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Um jogo não é uma tomografia axial computorizada: Manuel Machado escreve sobre o clássico desta noite

Pedimos a um expert um texto sobre o clássico desta noite no Dragão (20h30) e recebemos um ensaio sobre futebol: a "magia do improvável"

Manuel Machado, treinador de futebol

Tiago Miranda

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A magia do improvável

Futebol, na sua essência um jogo, cada jogo um momento singular

Quem regularmente acompanha a imprensa, nomeadamente a que se ocupa esmagadoramente com o desporto, o mesmo é dizer com o futebol, sabe que no lançamento de cada encontro classificado de “clássico”, jornalistas, comentadores e analistas, os primeiros com prática profissional, os outros mais na “ótica do utilizador”, à semelhança de quem sujeita o jogo a uma tomografia axial computorizada (TAC), fatiam, projetam e antecipam a ação de quantos vão dar vida ao momento.

Na semana que corre e na antevisão do próximo jogo entre o Futebol Clube do Porto e o Sporting Clube de Portugal a avaliação do desempenho de dirigentes, técnicos e jogadores no percurso até agora realizado, cerca de dois terços do campeonato, é alvo de pormenorizado escrutínio.

Assim, a aclamação da longa e sábia liderança do Futebol Clube do Porto, alicerçada na discrição inteligente e solidez organizativa, é posta em confronto com uma outra muito mais “truculenta” e assumida na(s) primeira(s) pessoa(s), por quem toma o destino do Sporting Clube de Portugal.

Paralelamente, o elogio ao excelente trabalho realizado por Sérgio Conceição, do meu ponto de vista merecido, que juntando “cacos” e controlando a sua natureza impetuosa, construiu uma equipa que tem revelado capacidade e rendimento que faz do FC Porto primeiro classificado, pede comparação com a ação de Jorge Jesus, muito mais virada para o mercado e para compras que ascendem já, segundo o que é público, a cerca de 60 milhões de euros.

Inevitavelmente, os últimos desempenhos de uma e outra equipas são alvo de juízo, em particular, a robustez dos últimos resultados do Futebol Clube do Porto, nomeadamente nos jogos com o Estoril e Portimonense, por comparação com as dificuldades que o Sporting Clube de Portugal teve nos jogos com Tondela e Moreirense, que denunciam uma muito maior saúde competitiva dos azuis.

Não passa em claro a análise dos confrontos até agora realizados entre os dois clubes, evidenciando grande equilíbrio. Um golo de vantagem para o Futebol Clube do Porto na Taça de Portugal e uma vantagem nos penalties na Taça da Liga, realizada no pretérito mês de janeiro em Braga para o Sporting Clube de Portugal. Aliás, não deveremos deixar de valorizar o fator casa, que joga a favor do Futebol Clube do Porto. Poderá ser esse o elemento determinante?

Também, as diferenças classificativas e aquilo que pode resultar na acentuação ou redução das mesmas na resultante do jogo, não passam em claro. Pura matemática. É sabido que em caso de vitória portista, apesar de ficarem por jogar ainda 27 pontos, os 8 pontos de diferença que daí resultam porão o Sporting numa situação de grande dificuldade em alcançar o seu objetivo primeiro: o título nacional. Mas sabemos que, o contrário poderá acontecer, o que resultará num final de campeonato muito mais incerto no que reporta ao vencedor. Tudo isto, sem descurar a candidatura do Sport Lisboa e Benfica.

Acresce que, apesar de os discursos poderem ser verdadeiros ou de circunstância, as muitas ausências noticiadas, quer num, quer noutro clube, não deixam adivinhar o potencial que estará à disposição de cada um dos treinadores. Se de um lado Danilo, Telles, Aboubakar… do outro, Gelson, William, Bas Dost… dificultam uma leitura mais nítida das equipas a apresentar.

O futebol contemporâneo nas suas variadas dimensões técnica, científica, tecnológica e comercial possibilita hoje a medição ao milímetro e a pesagem à grama de muito quanto no jogo acontece.

Ainda assim, aquilo a que assistimos é, na sua raiz, um JOGO. Um jogo em que alguns fatores são mensuráveis e de possível controlo (e é importante e útil que o sejam), mas também de muitos outros que resultam da espontaneidade, da inspiração, do acerto e do acaso, na atitude de cada um dos integrantes das três equipas que nele participam. Ou seja de homens que na plentitude da sua expressão humana criam em campo um vasto conjunto de ações individuais, grupais e colectivas que lhe conferem este estatuto da maior e mais rica expressão humana. A estas ações acrescem as diferentes sensações e emoções que perpassam pelos incontáveis momentos que caracterizam este nosso jogo. Os jogos não se repetem, cada um deixa um registo particular, uma impressão digital única. Apesar das opiniões, projeções, prognósticos e indicadores estatísticos, o seu enredo não se adivinha. A magia do improvável conjugada com o amor clubístico, são o íman, a força atrativa que, há décadas, chama aos estádios multidões de adeptos.

Preservar este fator genético, este elemento mais colorido e menos aritmético do futebol é essencial, a meu ver e no sentimento do muito povo que vive este mundo. Sem ele, cada jogo, cada campeonato, não será mais do que um conjunto de adições de pesos, alturas e cifrões. Este jogo de todos nós não pode ser reduzido a isto.

Aguardemos então, por um grande desafio, que independentemente do seu desfecho possa constituir-se como um abono para o futebol nacional.

Vamos então ver o jogo!