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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Há penálti sobre Krovinovic? E sobre Corona ? E Edinho caiu ou deixou-se cair? (os casos da jornada, por Duarte Gomes)

Os jogos deste fim de semana decorreram com relativa normalidade. Isso significa que jogadores e árbitros – sublinhe-se, os únicos intervenientes diretos no jogo – acertaram mais do que erraram e deram o melhor de si em cada escolha, em cada decisão, a cada momento

Duarte Gomes

NurPhoto

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Não é demagogia, é mesmo verdade: quem já deu uns pontapés na bola ou pisou a relva um bom par de vezes, sabe que a responsabilidade, a adrenalina e a intensidade fazem muitas vezes a diferença entre tomar boas ou más decisões. É tudo muito rápido e momentâneo.

Claro que ajuda muito ser competente, honesto e experiente, mas não tenham dúvidas: jogadores, árbitros (e treinadores, os grandes timoneiros das equipas), dão sempre, sempre o seu melhor.

Mathieu, Edinho & penálti

MÁRIO CRUZ/LUSA

A jornada começou em Setúbal e dessa partida recuperamos o lance determinante: o pontapé de penálti assinalado por falta de Mathieu sobre Edinho. Não há muitas pessoas que possam questionar a justiça da decisão, tal a evidência da infração: o central francês puxou mesmo o braço do avançado sadino, desequilibrando-o e provocando a sua queda. A questão que se coloca é a nível disciplinar.

Quando foi carregado, Edinho – lançado em velocidade e em posição legal - tinha claras possibilidades de marcar golo. Uma vez que aquele agarrão/puxão não pressupôs intenção em jogar a bola, a única opção seria a expulsão e não a advertência do central leonino. O VAR podia e devia ter feito melhor, pois tinha a perspetiva televisiva perfeita para elucidar Fábio Veríssimo sobre o enquadramento global da jogada.

Tiba, Krovinovic & penálti?

Carlos Rodrigues

Na Luz, houve várias situações nas áreas, mas duas delas merecem aqui destaque: a primeira, pela oportunidade que nos dá em esclarecer a lei: Pedro Tiba agarrou o braço de Krovinovic, puxando-o literalmente para sua área de penálti e só o largando depois, sendo quase certo que ainda o fez no interior da área flaviense. O médio do Benfica prosseguiu a jogada e foi isso que (compreensivelmente) iludiu Bruno Esteves.

Mas a verdade é que o agarrão foi ostensivo, evidente e continuado, o que seguramente atrasou ou condicionou a sequência da jogada. Visto na TV, o lance devia ter sido punido com pontapé de penálti. Porquê? Porque diz a lei que todos os “agarrões continuados”, que começam fora e terminam dentro das áreas, devem ser punidos onde terminam.

Esta é, aliás, a única exceção a lances de faltas persistentes, pois todos os outros são sancionados no início da ação. Também aqui a evidência da infração (nas imagens, obviamente) sugere que o VAR podia, no mínimo, ter sugerido ao árbitro que visionasse o lance junto ao relvado.

Mais tarde, Jonas chegou primeiro à bola que Bressan e foi pisado pelo pé esquerdo do jogador flaviense. Não houve intenção (nem é necessário que exista) mas houve imprudência: o médio do Chaves não foi cuidadoso na abordagem e não teve em atenção que podia cometer falta. Mas cometeu e aqui todas as imagens que analisámos não deixaram margem para dúvidas. Percebe-se perfeitamente a ilusão de ótica que confundiu Bruno Esteves (lance rapidíssimo, dando a sensação inicial que Bressan tocara antes na bola), mas mais uma vez o VAR – se viu o que nós todos vimos – podia e devia ter dado melhor indicação ao seu colega de campo.

Joãozinho, Corona & penálti?

MIGUEL RIOPA/Getty

No jogo do Dragão, trazemos aqui três lances: o primeiro aos trinta minutos e que envolveu Joãozinho e Corona. Após cruzamento da esquerda, o jogador azul e branco caiu na área, não sendo percetível, no imediato, se com falta ou não do defesa do Tondela.

Vistas e revistas as várias repetições, pareceu-nos (com segurança quase absoluta), que houve mesmo motivo para pontapé de penálti: Joãozinho agarrou o braço direito do extremo mexicano, impedindo-o de chegar à bola (que estava ainda a uma distância considerável).

Lance quase impossível de ver em campo e que não foi totalmente evidente, claro e esclarecedor o suficiente para merecer a vídeo-intervenção, mas em nossa opinião, terá mesmo ficado castigo máximo por assinalar favorável ao FC Porto.

Na segunda parte, Ricardo Costa cortou a bola com o braço direito, na sua área. Aqui se levanta a dúvida habitual: em falta ou de maneira legal? A pesar a favor da legalidade do lance, o facto do remate ter sido forte e do braço do central estar colado ao corpo, sem qualquer volumetria. A pesar “contra”, a evidência incontornável que o capitão dos visitantes fez movimento ostensivo e deliberado em direção à bola.

Percebe-se a opção de árbitro/VAR em não intervir (houve mesmo dúvidas), mas se tivéssemos que colocar os dois pratos na balança, diríamos que o desenho daquele movimento e a experiência de Ricardo Costa pressupõem que houve mais penálti e menos inocência. Momento dificílimo, com justo benefício da dúvida para a equipa de arbitragem.

Por último, valorizar a excelente intervenção do VAR no lance do golo anulado a Brahimi: Marega estava mesmo em posição ilegal quando Aboubakar lhe fez o passe. Lance muito bem ajuizado, nova decisão de grande qualidade revertida com sucesso.

Vitória SC, Estoril & VAR

Salto rápido ao Vitória SC / Estoril, para duas ou três notas rápidas: a expulsão de Abner, em lance discutível mas aceitável: os jogadores estavam descaídos à direita, mas a verdade é que, quando foi carregado, o vimaranense seguia na diagonal, rumo à baliza do Estoril e só com o GR pela frente. Na sequência do respetivo pontapé livre, ficou por assinalar pontapé de penálti favorável ao Vitória: Jorge Sousa avisara os jogadores da barreira para não levantarem os braços, mas Eduardo levantou o esquerdo e bem alto, ao saltar para “crescer” no muro defensivo. O braço estava deslocado da zona normal, fora do corpo e impediu a passagem da bola para a área. O VAR sugeriu e bem, a revisão do lance, mais o mais certo é que o internacional do Porto não tenha visto a imagem que todos vimos ou feito a análise que fizemos.

Nota final para um lance entre Hurtado e Fernando Fonseca. O defesa do Estoril fez falta clara sobre o vimaranense, quando este arrancava em direção à área e a questão aqui era perceber se a jogada era passível de amarelo (como aconteceu) ou vermelho. Jorge Sousa optou pela advertência, devido à distância da baliza no momento da infração (o que se aceita). No entanto, neste caso concreto, convém perceber que o GR do Estoril tinha saída da sua baliza (estava já fora da área), Hurtado seguia em velocidade, estava mais perto da bola do que Renan e ainda havia a memória do lance da etapa inicial, cujo critério foi de rigor em lance igualmente discutível. Compreendemos a decisão, mas todos estes fatores sugerem que a expulsão poderia ter sido a opção mais coerente.

Portimonense, Braga & fora-de-jogo?

Para fechar, viagem ao Algarve: Paulinho estava mesmo fora de jogo no momento do passe de Raúl Silva. O VAR não tinha linha, mas há outros sentidos que ajudam a tomar boas decisões e a evidência deste lance, ainda que de escrutínio complicado, estava toda lá. Nove em cada dez pessoas diriam “fora de jogo”. E quando o futebol espera uma decisão…

No penálti assinalado para o Portimonense, benefício da dúvida à decisão do árbitro: o contacto foi evidente e depois é uma questão de interpretação. A nossa? Houve mais aproveitamento do avançado do que infração do defesa. Mas nós sabemos, melhor do que ninguém, que falar de sofá é muito mais fácil (e injusto) do que viver e sentir as jogadas no relvado.

Voltamos para a semana.