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Paciência, afinal este jogo valia bem mais do que três pontos. Valia oito

O FC Porto ganhou ao Sporting pela segunda vez consecutiva e Sérgio Conceição consumou a emancipação perante o seu mentor. Os portistas deixaram os sportinguistas bem longe na classificação e o campeonato pode ter dado o passo decisivo

Pedro Candeias

Carlos Rodrigues

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Há sempre uma primeira e uma segunda vez para tudo e esta foi a primeira vez que vi dois bombeiros serem expulsos por interferirem objetivamente no funcionamento de um jogo de futebol. Foi assim: a bola escorregou para o banquinho onde três bombeiros e uma bombeira estavam sentados, Coentrão foi lá buscá-la para um lançamento e a coisa embrulhou-se de tal modo que um dos tipos que costuma lá estar para o que der e vier acabou de costas no relvado - e o futebolista também.

Bom, digerida mais esta originalidade portuguesa, continuo a dizer que há sempre uma primeira e uma segunda vez para tudo e esta foi a segunda vez que vi o FC Porto ganhar ao Sporting, e a de hoje interfere objetivamente no andamento do nosso campeonato de futebol.

Foi assim: o FC Porto começou melhor e depois o Sporting melhorou, o FC Porto marcou por Marcano e o Sporting empatou por Rafael Leão, e a coisa desembrulhou-se com uma jogada de um tipo que não costuma lá andar para o que der e vier - e num golo de alguém já habituado a isto. Ou seja, quando Gonçalo Paciência, filho de Domingos (isto não é um detalhe, lá iremos) encarou Mathieu, como um piloto de caças encara outro piloto de caças nos filmes, e deu a bola a Brahimi o resultado ficou selado: 2-1, três pontos que são mesmo mais do que três pontos somados - na realidade, são oito.

Por outro lado, e na eterna luta entre duas forças que se equivalem, esta foi mais uma estocada da criatura no criador. Se Freud explica, na sua lógica do complexo de Édipo um filho tem de matar o pai para se tornar um homem feito; obviamente, o protegido é Sérgio Conceição, e o mentor é Jorge Jesus que assim perde pela segunda vez consecutiva para o jogador que treinou e que ajudou a tornar-se treinador feito.

Acontece, a vida é assim mesmo, nem sempre se conseguem elaborar as melhores estratégias para bater quem nos conhece de trás para a frente. Sim, é verdade, Jesus estava condicionado porque não tinha Dost nem Gelson e toda a gente sabe o que estes dois valem no ataque leonino - basicamente, valem tudo, na medida em que um marca quase sempre e o outro assiste quase sempre.

E, sim, sem ambos, o Sporting perdeu apoio, verticalidade e vertigem, o oposto do que ofereceram Doumbia e Bryan Ruiz. Bruno Fernandes tentou de longe e de perto bater Casillas, enquanto Battaglia e William, sobretudo este, procuravam queimar os adversários, lançando-se à vez por ali adiante - até esbarrarem no músculo portista.

Mas o contexto clínico do FCP também não era o melhor e, ainda assim, conseguiu ir ao fundo do poço da profundidade com Marega e até… Dalot. Porque Sérgio Conceição perdeu Alex Telles, o campeão dos campeões ao nível da assistência para golo, Soares, Danilo, Ricardo e ainda tinha Aboubakar em banho-maria. Ao intervalo, 1-1, e três lances para pensar: a queda de Doumbia na grande área, a lesão de Doumbia e o túnel de Leão a Casillas; e a correria de Marega em versão Lomu, excluindo, claro, aquela parte em que pulava para a glória com a oval nos volumosos braços. É provável que o Marega de hoje falhasse uma pedrada num charco que estivesse a dois pés dele.

Na segunda-parte, o FC Porto apertou o ritmo e marcou por Yacine Brahimi na tal jogada em que Gonçalo Paciência se desfez de Mathieu - e o jogo mudou. Porque se foi partindo com o cansaço, porque foi havendo espaço onde não havia, porque entraram futebolistas diferentes que tentaram soluções diferentes - não necessariamente melhores, apenas diferentes, uma vez que, no caso do Sporting, não eram o plano B, mas o C.

Às tantas, Jesus fez o all in, os leões aceleraram, impuseram-se no meio-campo, e a cinco minutos do fim já estavam sem os dois defesas laterais, com Rúben Ribeiro e Montero a juntarem-se aos outros avançados - nesse momento, o ex-Rio Ave cruzou para Rafael Leão que não fez no final da segunda o que fizera no final da primeira parte.

Para trás ficaram as oportunidades falhadas de Montero (boa defesa de Casillas), de Marega (claro) e de Bryan Ruiz (idem). Para a frente há um campeonato que o Sporting poderá ter perdido e um candidato que o poderá ter ganho.