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Porque o clássico ainda mexe: a pressa do Sporting em atacar contrastou com um FC Porto eficaz (a análise tática que explica o resultado)

O analista de futebol Tiago Teixeira selecionou os lances mais importantes do FC Porto-Sporting (2-1) para explicar por que razão os portistas saíram vitoriosos do jogo grande em que o Sporting até esteve em melhor nível esta época

Tiago Teixeira, analista de futebol e criador do blogue Domínio Táctico

Gualter Fatia

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Ao quarto clássico da época entre ambos, o Sporting CP apresentou-se, finalmente, a um nível que lhe permitiu discutir o jogo olhos nos olhos com o FC Porto, mas saiu novamente derrotado do Dragão - e a distância para o 1º classificado já é de 8 pontos.

O Sporting CP iniciou o jogo no seu habitual 4x4x2, com Bruno Fernandes no corredor lateral direito e Bryan Ruiz perto de Doumbia, mas esta disposição tática apenas durou 15 minutos. Jorge Jesus mexeu na equipa, passando Bruno Fernandes para segundo avançado e Bryan Ruiz para extremo direito.

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Menos de dois minutos depois da mudança entre Ruiz e Bruno Fernandes o Sporting CP chega com perigo à área do FC Porto, num lance em que a alteração de Jesus se fez sentir através da capacidade de Bruno Fernandes em aparecer nas costas da linha defensiva adversária.

No início do lance, uma das melhorias do Sporting CP em relação aos clássicos anteriores: a capacidade de sair das zonas de pressão do FC Porto com a bola controlada, sendo William Carvalho o maior responsável por isso.

Em inferioridade numérica na zona da bola, William Carvalho procurou Acuna para tabelar e assim sair com qualidade da pressão feita pelos jogadores do FC Porto.

Apenas com a linha defensiva adversária pela frente, William Carvalho realizou um passe em profundidade, aproveitando o movimento de rutura por parte de Bruno Fernandes.

No FC Porto, a primeira oportunidade de golo num lance de bola corrida nasce em Gonçalo Paciência e na sua capacidade para servir de apoio frontal.

Mesmo pressionado de forma agressiva por Mathieu, Gonçalo Paciência conseguiu manter a bola controlada, rodar e realizar o passe que permitiu a Marega explorar o espaço nas costas da linha defensiva do Sporting CP, ficando cara a cara com Patrício.

Na última posse de bola do Sporting CP antes de sofrer o primeiro golo, é possível verificar aquele que, na minha opinião, é um dos grandes defeitos da ideia de jogo de Jorge Jesus: a pressa em atacar.

Mesmo com a equipa do FC Porto muito bem posicionada defensivamente e com vários jogadores na zona da bola (apenas Herrera demorou um pouco mais a bascular para a zona onde se encontrava Bruno Fernandes), o Sporting CP tentou construir naquele espaço.

Ristovski colocou a bola em Bryan Ruiz que, ao tentar devolver ao lateral, acabou por perder a posse de bola. Se, em vez de forçar a entrada por aquele lado com o adversário completamente organizado, a bola tivesse recuado até Coates, dificilmente o Sporting CP perdia a posse de bola.

Após a perda de bola por parte do Sporting CP, o FC Porto dá início à transição ofensiva, através de um movimento muito visto no modelo de Sérgio Conceição.

Assim que Dalot recuperou a posse de bola, Gonçalo Paciência movimentou-se logo em direção ao corredor lateral esquerdo para receber o passe e conduzir em direção à área do Sporting CP, onde acabou por conquistar o canto que esteve na origem do primeiro golo do jogo.

Já em cima do intervalo, o Sporting CP chega ao empate através de Rafael Leão, num lance onde Bryan Ruiz demonstra toda a sua qualidade.

O posicionamento no corredor central permitiu a Bryan Ruiz receber a bola apenas com a linha defensiva do FC Porto pela frente. Marcano não recuou para controlar a profundidade, e Bryan Ruiz, após conduzir a bola uns metros, aproveitou a excelente movimentação de Rafael Leão nas costas do central portista, para no timing certo isolar o jovem avançado que na cara de Casillas fez o golo do empate.

No início da 2ª parte, o FC Porto chega ao segundo golo, num lance que tem origem num lançamento lateral.

Estão lá três jogadores do Sporting CP, mas Gonçalo Paciência dominou e entregou a bola completamente à vontade. No seguimento do lance, o avançado português recebeu a bola no espaço entre Coentrão e Mathieu e conduziu-a até à área do Sporting CP.

Já dentro da área do Sporting CP, Gonçalo Paciência realizou um cruzamento atrasado e Brahimi fez o segundo golo do FC Porto. Não houve por parte do Sporting CP uma ocupação do espaço à frente dos centrais e a abordagem individual de Ristovski deixou muito a desejar.

Destaque ainda para o lance que terminou com a melhor oportunidade de golo do Sporting CP durante toda a segunda parte. Novamente William Carvalho a criar condições para sair da zona de pressão com a bola controlada.

Pressionado pelas costas, tabelou com Bruno Fernandes para sair da zona de pressão, embora tenha acabado por ser Bryan Ruiz a receber o passe e a variar o centro de jogo para Rúben Ribeiro (que após ter conduzido a bola até à área do FC Porto assistiu de forma perfeita Rafael Leão).

Em relação aos clássicos anteriores, foi um jogo mais agradável de se ver, com o Sporting CP a demonstrar mais capacidade ofensiva do que tinha feito até então, principalmente porque foi mais competente a sair das zonas de pressão adversária. Em relação ao FC Porto, destaque para a qualidade do posicionamento defensivo e para as transições ofensivas.

PS – Como não foi possível usar frames do jogo para realizar esta análise, tive de me armar em Picasso e desenhar estas obras de arte. Caso queiram ver as imagens reais que correspondem aos lances analisados, basta pedirem no Facebook do blogue.