfica, bem novo. As primeiras chuteiras, equipamento e luvas para sujar deu-lhe a mãe, Joana, que poupava e “passava fome”, segundo disse à BenficaTV, em prol do sonho do filho, que demorou a compor-se. Teve um empréstimo de suplente no Valladolid e outro de titular no Vitória de Setúbal, na última época, para convencer o Benfica a comprá-lo de volta e a justificar o que se esperava dele quando era júnior.

Nesse escalão ganhou a companhia de José Sá, um miúdo com sotaque do Palmeiras FC, perto de Braga, onde limara a reputação de ser molengão e distraído, toldando a aptidão para ser bom guarda-redes com a atitude de quem demorou a ter vontade de estar na baliza — chegou a querer trocar o futebol pelos escuteiros, contou um ex-treinador ao “Record”. Uma época no Merelinense fê-lo cair no goto do Benfica, onde o súbito desejo de Ederson em jogar vagou o espaço no Eagle One, projeto que o clube preservava para gerar um guarda-redes para o futuro. O preferido foi Bruno Varela.

Assim, o rapaz com sotaque foi para a Madeira fazer pela vida. Em quatro anos de Marítimo, nem aos 25 jogos chegou, dando esporadicamente nas vistas — menos do que no Europeu de sub-21 em 2015, que fugiu à seleção nos penáltis, onde Sá estava, na baliza, a tentar pará-los. Mas o olho do FC Porto interessou-se por ele na época passada, para ser a sombra da lenda querida, quase incontestada, bem assalariada e que, já o escrevemos, jogaria sempre por ser Iker Casillas.

Só que a lenda, um confesso abençoado pelos reflexos e pela agilidade inatas, que nunca foi muito de trabalhar e de dar no duro, relaxou. Depois de fazer o melhor arranque de época da carreira (não sofreu golos nos primeiros 530 minutos do campeonato), o espanhol apareceu no banco de suplentes em Leipzig, num jogo para a Liga dos Campeões. O treinador falou em opção técnica e dissertou sobre as escolhas que faz com o que vê a acontecer no meio da semana. Nas entrelinhas, leu-se que Casillas foi mandrião, abrindo espaço para quem era calão em miúdo.

José Sá estreou-se na melhor das companhias: com um treinador que recompensa o trabalho, o esforço e a dedicação diárias com a titularidade. Mas, à primeira, errou, numa bola que não agarrou por duas vezes. A equipa sofreu um dos três golos da derrota diante do Leipzig com a maior parte da culpa a cair no guarda-redes. “Consciente ou subconscientemente, os guarda-redes sabem que, quando estão a jogar, um erro pode ser fatal. Há sempre alguém para os substituir. Não é uma posição muito cómoda. É o único jogador que não pode errar, praticamente”, explica António Fidalgo, tocando no ponto que une Sá a Varela — ambos cometeram erros que conseguiram ultrapassar.

O guarda-redes do Benfica também não agarrou a bola disparada no livre que contribuiu para a derrota com o Boavista, à sexta jornada do campeonato. Passou cinco partidas no banco e só voltou à baliza mais de dois meses volvidos. “Ainda teve de se superar e transcender mais, já que foi relegado. Eles têm uma personalidade bastante forte e vincada, nota-se que são trabalhados nesse aspeto [mental] pela forma como reagem aos golos em que têm culpa. Notei a postura corporal: estão abatidos, sim, mas já a tentar ultrapassar isso”, analisa Fidalgo.

Cometido o erro, Varela encarou-o para voltar ao espaço que deve ocupar por culpa, também, de Mile Svilar, o adolescente que se apressaram a apresentar como uma solução. E da lenda mal gerida pelo clube, pois julgava-se que Júlio César padecia de mazelas crónicas que o limitavam a olhos vistos mas, afinal, ele já não ia treinar motivado e queria acabar a carreira a jogar. Por isso despediu-se do Benfica, na quinta-feira, em lágrimas.

José Sá e Bruno Varela estão a ganhar pulso às horas com a bola na outra área, a aprenderem a serem pacientes como guarda-redes de equipa grande. “Acho o Sá mais posicional, tenta estar sempre no sítio certo. O Varela tem outra mobilidade, sai mais da baliza, é mais interventivo, arrisca mais um bocadinho”, compara António Fidalgo. Mas ambos saíram da sombra das lendas. Se as vão tapar, é uma questão de tempo.