Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

O problema aguça a invenção, mas no inventar é que está o problema

Inexplicavelmente, William Carvalho ficou na bancada e Jorge Jesus fez o Sporting entrar no terceiro jogo da época contra o FC Porto num 3-4-3 com Gelson na frente. O que explicou, durante muito tempo, a forma como os dragões foram superiores e acabaram por, ao fim de 240 minutos de clássicos, marcar um golo e ganhar (1-0)

Diogo Pombo

JOSÉ COELHO/LUSA

Partilhar

O conceito de inventar, sabe-se lá porquê, talvez devido a uma qualquer lógica distorcida, tem uma conotação negativa. Tentar algo de novo é, no futebol, tido como algo a evitar e que joga em demasia com outros conceitos, como a “sorte”, o “risco”, o “azar” ou o mais popular “colocar-se a jeito”, sobretudo no que toca a treinadores. Se esse técnico for Jorge Jesus, os anos colaram-lhe uma certa fama de as coisas se virarem contra ele sempre que, pelo seu génio ou por força das circunstâncias, inventa.

Assim de repente, lembro-me de dois exemplos: o primeiro, nos tempos de Benfica, em que achava por bem colocar o central David Luiz à esquerda de uma defesa a quatro; o segundo, mais recente, quando foi discutir a Varsóvia o futuro nas competições europeus com uma equipa assente em três centrais e Bruno César, um lento e roliço canhoto, a ala direito.

Ambos lhe correram, e às respetivas equipas, mal.

Portanto, quando Jesus, ao terceiro jogo entre Sporting e FC Porto da época, faz a equipa entrar no Dragão em 3-4-3, inexplicavelmente sem William e, estranhamente, com Gelson a orbitar à volta de Doumbia, na frente, a reminiscência de todas essas vezes em que inventou era inevitável. O treinador que gabara a forma realista, pragmática e italiana - palavras dele - como os leões têm existido, não podia apresentar-se de forma mais italiana, se nos restringirmos aos clichés.

E, como em tantas invenções anteriores, a teoria que terá magicado na cabeça não estava a resultar totalmente, na prática. Porque o FC Porto, algo confuso e perdido de início, na forma como Marega e Soares (Aboubakar, também sem explicação, ficou na bancada) tinham que pressionar uma saída de bola com três de frente e um tipo em cada lado, a postos para receber a bola, habituou-se ao que, presumo, não esperava.

Os dois avançados perceberam que tinham de sufocar o central que tivesse a bola, cortando-lhe as linhas para os conterrâneos da defesa; de esperar que Sérgio Oliveira e Herrera consumissem Battaglia e Bruno Fernandes através da intensidade, que têm a mais; e que deviam aproveitar o limbo em que Acuña, indeciso entre ser extremo ou um homem extra ao centro, era apático a tentar corrigir.

Mesmo que o Sporting, mais vezes do que o anterior clássico, para a Taça da Liga, conseguisse trocar passes e por gente a dar a bola e, depois, a mexer-se para se dar ao passe, o FC Porto continuava a prosperar no que é melhor - a ser rápido e a pressionar logo quando perde a bola. Face ao desatino de Acuña, carregava sobre a esquerda, onde Ricardo Pereira fazia tombar Coentrão e Brahimi, na área, rematava contra o corpo saído da baliza de Rui Patrício. As bolas entravam na terra de ninguém, nas costas dos defesas, e uma batia no poste esquerdo da baliza, quando parou num livre para Sérgio Conceição, à entrada da área.

A forma pressionante de os dragões viverem fazia os leões subsistirem aos solavancos, dependentes das arrancadas de Gelson. Mais ao centro, o extremo feito segunda avançado ficava mais perto do primeiro passe nascido de recuperações de bola, e arrancava. Dos seus eu-contra-o-mundo surgiram os remates dele e de Bruno Fernandes, ambos fora de área, que Iker Casillas parou a custo. Apenas nos cinco minutos pré-intervalo houve um ataque organizado do Sporting, pela direita, com Acuña a lançar o abono de velocidade da equipa para Ristovski, na área, rematar à bruta o seu passe e Casillas desviar para canto.

Depois, chegámos à pobre evidência de 225 minutos - são dois jogos e meio - de futebol sem golos entre o FC Porto e o Sporting, esta época.

JOSÉ COELHO/LUSA

Pobreza que se podia ter saciado logo a seguir, quando a segunda jogada com passes, tabelas e triangulações que acabou em remate, na área, do Sporting, viu a bola desviar no corpo de Ricardo após remate de Doumbia e cruzamento rasteiro de Bruno Fernandes. Rasou o poste. Parecia que o Sporting atinara, não fosse este perigo ter aparecido logo ao terceiro minuto da segunda parte.

A partir daí, os leões foram existindo proporcionalmente à carga da bateria do seu acelerador-mor. Logo, cada vez menos, com o passar do tempo. As arrancadas de Gelson tornaram-se mais esporádicas, a equipa partia-se com as tentativas de Bruno Fernandes ou Acuña em darem alternativas. E, sem a bola, a equipa comprimia-se perante a intensidade que não esmorecia no FC Porto.

Dessa compressão e passividade surgiu o tempo que Sérgio Oliveira teve para receber a bola, parar, levantar a cabeça, ver onde tinha que colocar a bola, pensar no que teria para fazer quando chegasse a casa e cruzar para o espaço nas costas de Piccini e na frente de Ristovski. Entre os dois laterais direitos do Sporting surgiu a cabeça de Soares, a finalmente por fim a 240 minutos sem golos em clássicos (60’), com terceiro golo aos leões em dois jogos feitos no Dragão.

Um fim para o qual os dragões intensificam os meios, com a pressão e a rotação que originam o ritmo a que a equipa, tantas vezes, tem mostrado para cansar os adversários. E o Sporting, não por estar cansado, mais por estar desorganizado e sem jogadores ensaiados a estarem assim em campo, tentava sobreviver. Rui Patrício fazia a melhor parada do jogo a mais uma cabeçada de Soares e via alguns remates passarem bem perto da baliza.

E tiveram que sobreviver, que é diferente de viver, até ao fim. Porque, salvo diferenças de jeito, talento, pés, aptidões ou que lhe quiserem chamar, os jogadores do FC Porto entram e saem de um sistema fixo e trabalhado, que é intenso e rotativo; enquanto os do Sporting tiveram que se moldar a um que, por muito experimentado que esteja em treinos, é novo em jogo. Muito mais em clássicos onde há mais coisas em jogo e os ânimos são maiores, como o que levou à expulsão de Acuña, já perto do fim, por acumulação de amarelos.

Daí a equipa só ter reagido nos últimos 10 minutos, já com o 4-4-2 do costume, a urgência de não querer levar um golo a menos para a segunda mão e Rúben Ribeiro a extremo, que se antecipou a um distraído Ricardo e quase deixou Doumbia à beira de marcar.

O Sporting perdeu, perdeu bem e foi ultrapassado pelo ritmo que o FC Porto teve a mais, ou muito mais durante o tempo em que Jorge Jesus insistiu na invenção com que tentou surpreender o adversário - e remediar o facto de não ter William Carvalho, cuja ausência foi tão estranha quanto castradora para a equipa. Esse problema aguçou a invenção, mas foi no inventar que esteve o problema, que não será assim tão grave para os leões pelo facto de a segunda mão destas meias-finais da Taça de Portugal ser a 18 de abril. Em dois meses, muita coisa muda.

JOSÉ COELHO/LUSA