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Bem-vindos ao campeonato do pára-arranca (ou uma outra forma de ver o Feirense-Benfica)

Numa semana em que tanto se falou de 'anti-jogo' e 'tempo útil', à boleia do Paços de Ferreira-FC Porto, analisámos vários indicadores gerais da qualidade de jogo da liga portuguesa face a outros campeonatos europeus. E percebemos que não há casos isolados: em Portugal pára-se muito, joga-se pouco e o Marcolino de Castro, casa do Feirense, é um caso crítico. E a questão, dizem Duarte Gomes e Augusto Inácio, é essencialmente cultural

Lídia Paralta Gomes

NurPhoto/Getty

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Estar na estrada, ter um carro potente e não conseguir meter a 5.ª. Porque há trânsito, porque a estrada é estreita e esburacada. É possível que seja este o cenário que o Benfica terá pela frente este sábado em Santa Maria da Feira. É que no Estádio Marcolino de Castro que se têm jogado os encontros com menos passes certos da Europa. Ou menos remates. Ou com mais paragens para assistência médica de jogadores.

O Estádio Marcolino de Castro, casa do Feirense, não é a tempestade perfeita. É apenas um local paradigmático daquilo que é o futebol português. Numa semana em que as expressões “anti-jogo” e “tempo útil de jogo” andaram mais em voga do que o habitual, a Tribuna Expresso analisou dados recolhidos em todos os jogos desta época pela Opta/GoalPoint para perceber que em Portugal joga-se pouco e pára-se muito, como se o nosso futebol fosse permanentemente jogado numa qualquer movimentada via de acesso a uma grande cidade em plena hora de ponta.

De acordo com as contas feitas no início desta semana pelo diário desportivo “Record”, o jogo da discórdia entre Paços de Ferreira e FC Porto, o tal que veio reavivar a eterna discussão sobre aquilo que não se joga em Portugal, teve 44 minutos e 4 segundos de tempo útil, em 90’+9 de tempo real. Mas não é filho único. Os números da Opta/GoalPoint dizem que no universo das cinco maiores ligas europeias, mais Portugal e Turquia, a liga portuguesa é, em média, o campeonato com menos passes certos, menos dribles eficazes e menos remates enquadrados. É ainda a liga com mais faltas assinaladas e com mais cartões mostrados por perda de tempo - portanto, uma liga de pára-arranca constante.

E porque é que isto acontece? Por muitas medidas que se implementem para aumentar o tempo útil de jogo e tentar desencorajar o anti-jogo, a questão é, essencialmente, cultural.

“O árbitro é aquele que pode minimizar e tem esse poder de minimizar o estrago nas perdas de tempo. Tem a lei a seu favor em algumas matérias e pode ser pró-ativo, preventivo, pode ser mais rigoroso disciplinarmente, pode dar mais tempo de desconto no final. Tudo certo. Mas a base disto é onde começa e não como se resolve”, começa por explicar Duarte Gomes à Tribuna Expresso. E quando é que começa? “Numa atitude cultural dos jogadores, tática, estratégica das equipas, no sentido de evitar a derrota a todo o custo ou ganhar o pontinho”, continua o antigo árbitro internacional, agora comentador.

“Não estou a ver um treinador a dizer a um jogador ou a um guarda-redes para se atirar para o chão. Não estou a ver porque eu nunca fiz isso”, conta-nos Augusto Inácio, que sabe o que é treinar um grande (Sporting), mas também quase duas mãos-cheias de clubes ditos pequenos do nosso campeonato. Também Inácio acredita que, em primeiro lugar, estamos perante um problema cultural: “Há muita manha dos jogadores. Enrolam-se, gritam, mas se a bola segue começam logo a correr”.

Bola a rolar mais é igual a mais tempo útil de jogo. E aí, diz Inácio, o poder do árbitro é determinante: “Eu deixava rolar o jogo. Porque quando paras o jogo a cada falta, isso dá o mote para que um jogador saiba que de um momento para o outro o jogo vai necessariamente parar porque ele está no chão”.

Em bom futebolês, Augusto Inácio explica assim: “A tendência natural, principalmente da equipa pequena, é: está 0-0, está empatado ou está a ganhar, o adversário está por cima, está quase a fazer o golo do empate ou da vitória. A tendência é ‘deixa cá quebrar o ritmo’. E por isso é que vemos os guarda-redes sem nenhum contacto a atirarem-se para o chão, que até parece que levaram com um tiro da bancada, ou um jogador que tem um choquezinho e agarra-se à cabeça, que uma pessoa até pensa ‘olha, vai levar 14 pontos’ mas depois afinal não tem nada”.

Mas há momentos em que os árbitros têm mesmo as mãos atadas. Há leis a cumprir quando um jogador está no chão, mesmo que os juízes sintam estar perante uma situação de anti-jogo.

“Podemos falar da consequência, do que se pode fazer para evitar a perda de tempo. Mas há coisas que os árbitros não podem fazer: não podem negar a assistência médica a um guarda-redes caído no chão e tem de interromper o jogo de imediato. Tem de ir ao pé dele, perguntar se quer ser assistido, se disser que sim, tem que chamar a assistência. E o jogo não pode seguir sem guarda-redes. Para todos os outros jogadores, o árbitro tem a oportunidade de não fazer a assistência na hora, deixar o jogo continuar se considerar que a lesão não é grave, mas à primeira interrupção, está obrigado a lá ir e fazer a mesma pergunta. E se ele disser que sim, quer ser assistido, é obrigado a deixar entrar a assistência médica. Porque os árbitros não são médicos, não podem dizer ‘não, não estás magoado’ e depois ele tem um ataque cardíaco ou uma perna partida”, explica Duarte Gomes.

Augusto Inácio não vê mal em cronometrar-se “as paragens por lesão e substituições”, o que, na sua opinião, levaria a que os jogos tivessem, na verdade, “perto de 15 minutos extra”. Mas o mal já está feito.

“O árbitro pode acrescentar tempo no final do jogo, mas isso é uma falsa questão. Porque por muito tempo que se acrescente ao jogo, o que o jogador quer no momento em que cai ao chão é enervar o adversário e quebrar o ritmo. Isso já ele conseguiu. E isso é uma estratégia”, diz Duarte Gomes.

O país onde tudo se apita

Por cá apita-se muito, toda a gente sabe. Os números da Opta/GoalPoint são claros: esta época, até à última jornada, houve uma média de 33,4 faltas marcadas por jogo. Só a liga turca se aproxima deste número, com 29,6. Segue-se a Bundesliga, com 28,3.

“O árbitro em Portugal apita muitas faltas, mas lá fora apita só 10, 15 ou 20. Sabe porquê?”, questiona Duarte Gomes. “Porque culturalmente, quer o jogador, quer o dirigente, quer o adepto quer mesmo um jogo com muito contacto. Enquanto estivermos no escrutínio televisivo ao frame, do qual eu infelizmente faço parte, os árbitros vão ter de marcar as faltas que vêem, porque mais tarde vão ser julgados. Isto é muito giro dizer ‘vamos jogar à inglesa’, mas os jogadores não querem. Há lances em que os jogadores podem muitas vezes ter uma lei da vantagem, mas preferem a quebra do ritmo de jogo”, explica.

O Paços de Ferreira-FC Porto deu o mote para a discussão sobre o anti-jogo e o tempo útil

O Paços de Ferreira-FC Porto deu o mote para a discussão sobre o anti-jogo e o tempo útil

MIGUEL RIOPA/Getty

E além disso, fazem mesmo mais faltas, diz o antigo juiz. “Tecnicamente não somos o campeonato mais evoluído. Somos um bom campeonato mas não estamos no topo. Por causa disso há mais passes errados, há mais faltas, há mais agarrões e há mais ‘chicoespertice’ da queda fácil, da simulação, da paragem do jogo”.

Duarte Gomes já deu aqui na Tribuna algumas dicas sobre como minorar os efeitos do antijogo, numa visão macro, mas em situações específicas de jogo o caminho passa por começar mais cedo a prevenção e ação disciplinar. “Por exemplo, na demora típica do guarda-redes na reposição da bola. À primeira dá-se um aviso forte, à segunda leva amarelo. E se tiver de ser expulso com um segundo amarelo, é.”. Diz o comentador que isso pode “ajudar a acelerar”, na medida em que os jogadores percebem que estão “perante um árbitro que é absolutamente implacável em termos disciplinares e intolerante a perdas de tempo deliberadas”. Assim, diz Duarte Gomes, os jogadores “terão mais cuidado porque correm o risco de serem expulsos e prejudicarem a sua equipa”.

Mas o trabalho para mudar a tal cultura, a mentalidade que promove o anti-jogo, diz o antigo internacional, deve ser feito desde o início. “É preciso muita pedagogia, muito trabalho junto dos mais jovens, porque até esses, os miúdos de 13, 14, 15 anos, já estão a perder-se para estes vícios. Para os vícios do resultado, do árbitro que é ladrão, corrupto. Já têm esse discurso”.

O que se passa em Santa Maria da Feira?

Em todos os jogos analisados pela Opta/GoalPoint, um universo de milhares de encontros em sete campeonatos na Europa, o Feirense-Boavista é o que tem menos passes certos (320). Seguem-se… mais dois jogos disputados em Santa Maria da Feira: o Feirense-Tondela (340) e Feirense-V. Setúbal (340) - o Paços de Ferreira-FC Porto está em 5.º nesta lista, em 371. Foi também no Marcolino de Castro que se jogou o encontro com menos remates esta época, o Feirense-V. Setúbal, com 9 tiros. Esse é também o 5.º jogo com mais faltas assinaladas (47). Houve esta época dois jogos na Europa com oito paragens para assistência médica de jogadores: o Sampdoria-Torino e… o Feirense-Rio Ave. E no top 5 de jogos com menos ações com bola, há dois jogos do Feirense em casa (contra Rio Ave e Boavista).

O Marcolino de Castro tem características muito próprias. Bancadas muito próximas do relvado, que é estreito, apertado. E os invernos a norte são chuvosos, pouco amigos de relvados. Nuno Manta Santos referiu isso mesmo na conferência de imprensa de antevisão ao jogo deste sábado: o Benfica vai jogar num estádio diferente, com condições diferentes, com um relvado que tem sido poupado ao máximo para que o espectáculo possa ser o mais positivo possível.

Para Augusto Inácio, que sabe o que é treinar (e jogar) em campos semelhantes, os dados são “uma coincidência” e não provam que o Feirense tenha uma estratégia de anti-jogo ou que as próprias características do campo sejam decisivas para tais números.

O Feirense-Tondela é o segundo jogo com menos passes certos entre os principais campeonatos da Europa

O Feirense-Tondela é o segundo jogo com menos passes certos entre os principais campeonatos da Europa

NurPhoto/Getty

“Acho que tem mais a ver com o espírito dos jogadores. Os jogadores do Feirense são normalmente aguerridos, guerreiros, jogadores de combate, de luta e isso é contagiante para a equipa toda. E se o adversário entra nesse espírito então vamos ter ali, como eu costumo dizer, um jogo de pêlo na venta. Ninguém tem medo de meter o pé, de meter a cabeça, ninguém tem medo de ir à luta. Ninguém se encolhe. Isso faz com que possa haver mais contacto e mais faltas”, explica.

Inácio, que na última temporada venceu uma Taça da Liga com o Moreirense, eliminando pelo caminho o Benfica, lembra que “as equipas do Norte normalmente são equipas com aquele espírito do ‘antes quebrar do que torcer’ e por isso há mais faltas. Não me parece que seja estratégia deliberada ou por causa da dimensão do campo”.

E é por isso que este sábado, o Benfica terá, provavelmente, uma das deslocações mais complicadas até final do campeonato. Medo de anti-jogo, Rui Vitória já disse que não tem - teceu até rasgados elogios à equipa de Nuno Manta Santos.

Mas é provável que tenha de quebrar uma equipa que, em casa, é difícil de ser torcida.