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A vitamina P - de penáltis e de muita parra e pouca uva

Houve duas lesões, um golo anulado pelo VAR, uma bola ao poste e 12 penáltis até o Sporting conseguir bater o FC Porto e seguir para a final da Taça da Liga. O segundo clássico da época entre leões e dragões teve mais faltas, passes falhados, ressaltos e más decisões do que se desejava. Dois anos e meio depois, o Sporting está perto de voltar a conquistar um título. Mas, se em 180 minutos de clássico não houve golos, como será nos 270 minutos (e três clássicos) que restam?

Diogo Pombo

JOSE COELHO/LUSA

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Há coisas que nós, meros cidadãos, mesmo sem acesso a olheiros, observadores, avalanches estatísticas e amostras de vídeo, sabíamos acerca das equipas que, em 71 dias, se iam defrontar pela primeira de quatro vezes, a segunda de cinco esta temporada. Um entrelaçar de jogos que, em princípio, não mudaria uma vírgula no que, abaixo, vão ler:

O Sporting é uma equipa adoradora do jogo interior, que são as tabelas, as jogadas ao primeiro toque e as trocas de posição por dentro, para descobrir espaço por fora, com base em ter e usar a bola muitas vezes, durante muito tempo. Uma equipa que, sem a bola, tenta encurtar o espaço ao adversário, encostando os defesas à linha do meio campo; O FC Porto encara a bola como um meio veloz para atingir um fim, é uma equipa que a passa bem mais para a frente, do que para os lados, porque para a frente é o caminho mais curto até à baliza. E à frente, perto da área dos outros, é onde tenta, mais rápida, intensa e afincadamente, recuperar a bola.

Por se tratarem de formas de jogar, por estarmos em janeiro, por irmos com cinco meses de época, por ambas as equipas terem mais de trinta jogos e treinos às dezenas nas pernas, nada disto, reforço, mudaria para este jogo. Falta, porém, o “em princípio”. Porque os revés e as voltas que o futebol dá fazem dele um desporto que tem a linearidade de um típico filme de Christopher Nolan (ver “Memento”, “Inception” ou “Interstellar”) - inesperada, aparentemente confusa, difícil ou quase impossível de prever, surpreendente.

Neste maravilhoso mundo cabem a lesão de Danilo, nos primeiros dez minutos, e a de Gelson, a minutos do intervalo. Um tira músculo e garra nas caças à bola ao FC Porto, o outro leva com ele a velocidade, o drible e a solução para resolver coisas sozinho do Sporting, ambos obrigam a que coisas mudem. E, entre as suas mazelas, cabe um jogo com duas equipas raçudas, intensas e precaverem-se mais do que se aventuram, a terem tanto de cada uma destas qualidades que tornam o jogo muito tático, como dizem os treinadores. Ou muito duro e enfadonho, como dizemos nós, os plebeus.

E cabe, também, o facto de os dragões não apertarem tão perto da área e preferirem, antes, montar uma espécie de armadilha, jogando aquele jogo de antecipar o que os outros esperam de nós, para jogar com isso e lhes dar algo diferente: em vez de pressionar a saída de bola com tudo, Soares e Marega, dois dos três ferozes avançados que o FC Porto alimenta, esperavam que a bola estivesse em Coates ou Mathieu para o fazerem.

O que, por dois motivos, era estranho.

Porque William, antecipando que os leões, nessa zona do campo, fossem a Normandia de um desembarque de pressão, recuava para entre os centrais, fugindo aos médios e tentando dar um três-para-dois nessa saída de bola; e porque nenhum dos avançados do FC Porto, ou dos médios, saía para o apertar. Os portistas confiavam que, mantendo as posições corretas, as compensações acertadas, os tempos de pressão afinados e as decisões bem tomadas, mais valia apertar quem pior lida com isso, do que tentar cortar as ligações para quem melhor passa a bola e se desenvencilha de pressão no Sporting.

A estratégia, mesmo sem Danilo, foi resultando. William tinha tempo para se sentar no sofá e contar uma estória de embalar à bola, embora não tivesse linhas de passe que equivalessem a algo perigoso. Bruno Fernandes só tinha sombras à volta, Gelson não dispunha de metros para correr, Acuña muito menos e apenas Rúben Ribeiro, tão mexido que se torna difícil de anular, pedia e tocava e fintava.

O Sporting parecia melhor, mais aguerrido, mais estável com a bola, coisas aparentes que resultaram apenas numa boa receção de Bruno Fernandes, na área, para um remate contra o corpo de um adversário. E o FC Porto parecia mais encolhido, prudente e à espera que algo lhe caísse do céu - mas era, isso sim, a equipa mais perigosa.

HUGO DELGADO/LUSA

Os leões caiam no engodo personalizado em William, perdiam bolas e sofreram, por duas vezes, com a intensidade dos contra-ataques dos dragões que, com o máximo de três passes, deixaram Sérgio Oliveira rematar à entrada da área. Um forma vertical, rápida e minimalista de explorar os desequilíbrios alheios que deixou Soares marcar um golo (39’), que o VAR anulou por fora-de-jogo.

Ou seja, o jogo estava a mudar algumas vírgulas ao que está escritos uns parágrafos acima, não que isso congeminasse um espetáculo de jogo.

Tudo acontecia de maneira muito dividida, faltosa, com muitas paragens e ressaltos polvilhados por mais chutões do que os desejados. E neste caldeirão de raça e intensidade, uma frase ainda mais simpática do que muita parra e pouca uva, o FC Porto começou a impor-se durante a segunda parte.

Ter os maiores, os mais musculados, intensos e velozes jogadores, às vezes, chega num jogo em que, no fundo, o que conta são os pés. Aos poucos, perdendo duelos e segundas bolas, o Sporting jogava com passes mais aéreos e com menos paragens a meio campo, sem que Jorge Jesus fizesse algo para tirar Bruno Fernandes da direita e o colocar ao centro, onde o experimentou em dez minutos, os únicos em que a equipa se impôs. Foi aí que um canto, encurtado para ser Coentrão a cruzar, pôs a bola na cabeça de Coates, que a rematou ao poste.

Depois, por muito que me esforçasse para o embelezar, o encontro prosseguiu fiel a si próprio - tentativas falhadas de muita coisa, paragens por todo o lado, jogadas sem cinco passes ligados, um aglomerar gigante de más decisões. Não se viu um drible de Brahimi, um passe vistoso de William, uma combinação fulminante entre os avançados portistas, uma jogada com poucos toques entre os médios e os extremos dos leões. Nada, ou quase nada.

Pelo meio, houve sim um remate de Aboubakar, de longe, defendido por Patrício, após o camaronês intercetar um passe de Mathieu, e outro de Marega, já nos descontos, desaproveitando uma bola picada por Óliver.

E, ao fim de noventa e quatro minutos de futebol penoso, faltoso e aos soluços, que só parecia piorar com o avançar do tempo, houve penáltis para acabar com este marasmo.

Aí entramos noutro maravilhoso mundo, onde coisas como a linearidade, a lógica, o sentido e a simples divisão entre quem é melhor, ou pior, não costumam contar. Onde a sorte, o azar e a confiança podem contar mais do que o treino e a a técnica. Onde falharam Herrera, Aboubakar e Brahimi, os tipos de quem, talvez, mais se esperaria que marcassem, no FC Porto. E apenas Coates e William o fizeram, no Sporting, antes de Bryan Ruiz bater o penálti decisivo e colocar a equipa na final da Taça da Liga.

E Sérgio Conceição longe, refugiado no balneário, por superstição ou escolha do momento, a ver a equipa perder e a ficar sem engolir a melhor das vitaminas, como dissera - “saber que em dois jogos podemos conquistar um título”. A existir alguma, foi a vitamina P, letra dos penáltis e da muita parra e pouca uva do segundo clássico da época entre Sporting e FC Porto que acabou sem golos.

E, se houve 180 minutos assim, como serão os 270 que faltam?