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A vontade não é a vontadinha

O triunfo do FC Porto (3-1) sobre o Braga também se explica pelo facto de que os portistas quiseram mais durante mais tempo do que o seu adversário. Num jogo intenso e físico, valeram a potência e a pressão da equipa de Sérgio Conceição - e um par de boas defesas de José Sá

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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Um FC Porto-Braga é um jogo de uma boa equipa contra outra boa equipa, uma azul e branca e outro branca e vermelha, entre um clube grande e outro que se quer fazer grande, um encontro de cidades que estão a cinquenta minutos uma da outra; mas este FC Porto - Braga era tudo isso e um par de bocas de Sérgio Conceição a Abel Ferreira e de Abel Ferreira a Sérgio Conceição.

A história, toda a gente sabe, começou quando o treinador portista insinuou que o Braga teria levantado o pé diante do Benfica, e de lá para cá houve um pingue-pongue que Abel Ferreira decidiu terminar assim: “Não tenho uma relação pessoal com o Sérgio, apenas profissional”.

Ora, nada mais errado. Porque para Sérgio Conceição tudo parece pessoal - e tudo inclui o futebol, já que Conceição é daquele tipo de treinadores-xamã como Simeone é e como Alex Ferguson foi, e do qual Bill Shankly continua a ser o maior exemplo. Portanto, para ele e para eles, nada importa mais do que ganhar os duelos durante 90 minutos, como se cada carrinho, cada corte, cada remate, cada passe bem feito significasse uma finta diante das inevitabilidades da vida - uma delas, a derrota.

Em treinadores assim, sucede que a estratégia se torna previsível, mas nem por isso fácil de contrariar. Ou seja: o FC Porto entrará sempre a pressionar o adversário; o FC Porto porá sempre homens lá à frente para dificultar a saída de bola; o FC Porto tentará sempre encontrar uma forma de anular o jogo adversário, e isso passa por anular o seu condutor de jogo; o FC Porto andará sempre em altas rotações; e o FC Porto quererá sempre levar o adversário para o lado físico do jogo, onde, aparentemente, é imbatível.

E com tudo o que de bom e de menos bom isto representa, porque o coração tenderá a sobrepôr-se à razão, os portistas tornaram-se adversários temíveis e notáveis.

Até que as pernas e o pulmão dão de si.

Diante do Braga, foi isto que, basicamente se viu: na primeira-parte, o FC Porto apertou o inspirado Danilo, fechou as portas de Ricardo Horta e não deixou que os bracarenses ligassem o jogo; e, por outro lado, criaram oportunidades suficientes na medida inversa às que concederam para chegar ao intervalo com uma margem superior à mínima. Só que o Braga aproveitou uma de duas chances (Raul Silva) e o Porto teve um aproveitamento equiparado às trapalhadas habituais de Marega (Sérgio Oliveira, o melhor em campo, e Diego Reyes fizeram os dois golos dos dragões).

A segunda-parte arrancou com outro falhanço de Marega e uma boa jogada de Danilo e o resultado foi-se mantendo,ainda que o Braga começasse a aproveitar as dificuldades naturais de Corona em prolongar a intensidade no tempo como os seus colegas.

Foi então que José Sá fez uma defesa brilhante e foi também então que Sérgio tirou o mexicano e pôs Paulinho no meio-campo, colando o voluntarioso Marega à direita para tentar forçar novamente o andamento - e, claro, cobrir as subidas de André Horta, que entrara para o lugar do irmão Ricardo.

Ato contínuo, Marega voltaria a falhar das suas, José faria outra boa defesa e o Porto aproveitaria uma transição para fazer o 3-1, por Aboubakar e a passe de Alex Telles (foram dele as três assistências para os três golos).

Depois de tudo isso, o Braga finalmente reagiu a preceito, espreitou os buracos que se foram abrindo no meio-campo e, a espaços, encostou o Porto lá atrás, o que obrigou Sá a outras boas intervenções que mantiveram a vantagem de dois golos até ao fim do jogo.

No futebol, não é a última imagem que fica, mas as contas que se fazem. E o FC Porto marcou três golos e somou outros tantos pontos.