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Sim, este é mais um texto sobre dérbis. E não, não vamos dizer quem vai ganhar

Quem é que vai ganhar? Bem, esta já não é a pergunta que interessa. Pedro Candeias explica porquê

Pedro Candeias

Gelson e André Almeida, um duelo com data marcada para esta quarta-feira (21h30, na Luz)

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O Benfica já ganhou 130 jogos ao Sporting e o Sporting 108 jogos ao Benfica e juntando os 62 empates chegamos ao total de 300 dérbis que o Benfica dominou em sua casa (82 vitórias, 32 empates e 32 derrotas) e o Sporting na dele (73 vitórias, 29 empates e 42 derrotas); em campo neutro, o Benfica derrotou o Sporting em seis ocasiões, empatou uma e perdeu três.

É possível que em cada um destes dérbis se tenha escrito textos sobre táticas, basculações, pontuações, remates, golos, bolas paradas, vantagens e desvantagens dos 4x3x3 e e dos 4x4x2, e sobre treinadores e jogadores e momentos de forma - e estatísticas objetivas e outras apenas convenientes para legitimar prognósticos num desporto que, lá está, se decide em coisinhas tão pequenas como a superfície da ponta da chuteira que entra em contacto com a bola.

Já que quer saber, sim, este é mais um texto sobre o dérbi, mas esperamos que ligeiramente diferente dos anteriores, porque procura responder a uma questão muito mais simples e menos ambígua do que a sacramental “quem vai ganhar o jogo?”.

Aliás, nem sequer é uma pergunta, mas uma afirmação: esta quarta-feira, na Luz (21h30), o Benfica tem muito mais a perder do que o Sporting.

E o ponto de partida são os pontos.

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FC Porto e Sporting lideram o campeonato com 39 pontos, três a mais do que o Benfica, e um desaire deixa os encarnados a seis pontos dos leões no final da primeira volta; e seis pontos são duas derrotas e também os pozinhos extra do confronto direto.

Este seria o efeito imediato, ou matemático, que se traduziria numa segunda volta a tentar arrepiar caminho, em contrarrelógio e até contracorrente, porque o futebol do Benfica tem sido objetivamente menos vistoso e seguro do que o dos rivais - e se assim foi até dezembro, nada faz supor que melhore a partir de janeiro num cenário de perseguição ao(s) líder(es) e com reajustes no plantel.

Como houve erros claros na reconstrução do plantel - as contratações absurdas de Douglas, de Gabigol e, se quisermos, de Svilar - o Benfica anda à pesca em janeiro para reduzir ao mínimo os estragos feitos em agosto. Só que contratar quando se está na luta não é a mesma coisa do que contratar quando se está a seis pontos; na verdade, é coisa completamente diferente e basta repescar o que o Sporting andou a fazer em janeiro de 2017, logo que se percebeu que não ia a lado algum: recuperou os miúdos e despachou os encalhados.

Portanto, até ao momento, estamos nos pontos e nos reforços.

Agora, o treinador.

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Não é secreta a razão que levou o Benfica a contratar Rui Vitória - foi Jorge Jesus. O clube precisava de alguém que alinhasse sem pestanejar com a política desportiva - vender caro, comprar barato, promover putos e continuar a ganhar; enfim, a utopia - e que pegasse no trabalho de Jorge Jesus e lhe retirasse as loucuras e os devaneios. Há momentos assim, em que à terapia de choque se segue a palmadinha nas costas, e Rui Vitória soube fazê-lo com cara de poker, mantendo-se no tal caminho sem grandes mudanças de humor - mas sem rasgos de criatividade.

Ora, perdendo contra o rival em casa, Rui Vitória fica fragilizado porque há um contexto que o envolve e aperta: em dezembro, o Benfica saiu das competições europeias, caiu da Taça de Portugal contra o Rio Ave e foi eliminado da Taça da Liga pelo Portimonense; a Liga é tudo o que lhe resta. Sim, o plantel está mais fraco, mas não está assim tão fraco que justifique os três trambolhões consecutivos.

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Por outro lado, é pouco provável que Luís Filipe Vieira despeça Rui Vitória a meio do ano, seja em que circunstância for, pelo que uma derrota na Luz e o consequente esvaziamento de objetivos poria o Benfica em banho-maria durante uns valentes meses.

Além disso, Luís Filipe Vieira terá mais que fazer nestes dias. O Benfica está metido em vários sarilhos, em primeiro lugar sarilhos eletrónicos, porque a sua correspondência interna foi espalhada pela internet e nela há quem veja indícios de coisas ilícitas - o Ministério Público está a tentar perceber se há corrupção passiva e ativa e já abriu uma investigação ao chamado “caso dos e-mails”. Mas há outros: o Correio da Manhã escreveu que o Rio Ave-Benfica de 2015-16 estava a ser investigado por manipulação de resultado e o Ministério Público confirmou ter retirado uma certidão do processo “Jogo Duplo” (apostas); alegadamente, empresários próximos do clube terão tentado pagar a futebolistas do Rio Ave para que estes entregassem os pontos num campeonato que os encarnados conquistados com um ponto de vantagem.

E um ponto é o que chega ao Benfica esta quarta para que nenhuma destas previsões se concretize e para que todos os argumentos aqui expostos se esfumem no éter.