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O ensaio possível sobre o absurdo (a crónica do jogo que não contava para nada)

Vitória de Setúbal e Benfica empataram (2-2) num encontro que começou às 21h15 de uma sexta-feira que antecede o reveillón

ANT\303\223NIO COTRIM

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Para começo de conversa, basta dizer-vos que isto não interessava praticamente a ninguém, provavelmente nem aos implicados. Aos jogadores. Aos árbitros. E aos poucos adeptos que trocaram um programinha qualquer por uma noite fria em Setúbal para assistir ao absurdo: um jogo às 21h15 num fim de semana de réveillon de uma competição menor em que uma das equipas estava eliminada (Benfica) e a outra apurada (Vitória de Setúbal).

Para reforçar a aparente inutilidade daquilo que poderão ler aqui, digo-vos também que Rui Vitória não lançou sequer o jogo em conferência de imprensa - porque o protocolo da Taça da Liga não tem essa obrigatoriedade - e que José Couceiro falou em coisas estranhas - porque não era normal o Vitória passar à fase seguinte num grupo onde estavam o Benfica e o Braga.

Ou seja, este era um jogo particular camuflado de jogo oficial que poderia rapidamente transformar-se num jogo amigável até se cristalizar na categoria mais baixa de toda a tipologia das jogatanas: o joguinho-treino, aquele em que ninguém se quer lesionar, que serve para testar novas soluções e dar gás a futebolistas com crises existências ou que estão, simplesmente, fora de forma.

E os onze escolhidos, sobretudo o do Benfica, legitimaram esta teoria. Lá estavam Douglas e Eliseu, ambos com um pé fora da Luz, e também Filipe Augusto e Rafa, que tinham sido titulares pela última vez a 22 e a 18 de novembro; e, por fim, o miúdo João Carvalho e Seferovic, que estava a zero desde outubro.

Portanto, sem grandes pontos de interesse competitivos para seguir, o melhor era procurar algumas peculiaridades para entreter: os mergulhos espertalhões de Eliseu, a bandana de Svilar, as perdas de bola de Filipe Augusto, o killer instinct de Samaris (isto é literal) e os disparates de Douglas; e recordar que, do lado vitoriano, o defesa André Sousa é filho de Hélio Sousa e Gonçalo Paciência é filho de Domingos, o que faz deles bons jogadores com sangue de grande jogadores - e ambos fazem de mim um pouco mais velho do que gostaria de admitir.

Mas isto já eram os devaneios óbvios de quem tinha muito tempo pela matar e pouco de interessante para fazer, a não ser esperar por Godot.

E depois Godot veio do nada: numa defesa incompleta de Svilar e depois no golo de Vasco Fernandes e depois na lesão de Svilar e depois na entrada de Varela e depois no falhanço de Varela no primeiro lance e depois no 2-0 de Pedro Pinto. Em pouco menos de nove minutos, e numa sucessão de cenas caricatas, as coisas mudaram de tal forma que até me pareceu ouvir Rui Vitória dizer “a vida é mesmo assim” ou “isto é futebol”.

Só que não ouvi uma uma coisa nem outra, e os jogadores do Benfica terão ouvido das boas do treinador ao intervalo - nos primeiros 45 minutos, Rui Vitória gritou e esbracejou continuamente com Samaris, Augusto e Douglas, porque, enfim, o jogo encarnado estava emperrado.

Na segunda-parte, o Benfica subiu ligeiramente o nível e houve jogadas com dois, três, quatro passes seguidos, mas o que realmente se viu foi o jeitinho de João Carvalho que rodou sobre um eixo imaginário para servir Seferovic (2-1). Seis minutos depois, Zivkovic, outro talento com uso intermitente, cruzou para o empate de Rúben Dias.

Foram os melhores momentos dos encarnados em Setúbal, instantes esses que chegaram a esconder a espaço as fragilidades e limitações de alguns dos seus futebolistas, como Rafa ou Douglas ou Eliseu e até Filipe Augusto, que a partir de agora estão definitivamente a mais num plantel demasiado extenso e composto para uma equipa que só está numa competição.

Bom, afinal de contas e apesar de não contar para nada, este jogo tinha propósitos rebuscados e escondidos: o de riscar quem está a mais na Luz e o de mostrar que o Benfica não tem ainda guarda-redes para grandes voos. No plurar.