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Fernando Gomes e o clima de guerrilha: "Os clubes são os primeiros interessados em que este estado de coisas não exista"

O presidente da Federação Portuguesa de Futebol concedeu uma entrevista, publicada esta terça-feira, ao jornal "A Bola", que o elegeu como Homem do Ano, e fez considerações (embora algo vagas e politicamente corretas) sobre vários temas do futebol português: o VAR, o que espera da seleção no Mundial, o G15 e as tensões e guerrilhas que se têm visto. Eis alguns excertos dessa entrevista

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Foto Luís Barra

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Os custos e a fé no VAR

“Nunca dissemos, até porque conhecíamos perfeitamente quais eram, no protocolo do IFAB [International Football Association Board], as áreas de intervenção, que os erros iam ser eliminados. O que dissemos, e continuamos a afirmar, é que, com esta tecnologia, conseguiremos com certeza mais decisões e, por essa forma, mais verdade desportiva nas nossas competições.”

“A primeira discussão sobre o assunto, recordo-me perfeitamente, foi em janeiro de 2016.”

“Hoje, e ainda não acabou a primeira volta, temos 25 decisões revertidas (...) se duplicarmos estas 25 decisões revertidas, no final da época teremos 50. Ou seja, cada decisão vai custar-nos cerca de 20 mil euros. E eu pergunto: o que são 20 mil euros para tomar uma boa decisão, quando sabemos que esta indústria em Portugal gera, em termos de competições profissionais, cerca de mil milhões de euros? Diríamos que é um valor relativamente pequeno.”

“Do nosso ponto de vista, não tem qualquer possibilidade de voltar atrás.”

E a fé maior no Mundial

“Tenho grande confiança no Fernando Santos e o que vamos, de certeza, fazer é tentar ganhar todos os jogos. Não seremos favoritos a ganhar o Mundial, mas estaremos lá a lutar pelo Campeonato do Mundo, não tenho dúvidas.”

O clima de guerra no futebol português

"Os clubes são os primeiros a estarem interessados em que este estado de coisas não exista, porque todos sabemos que assim se afastam patrocinadores, espetadores dos estádios. Portanto, têm de ser os próprios clubes, que são os primeiros interessados em defender a indústria, a encontrar um ponto de equilíbrio quanto à sua proteção."

“De vez em quando acontecem situações desse tipo, que são todo detestáveis, desnecessárias, e de uma falta de cultura desportiva brutal. Porque os árbitros, como seres humanos, têm o direito de errar. São, obviamente, os primeiros a não querer errar, mas a verdade é que se ficam com a carga do desonesto, do corrupto, do ter feito de propósito. Não é agradável. Farei tudo o que tiver ao meu alcance para proteger os árbitros.”

“A nossa cultura desportiva é completamente diferente da cultura desportiva dos países do Norte [da Europa]. Vivemos, se calhar, de forma muito mais intensa o nosso clube do que o desporto em si. Em algumas circunstâncias, essa paixão exacerbada leva as pessoas a não fazerem a apreciação mais correta.”

“Não digo que, genericamente, os clubes possam motivar essa paixão exacerbada. Acho é que os dirigentes dos clubes são adeptos. E, como disse antes, essa paixão exacerbada pode, também neles, exagerar algum tipo de comportamentos.”

“Acima de tudo, em 2018, que sejam eliminados os focos de alarme que denunciámos, nomeadamente na AR. Que aquele espírito de competição sadia, que hoje em muitas circunstâncias, felizmente, temos oportunidade de ver entre treinadores e jogadores, como na final da Taça o ano passado, entre Rui Vitória e Pedro Martins, e que já tivemos oportunidade de ver entre outros protagonistas. Há rivalidade, lutamos para alcançar um objetivo, sim, mas que tudo seja fruto de uma sã rivalidade, daquilo que se fizer dentro de campo.”

O G15 e o não deixar clubes de fora

“Também me parece que esse movimento, ou qualquer outro, tem de ser inclusivo e não exclusivo. Porque a luta pela defesa dos interesses do futebol é uma luta global, não do A, B ou C, e não deste grupo, excluindo o A, B ou C. Não faz sentido criar um movimento regenerador ou potenciador da indústria do futebol deixando de fora quem quer que seja. Não podemos esquecer a nossa realidade, são três os clubes que reúnem a maioria dos adeptos e, portanto, todo e qualquer movimento de discussão sobre o futebol português tem de ser feito com todos.”