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Uma questão de ‘velocità’ ou da falta dela: hoje há (mais um) FC Porto-Sporting

A meio de uma série de cinco jogos em que apenas ganhou um, Jorge Jesus disse que o Sporting estava a ser “italiano”, mais “pragmático e realista”. A realidade é que os leões têm sido mais lentos, apáticos e sem ideias, o que contrasta com a forma vertical, veloz e intensa com que o FC Porto continua a fazer as coisas. Os rivais encontram-se esta quarta-feira (20h15, Sport TV1) pela terceira vez esta época, na primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal

Diogo Pombo

Brahimi e Gelson: os velocistas - e dribladores - de FC Porto e Sporting, respetivamente

Foto Paulo Oliveira/Getty

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O cimento, vá lá, não estava coberto por gelo, o frio dera tréguas e era de aproveitar. No campo do campus da Universidade de Utrecht, uma pequena, pacata e estudantil cidade holandesa, marcou-se um jogo de futebol entre estrangeiros. Por acaso, nesse dia, apareceram cinco italianos num campo para uma dezena de tipos se dividirem em duas equipas e eles, face à insistência, ficaram juntos. Uma hora e qualquer coisa depois, coisa de amigos feitos no estrangeiro, estavam a rir, a disparar piadas, a troçar e a vangloriarem-se.

Os italianos ganharam esse jogo, não sei por quanto, e, no meio de tudo aquilo, lembro-me de um deles dizer, inconfundivelmente e com sotaque, traduzindo à força: “Foi à maneira italiana”.

Eles eram bons, tinham os pés atinados, corriam e não falavam muito. Tocaram menos vezes na bola, não gozaram tanto da sua companhia, chegavam perto da nossa baliza com mais parcimónia, mas ganharam. No fim, puxaram pelo cliché talvez mais batido do futebol, que é sobre eles - jogaram à italiana. Porque, mesmo sendo um pouco tiro no escuro, o acumular de anos a ver Mundiais ganhos e finais de provas europeias jogadas por seleções, e equipas, italianas, com o mesmo amor pela tática e pelo ter todos no devido lugar, a mesma calma diante da adversidade, o mesmo ir-poucas-vezes-à-baliza-mas-ganhar.

O mesmo lugar-comum pelo qual Jorge Jesus puxou.

O treinador do Sporting disse, como quem se auto-elogia por via de analogias, que os leões “neste momento” são “uns italianos e uma equipa cínica”, e que jogam “com cultura tática”. Jesus disse-o após o 1-0 ao Vitória de Guimarães, a 31 de janeiro, a única vitória que a equipa logrou nos últimos cinco encontros - uma de sete que conseguiu desde dezembro, em 15 partidas. Disse ele, também, que esta época os jogadores são “mais pragmáticos e realistas”.

Na Amoreira, o vento do Estoril desorientou o Sporting e Jorge Jesus

Na Amoreira, o vento do Estoril desorientou o Sporting e Jorge Jesus

Foto António Cotrim/Lusa

Quem é realista tem noção do que é capaz e consegue, ou não, fazer. Quem é pragmático tem uma queda para agir da forma mais prática e eficaz possível. Ora, realisticamente, o Sporting tem Bruno Fernandes, William Carvalho, Fábio Coentrão ou Rúben Ribeiro, jogadores com técnica nos pés, ideias na cabeça e coisas que funcionam juntas caso partilhem a bola e haja predisposição para tal. E, na prática, tem depois tipos como Marcos Acuña, Gelson Martins e Daniel Podence, que são rápidos, frenéticos, capazes de driblar e desequilibrar sozinhos quando a equipa não acelera em conjunto.

Só que as lesões farão com que os dois últimos (embora ainda haja esperança para Gelson), não estejam esta quarta-feira (20h15, Sport TV1), no Estádio do Dragão, para a primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal. Como não estiveram no fim de semana da derrota (2-0) com o Estoril, quando o Sporting cedeu ao culminar dos sinais que já se despistavam - perdeu porque foi a equipa menos intensa a usar a bola, a tentar menos tabelas, a usar menos os apoios ofensivos, a arriscar menos e, no fundo, a ser mais lenta.

A realidade, como se tem visto, mais ou menos, desde que fechou a fase de grupos da Liga dos Campeões, em dezembro, é que, sem Gelson, a equipa perde a única fonte acelerativa que tem. Podence, mesmo são e bom de saúde, costuma sentar-se no banco e Acuña, mesmo sendo rápido e um extremo, é mais apologista de cruzar a bola, onde quer que esteja. Porque na área está, por norma, Bas Dost, o goleador ao primeiro toque e melhor marcador da equipa, que não esteve no Estoril e não estará no Dragão.

Mesmo que Gelson Martins recupere e jogue, é presumível que faltará velocidade ao Sporting, como tem faltado. Será uma questão de 'velocità', como diriam os italianos do campo de cimento.

Pois, do outro lado, apanhará a equipa que pressiona muito a saída de bola adversária, que tem por modo de vida jogar rápido e para a frente, a verticalidade de querer sempre atacar o espaço nas costas dos defesas e rematar à baliza o mais rapidamente possível. Já sabemos que o FC Porto, esta temporada, é assim - prático, veloz, intenso, apressado, vergador de adversários pelo cansaço e pressão.

O FC Porto de Sérgio Conceição é tão intenso quanto o seu treinador, que raramente se senta no banco

O FC Porto de Sérgio Conceição é tão intenso quanto o seu treinador, que raramente se senta no banco

Foto José Coelho/Lusa

A jogar desta forma, no campeonato, os dragões rematam, em média, 18 vezes por jogo, 12 deles de fora da área e 13 com a bola corrida; vêem 15 dribles a serem conseguidos e consentem 7,6 bolas disparadas à sua baliza. Dados mais abonadores do que os 13 remates por jogo - sete fora da área e nove com a bola a mexer - e as 10 fintas bem feitas do Sporting. Mais ainda quando, por jogo, os adversários dos leões conseguem, em média, 11 remates à sua baliza.

Baliza onde está Rui Patrício, o guarda-redes com mais paradas (54) esta época, quase o dobro das que José Sá (16) e Iker Casillas (13) registaram, em conjunto, de acordo com os dados da 'WhoScored'. É um guarda-redes que vale e tem valido pontos, num Sporting que, além de mais realista e pragmático como o seu treinador apregoa ser, não tem um Brahimi, que vai com 111 dribles feitos (Gelson, o desequilibrador dos leões, tem 44), ou um avançado que sprinta, arranca, ataca a profundidade e insiste como Marega, que já rematou 67 bolas à baliza (contra as 45 de Bas Dost).

Fiando-nos, ainda, nas estatísticas, o FC Porto teve sempre mais ataques, remates, dribles e passes a inventarem uma hipótese de finalização do que o Sporting, nos dois clássicos já realizados. Ambos redundaram num 0-0, embora os leões tenham vencido, nos penáltis, há semanas, para conquistarem a Taça da Liga, em Braga.

A equipa de Jorge Jesus tem produzido, acelerado e arriscado menos e, arrisco a escrever, tirado menos dos recursos que tem. Ao contrário de como Sérgio Conceição tem espremido tudo o que os seus têm para dar. E isso tem muito pouco de italiano, ou de pragmático, ou de realista.