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45 minutos de rastos, 45 minutos de pé, a primeira Taça da Liga nas mãos

O Sporting venceu pela primeira vez a Taça da Liga, numa final em que só conseguiu bater o V. Setúbal no desempate nas grandes penalidades, após o 1-1 do tempo regulamentar. Foi mais sofrido para os leões do que esperariam, depois de uma 1.ª parte embaraçosa e de um 2.º tempo de artilharia pesada

Lídia Paralta Gomes

MIGUEL RIOPA/Getty

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Que o V. Setúbal tem dado que fazer ao Sporting nos últimos tempos, todos nós reparámos. Mas talvez os leões não estivessem assim tão à espera que a diferença entre a primeira Taça da Liga do Sporting e a segunda Taça da Liga dos sadinos estivesse num remate que foi à barra no desempate nas grandes penalidades.

Mas assim foi: 10 anos depois daquela primeira final ganha pelo V. Setúbal, o carteiro ia tocando uma 2.ª vez na Taça CTT.

Não aconteceu. Depois de um empate 1-1 no final dos 90 minutos, Tomás Podstawski estatelou a sua grande penalidade no ferro, Coates e William não falharam aquilo que haviam falhado na quarta-feira e o Sporting ganhou mesmo, após 90 minutos de sofrimento, 45 dos quais em que foi inferior a um V. Setúbal que não teria sido um vencedor injusto da Taça da Liga 2017/18.

Porque quando não há nada a perder, mais vale tentar fazer tudo para ganhar. E foi isso mesmo que a equipa de José Couceiro fez logo no arranque.

Mesmo no arranque. Digamos, a partir dos 4 minutos.

Estávamos então ao minuto 4 e ainda antes de alguma coisa se definir, ou quase como que a dizer-nos como é que a 1.ª parte seria a partir dali, João Teixeira levou a bola até à entrada da área e mal viu os defesas do Sporting aproximarem-se qual parede andante, deu um toque para o lado, onde Gonçalo Paciência fez um pouco de magia. O remate foi bom, claro. O golo foi bom, claro. Bola rasteira, tão veloz como colocada. Mas o que define aquela jogada é aquele toque com o pé esquerdo que deixa Coates nas lonas, permitindo ao avançado que já não é só o filho do avançado rodopiar sobre si mesmo e rematar.

Belíssimo golo de um rapaz que já não é só um avançado corpulento: principalmente durante a 1.ª parte, Gonçalo Paciência moeu a paciência aos jogadores do Sporting, com a sua capacidade de vir buscar jogo, de criar jogo.

O golo dos sadinos, que também foi um daqueles momento de laxismo da defesa do Sporting de fazer Jesus ir aos arames, não foi fogo de vista. Daí até Rui Costa apitar para o final da 1.ª parte, o V. Setúbal foi, de longe, e volto a escrever, de longe, a melhor equipa. Rápida e criativa a sair para o ataque, dura na pressão alta, voluntariosa a defender, a formação de José Couceiro surpreendeu o Sporting que ficou como petrificado com aquele arranque tão efetivo do rival.

MIGUEL RIOPA/Getty

E ainda as redes da baliza de Rui Patrício balançavam quando João Teixeira quase que marcava outra vez, depois de brincar com Piccini na direita. O remate, cruzado, foi defendido a custo pelo titular da Seleção Nacional.

Por esta altura, o Sporting ainda não tinha conseguido chegar à área do V. Setúbal: aconteceu pela primeira vez aos 10 minutos, sem perigo. Aos 13' Bas Dost cabeceou após um canto, mas com pouca potência.

A partir daí, o que se viu do Sporting foi pobre, muito pobre. De uma desorganização, de um rigor nulo, de uma anarquia muito estranha para um equipa de Jorge Jesus, cuja pastilha elástica por esta altura sofria a bom sofrer.

Até porque os sadinos estiveram mais uma vez muito perto do golo, por Vasco Fernandes, após um livre cruzado, e o Sporting não conseguiu, em 45 minutos, engatilhar uma jogada de ataque digna desse nome, mesmo tendo mais bola.

Como dizer. A 1.ª parte do Sporting foi tão embaraçosa que não me espantaria se alguns dos jogadores dos leões tivessem pedido alguma das caixas de encomendas usadas na cerimónia inicial para se esconderem lá dentro.

É uma boa forma de dizer.

É claro que não se esperava, nem se podia pedir ao V. Setúbal, uma 2.ª parte com a intensidade da primeira. E o Sporting, por raiva ou por vergonha, também não faria um jogo igual.

Foi o que aconteceu. Logo ao intervalo, Jesus tirou Rúben Ribeiro e Bryan Ruiz, absolutamente inconsequentes na 1.ª parte, e colocou em campo o músculo de Battaglia e Acuña. E o Sporting melhorou quase imediatamente. Os primeiros minutos da 2.ª parte foram de vendaval ofensivo, ainda que nem sempre bem organizado ou pragmático o suficiente para marcar.

MIGUEL RIOPA/Getty

E enquanto isso, o V. Setúbal ia tentando, nos poucos momentos em que conseguia sair do seu meio-campo. Aos 50', Gonçalo Paciência voltou a ter nos pés o golo, com um remate repentista que Rui Patrício, atento, defendeu, com Costinha a falhar por pouco na recarga.

Apesar do caudal ofensivo, não se pode dizer que o Sporting fosse criando ocasiões flagrantes. Elas, na verdade, vieram todas no mesmo lance: aos 75 minutos, Trigueira defendeu um cabeceamento à queima-roupa de Bas Dost e ainda conseguiu travar a recarga de Fábio Coentrão. E parecia ter também travado nova recarga de Bas Dost, mas o VAR e Rui Costa viram que a defesa de Trigueira tinha sido, na verdade, uma defesa de Tomás Podstawski.

Grande penalidade, um holandês na marca dos 11 metros, guarda-redes para um lado, bola ligeira a deslizar suavemente para o outro. Bas Dost começa ele próprio a ter uma forma de marcar os penáltis.

Daí até final o Sporting carregou e Bruno Fernandes esteve por duas vezes perto de evitar o desempate da final nas grandes penalidades, primeiro numa bomba aos 82 minutos que Trigueira conseguiu afastar e depois já nos descontos num remate cruzado que fez todo o banco do Sporting levantar.

Nas grandes penalidades, acabou por ser a barra a dar a felicidade ao Sporting, que se estreia nas vitórias na Taça da Liga. Para Jesus é a 6.ª, mas a primeira pelos leões, que não esperariam sofrer tanto para vencerem o primeiro título desde a Supertaça de 2015.