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Os apanha-bolas que não podem festejar, os adeptos que representam o “falo humano” e os treinadores que não se podem levantar

Todas as semanas, o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol publica os processos instaurados a jogadores e clubes das Ligas profissionais - e há alguns que é preciso ler para crer, como o do Leixões, que teve de interpor recurso depois de ter sido multado em €357 por um apanha-bolas de 11 anos ter festejado um golo com um jogador

Mariana Cabral

Jamaal Lascelles, do Newcastle, a festejar com um apanha-bolas, em Inglaterra

Serena Taylor/Getty

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Foi você que pediu uma boa paródia? Então vamos a isso: é que, no futebol português, paródias há muitas e muitas delas estão no mesmo sítio, facilmente consultável por qualquer adepto, em www.fpf.pt.

É ali, na secção "institucional", que são publicados, todas as semanas, os relatórios dos jogos da Liga NOS e os processos sumários instaurados pelo Conselho Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol.

Se há uns que pouco mais têm a contar do que o funcionamento normal das instituições - advertências e multas por cartões amarelos, expulsões e atrasos, por exemplo -, há outros que é preciso ler e reler para crer.

O caso do apanha-bolas que se atreveu a festejar

O caso teve, esta terça-feira, um final feliz, mas voltemos atrás para explicá-lo. Nos processos sumários publicados a 13 de fevereiro de 2018, lia-se isto: "Ao minuto 43 da 1ª parte, após o golo do Leixões SC, os apanha-bolas comemoram efusivamente o golo, tendo um dos apanha-bolas entrado dentro do retângulo de jogo e abraçado o jogador número 9 daquela equipa".

Não é frequente, mas há apanha-bolas que, lá muito de vez em quando, até têm alguma influência no jogo, como já nos ensinou a Bundesliga. E, esta terça-feira, na Liga dos Campeões, também foi possível ver Facundo Ferreyra, jogador do Shakhtar Donetsk, perder as estribeiras com um apanha-bolas da Roma que demorava em repor a bola, empurrando-o por cima do painel publicitário que rodeava o relvado.

O apanha-bolas da Roma que foi empurrado por um jogador do Shakhtar Donetsk

O apanha-bolas da Roma que foi empurrado por um jogador do Shakhtar Donetsk

Silvia Lore/Getty

Ora, no jogo entre Leixões e Sporting de Braga B, da 2ª Liga, quando o Leixões marcou o 1-0 (o jogo terminou 1-1), os apanha-bolas festejaram. E um deles até abraçou Bruno Lamas, o marcador do golo, não tendo vindo daí mal ao mundo - nem, melhor dizendo, tendo o jogo sido retardado por isso (os festejos decorreram durante 13 segundos).

O que poderia ser visto como um dos (poucos) momentos bonitos do futebol português, foi visto pelo delegado da Liga, Rui Mourinha, como um "comportamento incorreto dos apanha-bolas", aplicando-se então a respetiva multa ao Leixões: €357.

Consultado o Regulamento das Competições da Liga, verificam-se vários pressupostos relativamente aos apanha-bolas. A saber: devem "ter entre 8 e 16 anos de idade e usar os coletes com o naming da competição"; não devem "ser inferior a nove nos jogos da Liga NOS e a sete nos jogos da LEDMAN LigaPro"; devem cumprir "as suas funções com zelo e celeridade, nomeadamente permitindo a recolocação de uma bola em jogo no máximo de três segundos".

E, aparentemente, enquanto crianças, não devem - que desplante - mostrar qualquer tipo de emoção na comemoração de um golo da própria equipa.

Felizmente, esta semana, após recurso interposto pelo Leixões por "excesso de zelo" do delegado, o Conselho de Disciplina da FPF revogou o processo sumário: "É compreensível que uma criança de 11 anos, numa atitude irrefletida de alegria com a marcação de um golo da sua equipa, se dirija a um jogador para abraçá-lo. É um momento emocional que, no caso, não representou perigo ou risco para ninguém, nem interferiu com o jogo".

Ou seja, 1-0 para o futebol.

O “falo humano” e o “sexo explícito”

Quem nunca ouviu um impropério num estádio de futebol que atire o primeiro processo sumário - porque entre os processos publicados esta terça-feira estão, como habitualmente, uma série de impropérios que valem multas valentes aos clubes (já José Sá não utilizou impropérios, mas o árbitro sentiu-se ofendido na mesma).

Como a multa de €383 ao Santa Clara, clube da 2ª Liga que visitou o Varzim, a 4 de março: "Um adepto do Santa Clara que fazia parte de um grupo de 10 adeptos daquele clube, que envergavam cachecóis e camisolas do clube [...] voltou-se para os adeptos visitados e começou a gesticular com as mãos atos provocatórios, tais como: o levantamento do dedo médio, representando o 'falo humano', e com uma mão aberta e outra fechada, batendo uma na outra, representando 'a prática de sexo explícito'".

JOSÉ COELHO/LUSA

Igualmente "incorretos" foram os comentários de Jorge Simão, treinador do Boavista, na receção ao Estoril, segundo o árbitro Vítor Ferreira: "Foi expulso porque contestou uma decisão da equipa de arbitragem, tendo proferido aos berros: 'Falta o quê? Puta que pariu!'"

Jorge Simão terá agora de pagar uma multa de €765, acrescentando à que já teve de pagar depois do Boavista-Vitória de Guimarães - foi multado em €536 porque "não utilizou braçadeira que o identificasse", como pedem os regulamentos.

Ainda assim, bem pior - financeiramente falando - estão outros treinadores: Petit, do Moreirense, Silas, do Belenenses, e Pepa, do Tondela. É que, ainda que todos liderem as respetivas equipas, nenhum deles tem o curso de treinador necessário para estar na Liga NOS - o UEFA Pro (IV nível). Isso quer dizer que, na ficha de jogo, não podem ser inscritos como treinadores principais e, não sendo oficialmente treinadores principais, em jogo, não podem estar sistematicamente em pé.

Por isso, por dar "instruções de forma permanente para o terreno de jogo", Petit foi multado em €1205 e Silas foi multado em €1802. Esta semana, Pepa não consta nos processos, mas as multas ao treinador do Tondela também têm sido recorrentes, como lamentou o próprio em entrevista à Tribuna Expresso, recentemente: "Pareço um bandido, tenho de estar ali no banco sem me mexer. Levanto-me: multa de €1000, multa de €1500, multa de €2000. Um treinador assina um papel em que diz que se compromete a tirar o IV nível assim que abrir. Foi o que sugeri. Não foi por preguicite que não tirei."