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Há falta de Sasso e Almeida fez penálti? E o soco de Jhonatan? E o trambolhão de Bas Dost? (os casos, por Duarte Gomes)

O antigo árbitro e comentador televisivo escreve sobre os jogos que se sucederam durante esta semana, analisando-os encontro a encontro, caso a caso

Duarte Gomes

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A 20ª Jornada da Liga NOS encerrou com uma atípica série de jogos disputados a meio da semana.

Todos sob o signo generalizado da correção, sem entradas violentas, daquelas que lesionam gravemente colegas de profissão. E isto é, antes de mais e acima de tudo, aquilo que mais importa realçar.

No que diz respeito às arbitragens, as coisas correram globalmente bem, mas com alguns lapsos em várias partidas.

Comecemos pelo Restelo. Bruno Paixão, experiente árbitro de Setúbal, dirigiu a partida entre “Os Belenenses” e Benfica.

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Como qualquer derby que se preze, não faltou intensidade, emocionalidade e incerteza até ao apito final.

Destacamos aqui alguns lances cuja análise merece atenção.

O primeiro, logo nos minutos iniciais: Grimaldo cruzou bola da esquerda, em direção ao braço de André Sousa. O jogador azul não fez qualquer movimento ostensivo nem tinha os braços em zona anormal. Lance legalíssimo, bem ajuizado pelo juiz de Setúbal.

Já no segundo tempo, Sasso parece tocar ao de leve no calcanhar de Cervi, depois de também ter jogado a bola. O lance, que ocorreu no limite da área de penálti (sentido dentro/fora, em direção à linha lateral), deixou muitas dúvidas, mesmo após o visionamento exaustivo das repetições. Quando isso acontece, o mais justo é tomar como boa a decisão da equipa de arbitragem.

O penálti assinalado, mais tarde, pelo árbitro de Setúbal não deixou qualquer dúvida. Gonçalo Silva terá sido surpreendido pelo movimento repentino do jogador argentino e tocou, com o seu esquerdo, no direito do extremo encarnado, provocando a sua queda. Lance bem avaliado e sem cartão amarelo: como já vos disse, a partir desta época, as faltas defensivas ocorridas dentro da área, em que um defesa aborde o lance com negligência mas apenas para tentar jogar ou disputar a bola, deixam de ser punidas com advertência.

A grande dúvida desta partida aconteceu já em tempo de compensação e envolveu André Almeida e Tiago Caeiro: o avançado do Belenenses surgiu caído na área, alegando ter sido agarrado pelo lateral do Benfica. Mais uma vez, nenhuma imagem foi suficientemente clara para afirmar, perentoriamente, que houve infração. A jogada em si, todo o seu desenho (queda do jogador do Belenenses e movimentos percecionados) sugerem que pode ter havido falta, mas sem outras evidências, deve-se conceder o benefício da dúvida a quem decide (e pela mesma razão, também ao VAR). O lance ocorreu longe do foco prioritário dos árbitros: a bola não estava na zona.

Quanto ao pontapé livre assinalado para o Benfica, do qual resultou o golo do empate, não há dúvidas: Jonas foi mesmo empurrado, nas costas, pelos dois braços do seu adversário.

Falou-se muito do tempo de compensação dado por Bruno Paixão (5m), não se tendo em conta que o jogo teve entretanto interrompido algum tempo (aos 90+3 - para auscultar a opinião do VAR sobre o tal lance com Caeiro). Teve também demorada a construção da barreira e respetiva execução do livre direto.

Em matéria de “descontos de tempo”, há uma máxima na bola que é intemporal e aplica-se em cada momento mais dramático do jogo:

- “Preso por ter… e preso por não ter”.

Difícil, muito difícil agradar a toda a gente e receber a concordância de quem perde ou ganha.

Se dúvidas houvesse, vejamos o que aconteceu no dia seguinte, em Moreira de Cónegos.

Jhonatan Luiz é guarda-redes do Moreirense

Jhonatan Luiz é guarda-redes do Moreirense

Gualter Fatia

Luís Ferreira deu 5m de compensação e o jogo prolongou-se além dos 98m (tempo total).

Houve, de facto, paragens a mais no período final da partida e demasiado tempo perdido por jogadores do Moreirense (nomeadamente o guarda-redes e o atleta expulso, que atravessou todo o terreno de jogo para sair das imediações do relvado). Mas aqui a crítica não foi de tempo a mais, foi de tempo a menos. Não está em causa a justiça do inconformismo, nada disso. Apenas o reforço da tal premissa, que é quase impossível tomar decisões que agradem a todos.

Sabem o que vos digo? Tempo de jogo cronometrado! Isso sim, resolvia a questão, dando justiça e verdade ao cronómetro e retirando do árbitro uma responsabilidade muito chatinha, que ele bem dispensa.

Essa partida – Moreirense / FC Porto - teve dois momentos delicados que convém aqui analisar: uma saída em falso de Jhonatan, que calculou mal o tempo de entrada à bola e acabou por atingir, primeiro com o braço (na cara) e depois com o corpo, Filipe.

Acreditem quando vos digo que estes lances, em campo, passam sempre despercebidos (porque há a ideia enraizada – até no adepto – que os choques são fortuitos, fruto da ação simultânea de dois jogadores em movimento, um contra o outro, a disputarem o mesmo lance).

Mas nas imagens viu-se que não foi assim. Só houve um jogador a movimentar-se em direção a outro, a atingi-lo e depois a derruba-lo. Não houve obviamente intenção em fazer falta mas não tem que haver: a lei diz que basta haver imprudência (que é como quem diz, falta de atenção, falta de cuidado ao abordar o lance). Neste caso, a solução perfeita seria punir aquela ação com pontapé de penálti favorável ao FCP. Se o VAR teve acesso às mesmas imagens que tivemos, poderia e deveria ter atuado nesse sentido.

Por muito que as suas indicações vão no sentido de não interferir em lances de “aglomerado de jogadores” ou de disputa de lances na área após bolas paradas, há uma inevitabilidade que deve ser apreendida e que é superior a qualquer recomendação ou rigor protocolar: a tecnologia deve servir a verdade do jogo. Aquela que toda a gente vê e espera. Se a televisão mostra claramente que há penálti, as pessoas esperam que se marque penálti. Não são os fins que devem servir os meios. São os meios que devem servir os fins.

A evolução de procedimentos – que sabemos ser da excluiva responsabilidade do IFAB - tem que caminhar rapidamente nesse sentido, sob pena de beliscar a credibilidade de um projeto que tem tudo para ser de excelência.

No outro lance (fora de jogo assinalado a Waris, anulando golo ao FCP), honestamente, com as imagens que vimos em casa… não ficámos com dúvidas. Parece boa, sim, a decisão do árbitro assistente. Não consultámos linhas, não vimos outras camaras nem tivemos acesso a outras perspetivas. Naquela, o adiantamento do avançado azul e branco parece evidente. E por isso, obviamente é mais uma vez sensato que se tenha como boa a decisão da equipa de arbitragem.

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Já em Alvalade, a noite foi decorreu sem problemas de maior para os árbitros. Bas Dost lesionou-se, fruto da queda (e inevitável contacto) de Jubal sobre si, ficando a ideia muito clara que não houve motivo para pontapé de penálti.

Disciplinarmente Luís Godinho resistiu a exibir cartões o mais que pode, esticando ao máximo a sua tolerância (entradas durinhas de Rafael Miranda e Semedo, braço de Coates a cortar ataque prometedor e falta antidesportiva de Coentrão). Nada que belisque uma atuação, ainda assim, consistente e segura, num jogo nem sempre fácil de dirigir.

Nota para o penálti assinalado no Bessa, contra o Marítimo. Em campo e à primeira, ficámos com a ideia que houve braço de Diney, por isso percebeu-se a ilusão de ótica que levou Bruno Esteves a assinalar o castigo máximo.

Mas a verdade é que as repetições posteriores do lance não deixaram dúvidas: a bola bateu apenas e só no peito do defesa central madeirense. Não vale a pena especular sobre o que terá conduzido a este erro de análise, por parte do VAR. Aconteceu, lamenta-se e agora o mais importante é procurar ultrapassar esse e outros constrangimentos – pessoais e sobretudo técnicos – que ainda possam estar a impedir esta ferramenta de ser potenciada ao máximo, para que afirme como a grande mais valia que o futebol precisa e os árbitros merecem.

Se os meios disponibilizados não forem de excelência, as decisões finais jamais o serão.