Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

Rui Vitória: no more Mr. Nice Guy

Ao intervalo, a bola, os passes e os remates estavam com o Benfica, mas o Sporting vencia. E os encarnados acabaram o dérbi com mais de tudo (24-9 em remates) porque, por fim, Rui Vitória foi arrojado, arriscou na abordagem e nas substituições e forçou a equipa a caçar o que teve aos 90 minutos: um golo de Jonas, de penálti

Diogo Pombo

MANUEL DE ALMEIDA/ Lusa

Partilhar

“300” é o filme que, com tiques de ficção, relata a estória de três centenas de guerreiros espartanos que, à vantagem topográfica de um desfiladeiro estreito e perigoso, juntaram atributos como valentia, coragem, falta de parafusos na cabeça e brutalidade para enfrentarem a desvantagem (em milhares) nos números. O filme entretém, tem ação e cadência rápida, também, porque são liderados por um rei valente, corajoso, brutal e muito mais maluco que eles, que fala aos berros e faz parecer inspiradora qualquer frase que lhe sai da boca.

Esse rei, no caso do Benfica, salvas as diferenças de estar bem vestido, sem armadura ou barba, e nunca levantar a voz, é Rui Vitória. E como o treinador do Benfica é ávido fã de metáforas, permitam-me doravante esta, por favor. Rodeado por um contexto tão adverso como o do rei Leónidas - apertado por números antipáticos (oito derrotas, seis na Liga dos Campeões), por contratações inusitadas (Douglas, Gabigol, etc.), pela eliminação de tudo o que era a eliminar e por polémicas com e-mails e tudo o que eles revelam -, Rui Vitória fez o improvável:

Entrou no dérbi contra um rival em melhor forma, com mais moral e com maior número de jogadores a renderem o que deles se espera, melhor.

Ele, que não é de berrarias ou de acentuar os decibéis da voz para inspirar os seus, mas é um coleccionador de frases inspiradores que, de tantas vezes usadas por tanta gente, se tornam redundantes, consegue fazer com que o Benfica tenha a bola, a intensidade e a rapidez que obrigam o Sporting apertar-se junto à própria área. A equipa não é capaz de sair de trás, em posse, com passes para virarem os laterais para o jogo; Bruno Varela despacha ao pontapé qualquer bola que lhe chega, mas a equipa mascara os defeitos que tem desde o verão com os três da vida atinada no centro do campo e com agressividade no ataque às segundas bolas.

Pizzi, Jonas e Krovinovic são poucos contra uma equipa que Jesus concentra ao meio, pois Gelson e Acuña fecham dentro e Bruno Fernandes, que recua muitos metros sem a bola, fazem a diferença. Sobretudo o brasileiro, que sai da área para tabelar e dar uma parede a passes assim que a equipa recupera a bola; e o croata, que corre muito pela esquerda para formar triângulos com Grimaldo e Cervi. É pelos mais rápidos da equipa que o Benfica fura linhas, ataca espaços e cruza. Faz mais passes com a mais bola que tem.

Só que o futebol, que também tem na paciência e no oportunismo e no saber esperar pelas abertas uma virtude, junta tudo isso na bola que Coentrão recebe após Rúben Dias cortar um cruzamento de Acuña. Os defesas encarnados ficam estáticos, o lateral tabela com Bruno Fernandes, cruza e um dos tipos mais baixos em campo salta mais alto que outro. Gelson faz o 1-0 aos 19’.

E aí deverão ter aparecido todos os gritos e berros de guerra, que a gíria diz os jogadores não precisarem para jogos destes. O ritmo aumentou, a partida fugiu ao controlo de qualquer lado e o Benfica, mais intenso, rematou muito à baliza de Rui Patrício, enquanto os jogadores do Sporting se desposicionavam muito com as segundas bolas que perdiam e as tentativas de contra-ataque que falhavam. Por isso não houve um médio que acompanhasse Salvio, por dentro, quando o argentino recebeu o passe de André Almeida e o Jardel cabeceou o seu cruzamento. Não foi golo porque a bola bateu no corpo de Piccini.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Como não o foi a seguir, num remate de Jonas, ao segundo toque sendo o primeiro de peito, que foi contra a cara de Coentrão; e porque o pontapé de Krovinovic bateu na barra. E o croata voltou a rematar na área, assim como Grimaldo fora dela, bolas menos perigosas que as disparadas pelo pé esquerdo de Acuña e o direito de Bruno Fernandes. Ambos fora da área, já que o Sporting atacava rápido e vindo mais de trás, os dois parados por Bruno Varela.

A equipa que rematava mais vezes (7-9), tinha mais companhia da bola (quase 60-40%) e mais passes fazia (ultrapassou os 200), estava a perder. Jesus era o primeiro treinador do Sporting a vencer na Luz ao intervalo. Rui Vitória, talvez apenas pela segunda ou terceira vez esta época, via o Benfica a ser como deve ser.

Essa equipa intensa, atacante, a terminar quase todas as jogadas perto da área contrária, a perceber que o seu mundo é um lugar mais feliz quando a bola é de Krovinovic antes de ir ter com Jonas, foi-o mais ainda. O Benfica continuou pressionante, a projetar os laterais e a fazer André Almeida comportar-se como Grimaldo, a cruzar muito a bola e a encostar os seus médios à área para, das duas uma, obrigar o Sporting a despachar a bola ou recuperá-la logo ali. Resultava.

Os leões era rodeados pelo ritmo intenso e pressionante. Gelson e Acuña canalizavam energias para perseguir os laterais. A bola era despachada para o mais perto possível de um sozinho Bas Dost, o que é muito diferente de passá-la diretamente para o homem mais avançado. O Sporting não arriscava um milímetro, a prioridade era fechar os espaços e tentar ter a bola o máximo tempo possível. Ia-se esforçando para conseguir a primeira, às vezes nem tentava a segunda.

E, vendo isto, Rui Vitória foi um barbudo e musculado Gerard Butler a interpretar o efusivamente gritante rei Leónidas, mas à sua maneira - pelas substituições. O treinador arriscou trocando Pizzi por Jiménez (logo aos 55’) e igualando o Sporting nos números; tirou Fejsa para ter os sprints de Rafa e jogar com a sorte de ter André Almeida a trinco; e jogou ainda mais com ela quando o recuou para central e deixou Salvio a lateral direito, ao trocar Rúben Dias por João Carvalho.

Com o dérbi, o campeonato e, talvez, o seu futuro na corda bamba, o treinador do Benfica cativou os seus como não costuma - arriscando muito.

A equipa, empurrada por esses sinais, pela supremacia no jogo e o barulho dos adeptos, foi assaltando a baliza de Rui Patrício com remates e tentativas várias. Dos três remates de Jonas, dois foram desviados por Coates e Piccini e quase entravam na baliza. O central uruguaio, com o corpo que um central nunca pode ter virado para a baliza, desviou um passe que quase deu em auto-golo. E João Carvalho quase inventou o golo de uma carreira na ressaca de um canto, ao primeiro toque que deu na bola. E o encolhido, cauteloso e tímido Sporting apenas teve uma posse de bola controlada para lá da linha do meio campo aos 70’.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

O futebol é um jogo maravilhoso por ser imprevisível e nem sempre recompensar os audazes e os que mandam em todos os números que não os golos. Mas, em mais vezes do que menos, quem tenta e força e ataca e arrisca e tem mais vontade, acaba por ter o que quer.

E a bola que Rafa rematou e - depois de o árbitro consultar o VAR em duas supostas mãos na área - bateu no braço de Battaglia deu o penálti com que Jonas, por fim, se estreou a marcar contra o Sporting. Como marcara o primeiro da carreira ao FC Porto, na época passada.

O Benfica empatou aos 90’ e ainda viu Jiménez montar uma bicicleta para rematar uma bola que, nos descontos, rasou o poste esquerdo. Acabou o jogo melhor na posse de bola, nos passes e em todos os números, como nos remates: 24 contra os nove do Sporting, que apenas fez dois na segunda parte. A melhor exibição dos encarnados esta época coincidiu com o jogo em que Rui Vitória mais arriscou, tentou e se antecipou ao treinador rival. O Jorge Jesus que se conteve e se acautelou, como tantas vezes o faz ao defrontar equipas com melhores, ou semelhantes, armas.

O técnico, por norma calmo, imperturbável e um quanto aborrecido, saiu da zona de conforto. O Benfica não ganhou o jogo, mas ganhou moral, esperança, ânimo, jogadores e tudo o que há no lado psicológico que potencia o físico, a técnica e os pés que executam as coisas. Rui Vitória arriscou na abordagem, acentuou o risco nas substituições e foi arriscando jogar com a sorte.

O treinador do Benfica deixou de ser simpático, ou comido de cebolada, diria ele. No more Mr. Nice Vitória, dizemos nós.