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O apetite voraz e a agressividade esdrúxula contra o registo ávido e a acutilância lateral: isto vai ser o FC Porto-Sporting

O primeiro grande tira-teimas começa esta quarta-feira, às 20h45. Depois do embate, a contar para a meia-final da Taça da Liga, apenas um dos contendores se manterá com hipóteses de conquistar as três competições internas. Rui Malheiro faz a radiografia do jogo e do que poderá vir a seguir

Rui Malheiro

Foto epa

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Está marcado para esta quarta-feira o duelo entre os dois clubes invencíveis a nível interno em 2017/18. Será o primeiro de quatro embates em oitenta e cinco dias – seguir-se-ão as duas mãos das meias-finais da Taça de Portugal (a 7 de fevereiro e a 18 de abril),intervaladas por um jogo para o Campeonato (a 2 de março) – em que FC Porto e Sporting se digladiarão, numa temporada em que todos os clássicos terminaram em empate e com uma míngua de golos (Sporting 0-0 FC Porto; FC Porto 0-0 Benfica; Benfica 1-1 Sporting).

Uma nova igualdade transportará o desenlace para o desempate por pontapés da marca de grande penalidade – na Taça da Liga, é bom recordar, não há prolongamento –, o que permitirá que portistas e sportinguistas mantenham o registo inexpugnável. Apenas um mero pormenor, já que no fim do embate apenas um dos contendores se manterá com hipóteses de conquistar as três competições internas.

O dia 27 de janeiro poderá marcar, até porque há que superar Vitória de Setúbal ou Oliveirense na final, o fim de um delongado jejum sem conquistas de títulos e troféus para FC Porto – o derradeiro foi a Supertaça, a 10 de agosto de 2013, com Paulo Fonseca no comando técnico – ou Sporting – o último foi a Supertaça, a 9 de agosto de 2015, na partida de estreia oficial de Jorge Jesus como treinador da formação de Alvalade. Algo que confere um novo sustento à Taça da Liga para portistas e sportinguistas, depois de vários anos a subvalorizarem uma competição que nunca afiançaram, mas em que foram finalistas vencidos em duas edições: o FC Porto em 2009/10 (Benfica, então treinado por Jorge Jesus) e 2012/13 (SC Braga); o Sporting em 2007/08 (Vitória FC Setúbal) e 2008/09 (Benfica).

Invictos

O apetite voraz dos dragões, líderes isolados do campeonato, com meia parte do jogo contra o Estoril por realizar (perdem 0-1 ao intervalo), está refletido em 21 triunfos em 25 jogos oficiais entre portas, representando os empates – três deles a zero – ante Sporting (Campeonato, fora), Leixões (Taça da Liga, casa), Desportivo das Aves (Campeonato, fora), e Benfica (Campeonato, casa) as únicas clivagens num exercício também marcado pelo apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões, competição onde somaram os únicos desaires da época: Besiktas (1-3, casa) e Leipzig (2-3, fora).

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O registo ávido dos leões, que deixaram cair a liderança do campeonato com estrondo na passada sexta-feira no Bonfim, segue em 19 vitórias em 26 jogos oficias a nível interno. Os tropeções advieram das sete igualdades – apenas duas a zero – diante de Marítimo (Taça da Liga, casa), Moreirense (Campeonato, fora), FC Porto (Campeonato, casa), SC Braga (Campeonato, casa), Belenenses (Taça da Liga, fora), Benfica (Campeonato, fora) e Vitória FC Setúbal (Campeonato, fora), o que significa que o Sporting apenas venceu uma – ante o Cova da Piedade (em Setúbal) – das suas quatro derradeiras deslocações.

Com a curiosidade adicional de ter desperdiçado sempre situações de vantagem com golos sofridos no último quarto de hora. Nada de muito inesperado quando percebemos que os leões sofreram 72,7% dos seus golos no campeonato a partir do minuto 80, o que indicia pouca apetência para gerir vantagens curtas – adormecendo o jogo com bola – e um acentuado desgaste – tão mental como físico – na etapa final dos prélios.

A nível externo, o Sporting foi eliminado da Liga dos Campeões num grupo de grau de dificuldade elevadíssimo – onde somou as 3 derrotas do exercício, ante Barcelona (casa e fora) e Juventus (fora) –, mas prosseguirá a sua campanha europeia na Liga Europa num duplo-confronto ante o Astana.

Onzes de gala

Com a final da Taça da Liga a disputar-se na antecâmara da jornada 20 do campeonato nacional, cuja conquista é o principal objetivo de FC Porto e Sporting para 2017/18, não será surpreendente que Sérgio Conceição e Jorge Jesus apresentem os seus onzes de gala – com alterações pontuais – na partida de amanhã.

No entanto, tal como aconteceu em Alvalade para o campeonato, as bases do clássico poderão passar pela utilização do terceiro-médio em ambas as formações, de forma a conferir mais equilíbrio defensivo às equipas num jogo de dimensão competitiva superior.

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Por isso, não será surpreendente se o FC Porto recuperar a organização estrutural em 4x2x3x1/4x4x1x1 (o que implicará o abdicar do 4x4x2 que tem utilizado nos últimos jogos), fazendo entrar Sérgio Oliveira (ou André André) para o lado de Danilo, adiantando Herrera e deslocando Marega para o corredor direito.

Resta perceber se Paulinho e Waris, reforços dos dragões, entrarão nos eleitos, o que poderá garantir a Sérgio Conceição mais soluções no momento das substituições. Já o Sporting, mesmo mantendo a estrutura em 4x2x3x1/4x4x1x1 que tem utilizado nos últimos jogos, deve robustecer a zona intermediária com a presença de Battaglia ao lado de William Carvalho, avançando Bruno Fernandes para o posto de médio-ofensivo, posição ocupada pelo reforço de inverno Rúben Ribeiro – muito bem diante do Aves, menos bem na deslocação a Setúbal – nas duas últimas partidas.

Por isso, num jogo que se antevê extremamente tático, onde a ferocidade colocada na pressão, na reação à perda da bola e no condicionamento da construção adversária pelo espaço interior deve ditar leis, não será surpreendente que o Sporting assuma mais as despesas do jogo em ataque posicional, enquanto o FC Porto poderá optar estrategicamente pela exploração de dilacerantes contra-ataques e ataques rápidos, já que se sente extremamente confortável num jogo assente na trilogia pressão-recuperação-transição.

Assim, o papel dos médios-ala, nomeadamente na busca de movimentos pungentes em direção ao corredor central, poderá ser nuclear. E aí, no clássico do início de outubro, Brahimi fez mais a diferença do que Gelson Martins (ou Acuña), conquistando inúmeras vezes supremacia numérica no espaço interior, metamorfoseando o 4x2x3x1/4x4x1x1 portista num 4x4x2 em losango, o fator que se revelou diferenciador numa etapa inicial em que o FC Porto se superiorizou ao Sporting.

Faltou, então, mais frieza e eficácia a Aboubakar e a Marega, sempre contundentes no ataque à profundidade, no momento da definição para suplantarem Rui Patrício nas situações de um contra um em que o guardião dos leões é soberbo. Algo que obrigou Jesus, no decorrer do jogo, a fixar Battaglia na posição de médio mais defensivo, libertando William Carvalho para a posição de médio-centro, a que se seguiria a troca de corredores entre os extremos: Acuña passou para a direita, enquanto Gelson foi deslocado para a esquerda. O que permitiu um crescimento do Sporting na etapa complementar. Uma solução a repetir no jogo desta quarta-feira?

De início, é pouco provável. É que a forma curta e compacta como os dragões defenderam em Alvalade, soltando Herrera para uma primeira linha de pressão que condicionou as saídas através de William e Mathieu, dificultou o estabelecimento de conexões com fluidez, que foram agravadas pela ausência de Fábio Coentrão, capaz de criar desequilíbrios em condução/construção ao invés de Jonathan, então seu substituto.

Caso o jogo interior volte a estar manietado, o lateral-esquerdo poderá oferecer ao Sporting mais argumentos para perscrutar o jogo exterior desde trás, algo que tem sido crucial na resolução de várias partidas, sabendo-se da apetência de Bas Dost para dar sequência na zona do segundo poste a cruzamentos de Acuña, Gelson, Coentrão, Bruno Fernandes ou Piccini.

Bolas paradas

Poderão ser um fator de desequilíbrio num clássico que promete ser muito tático. O Sporting apresenta recursos na marcação de livres diretos – Bruno Fernandes, Mathieu e Acuña – em zonas frontais, mas também é uma equipa muito acutilante na exploração de livres laterais e pontapés de canto, aproveitando os argumentos nos cruzamentos de Acuña e Bruno Fernandes, e a capacidade no futebol aéreo de Coates, Mathieu, Battaglia, William ou Bas Dost.

Já o FC Porto, mesmo não apresentando os mesmos recursos na execução de livres diretos, que têm ficado a cargo de Alex Telles (Herrera é a principal alternativa), é uma equipa tremenda na indagação de bolas paradas laterais – pontapés de canto, livres laterais e lançamentos laterais longos –, tirando partido dos cruzamentos teleguiados de Alex Telles (ou mais episodicamente de Brahimi), dos excelentes predicados no jogo aéreo de Felipe, Marcano e Danilo, e da agressividade esdrúxula no ataque a primeiras e a segundas bolas de Aboubakar e Marega.