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A história do Vitória merece isto

Final. É um histórico que passa dificuldades mas que tem apetência para as taças. Aqui ficam algumas razões pelas quais o V. Setúbal dava um bom vencedor da Taça da Liga

Lídia Paralta Gomes

Em 2007/08 nasceu a Taça da Liga — e foi o Vitória de Setúbal quem a venceu, batendo o Sporting na final. Os dois clubes reencontram-se hoje, dez anos depois

FOTO francisco leong/afp

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Ponto prévio: somos pessoas de paz e não estamos contra ninguém. Não queremos que ninguém perca. Isto não é um artigo sobre as razões pelas quais queremos que o V. Setúbal ganhe a Taça da Liga, esta noite, no Estádio Municipal de Braga (20h45, RTP1), mas sim um artigo, um exercício, se quiserem, sobre as razões pelas quais o V. Setúbal seria um bonito vencedor da Taça da Liga, dez anos depois de ter ganho a primeira edição da prova, numa final em que também encontrou o Sporting. E como não há quem não goste de uma boa história de superação ou quem não aprecie um bocadinho de imprevisibilidade na vida, e no futebol em particular, aí fica um guia para, sem culpa, olhar com bons olhos para um V. Setúbal campeão da Taça da Liga.

Porque ficou em 1º lugar num grupo com 
Sp. Braga e Benfica

Numa competição feita para ‘grandes + 1’, o V. Setúbal contornou a ditadura da lógica, apurando-se para a final four num grupo em que também estavam Benfica, tetracampeão nacional e sete vezes vencedor da prova, e Sp. Braga, clube que tem igualmente o seu nome na galeria de campeões da Taça da Liga e o mais próximo de quarto ‘grande’ que temos tido na última década e meia. Os sadinos não só aproveitaram o desempenho paupérrimo do Benfica na prova como, essencialmente, fizeram, e muito bem, o seu trabalho: venceram os dois primeiros jogos do grupo, frente ao Portimonense e ao Sp. Braga, e empataram com os encarnados (2-2). Passaram assim em primeiro lugar, à vontade, com 7 pontos.

Porque é um clube 
que gosta de taças

Por cá estamos (mal) habituados a que os troféus se dividam por Benfica, Sporting e FC Porto, que, de facto, venceram em conjunto uma absurda percentagem de títulos nacionais. Mas, entre ‘os outros’, o V. Setúbal é um dos clubes portugueses com mais palmarés. Aliás, os sadinos adoram as taças. Só na Taça de Portugal contam com dez finais, tendo vencido três (em 1964/65, 1966/67 e 2004/05). No tal campeonato dos ‘outros’, ninguém tem mais presenças no Jamor. Quanto a títulos na Taça de Portugal, só o Boavista tem mais (cinco). E o Belenenses tem as mesmas três Taças de Portugal. O V. Setúbal jogou ainda duas vezes a Supertaça (em 2005 e 2006, perdendo ambas), e na Taça da Liga o seu currículo é particularmente interessante, tendo sido o primeiro vencedor da prova, há dez anos, numa final que, curiosamente, o colocou frente a frente com o Sporting.

Porque tem um orçamento ínfimo 
em relação aos ‘grandes’

Que a Liga portuguesa é feita de desequilíbrios sabemos nós, sabe o leitor, sabe o mundo... E esta noite, no Municipal de Braga, vamos ter um confronto entre o topo e a base da pirâmide. O V. Setúbal faz parte do grupo de equipas com o orçamento mais baixo, na ordem dos 2,5 milhões de euros. Já o Sporting, não sendo a equipa do nosso campeonato que tem o orçamento mais alto, anda lá perto — está na casa dos 60 milhões de euros (tal como o do Benfica). Mais só mesmo o FC Porto, que atacou a nova época com cerca de 80 milhões de euros. O orçamento do V. Setúbal é assim, mais coisa, menos coisa, 4% do orçamento do Sporting, e isto não é um mero desequilíbrio, é um fosso gigantesco. Um fosso que também encontramos quando se fazem as contas ao valor dos jogadores. O site Transfermarkt avalia o plantel orientado por José Couceiro em 15,15 milhões de euros, enquanto o elenco sportinguista vale qualquer coisa como 170 milhões de euros. Pondo as coisas em perspetiva, de acordo com contas feitas pelo mesmo Transfermarkt, o plantel do V. Setúbal vale menos do que um Rui Patrício e pouco mais do que um Bruno Fernandes.

Porque queremos 
mais um Moreirense

A sério, tirando os adeptos do Sp. Braga (e talvez também alguns do Benfica), quem é que não gostou de ver o Moreirense vencer a Taça da Liga no último ano? É certo que Setúbal não é Moreira de Cónegos, é uma cidade grande e casa de um clube centenário. E não é menos certo que o museu do Vitória, tal como escrevemos atrás, está um pouco mais recheado do que o da equipa dos arredores de Guimarães. Mas não gostavam de ver novamente uma cidade unida em torno de um clube, com festas populares pela noite fora à espera dos vencedores, receções na Câmara Municipal e jogadores elevados à condição de heróis locais? As taças também são feitas disto: estando o campeonato reservado para aqueles com mais condições para manter uma regularidade nos resultados (uma forma pomposa de dizer ‘os três grandes’), as bonitas histórias surgem com muito mais facilidade na imprevisibilidade de um único jogo a eliminar.

Porque não tem tido uma época fácil, tanto dentro como fora de campo

Depois de uma época em que terminou num tranquilo 12º lugar, o V. Setúbal vive uma temporada complicada a nível desportivo: a equipa de José Couceiro é 17ª classificada, ou seja, penúltima, com apenas duas vitórias e 14 pontos. Atrás dos sadinos só está mesmo o Estoril, que tem menos dois pontos mas que, por sinal, também tem menos um jogo (bem, menos meio jogo, contra o Porto). Para juntar à crise desportiva, o clube teve ainda de lidar com uma crise financeira e diretiva. Esta última solucionou-se com eleições em dezembro, num ato eleitoral em que venceu uma candidatura que inicialmente até havia sido rejeitada, a de Vítor Hugo Valente.

Porque é o clube 
da 1ª Liga que joga 
com mais portugueses

Não é que andemos aqui a bater com o punho no coração como Matthew McConaughey no “Lobo de Wall Street”, apregoando que “só o que é nacional é bom”, mas é sempre de louvar quando um clube aposta em portugueses. E o V. Setúbal é, a par do Belenenses, o emblema que, em média, atuou com mais jogadores portugueses (10) nas primeiras 17 jornadas do campeonato. Nos 30 inscritos na Liga pelo clube sadino, 22 são portugueses, e alguns são jovens de qualidade, como os três Joões (o Costinha, o Teixeira e o Amaral), Tomás Podstawski ou Gonçalo Paciência. No plantel do Vitória estão ainda veteranos como Yannick Djaló (que ainda não jogou devido a lesão), José Semedo ou Edinho, avançado com inclinação para assombrar o Sporting com golos em cima do apito final — como vimos na última edição da Taça da Liga e mais recentemente num jogo do campeonato, quando o ex-internacional português empatou de grande penalidade (que ele próprio havia sofrido) já nos descontos.

Porque é um histórico 
que anda quase sempre entre os ‘grandes’

Sabia que o V. Setúbal é uma das oito equipas que esteve na primeira edição do campeonato nacional, já na longínqua época de 1934/35? É verdade. Não se coloca o epíteto de ‘histórico’ por dá cá aquela palha. Aliás, o V. Setúbal não só esteve na edição inaugural do que é hoje a 1ª Liga (com Benfica, Sporting, FC Porto, Académica de Coimbra, Académico do Porto, Belenenses e União de Lisboa) como é o sexto clube com mais presenças na principal divisão do futebol português: 70 em 85 edições. Com mais temporadas na primeira divisão só mesmo os três ‘grandes’, o Belenenses e o Vitória de Guimarães. E, além dos ‘grandes’ de Portugal, há os ‘grandes’ lá de fora, e o V. Setúbal também já andou por lá, tendo participado por 11 vezes nas competições europeias.