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Se ele é assim à chuva, imaginem em piso seco (a crónica de um dilúvio bíblico)

Numa tarde chuvosa e ventosa, o Benfica bateu o Marítimo por 5-0 e manteve-se a cinco pontos do FC Porto. Ao intervalo, ganhava por 4-0 e Jonas fez um hat-trick para engordar uma pequena lenda que vai construindo nesta Liga: ao todo, já leva 30 golos no campeonato. A corrida para o título continua em aberto

Pedro Candeias

CARLOS COSTA

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Aconteceu ao minuto 16: Rafa fintou, passou a bola a André Almeida que assistiu Jonas para o 1-0. De repente, o jogo entre o segundo e o sétimo classificados desta Liga profissional alegadamente competitiva transformou-se num amigável. E, depois, num jogo-treino, daqueles em que uma equipa testa soluções criativas, ensaia novos truques e roda jogadores perante um adversário que cumpre o protocolo não oferecendo resistência.

Jonas fez um golaço em vólei. Grimaldo voltou aos golos quase dois anos depois. André Almeida fez duas assistências. E até Douglas entrou em campo antes de Zivkovic fechar as contas.

Bom, a verdade é que a diferença entre Benfica e Marítimo a partir dos 15 minutos tornou-se tão abismal que praticamente tudo o que um e outro fizeram daí em diante, na primeira parte, resultou num golo marcado ou num golo sofrido. Praticamente tudo, não; certamente tudo, porque o Benfica teve quatro oportunidades na primeira parte e não desperdiçou uma: Jonas fez um hat-trick em pouco mais de vinte minutos e pelo meio Grimaldo picou a bola por cima de Charles.

Ora, isto quer dizer que o Marítimo facilitou? Dificilmente, porque este Marítimo é o Marítimo que também perdeu 3-0 com o Rio Ave, 3-0 com o Portimonense e 5-0 com o Sporting, o mesmo resultado com que saiu da Luz. Ou seja, o Marítimo é um sétimo classificado à dimensão da Liga portuguesa, certinho em casa mas vulnerável fora dela.

Apesar deste histórico, esperava-se um jogo um niquinho mais equilibrado, até porque chovia biblicamente em Lisboa e futebol não é F1 – não é no piso molhado que se vêem os melhores futebolistas, antes pelo contrário. Só que há duas teorias que começam a cristalizar neste Benfica: os triângulos à esquerda (Grimaldo, Cervi e Zivkovic) e à direita (Almeida, Pizzi e, sim, Rafa) estão cada vez mais sólidos e o Marítimo foi geometricamente derrotado; e Jonas é o melhor jogador desta Liga e objetivamente (estatisticamente, até) o melhor avançado da história do Benfica de Vieira. E se ele foi assim à chuva, imaginem em piso seco.

Portanto, se o Marítimo tinha a ideia de jogar de peito aberto, como Daniel Ramos reconheceu no final, escolheu o dia certo, porque a chuvada podia beneficiá-lo, mas o adversário errado, porque o Benfica está confiante, descansado, e, sobretudo, concentrado exclusivamente na perseguição ao FC Porto. É por isso que Pizzi forçou o quinto amarelo para ficar fora frente ao Aves em casa, sabendo que daqui a quatro encontra o FCP. E é por isso que Rafa e Fejsa, ambos permeáveis a lesões, saíram a vinte minutos do fim, para se pouparem para o que aí vem.

E se me perguntam porque escrevo pouco sobre a primeira parte e quase nada sobre a segunda, deixo-lhe aqui apenas uns dados do minuto zero ao 45: o Benfica teve quatro oportunidades e marcou quatro golos, e o Marítimo não teve uma; o Benfica rematou enquadrado com a baliza em cinco ocasiões e o Marítimo apenas uma; e a posse de bola estava dividida entre os 65% e os 35%.

Tal como as boas piadas, estes números explicam-se sozinhos.