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O queixinhas sem nome: a última originalidade da bola à portuguesa

Há uma nova modalidade no nosso futebol: a denúncia anónima que segue para a PGR e que aparece nos jornais. Não importam as consequências, apenas lançar suspeitas a granel que, inevitavelmente, levarão à banalização da queixa

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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Podia ser assim, com muitos verbos:
Um tipo vê o jogo até ao fim, revê os lances na televisão, agarra no telemóvel e descarrega uma aplicação que distorce a voz - a Voice Changer, por exemplo, tem a definição *adepto* ou *bêbado*, não que uma e outra condições estejam ligadas, obviamente.

Depois, o tipo que é fanático ou que está com os copos – o facto de poder ter uma agenda oculta também não é improvável –grava uma mensagem áudio, disca o número direto da PGR (é o 213 921 900), liga o o alta-voz e apresenta anonimamente a sua denúncia. Dirá a quem o atender que se está a basear na vista que a terra há-de comer, na dica de alguém altamente qualificado e decisivamente bem posicionado no mundo mágico da bola; ou, então, foi um diz-que-disse-que-viu no lance coiso e tal.

Outra opção é ir diretamente ao site do Ministério Público, seguir o link das denúncias do DCIAP, preencher os 10 itens, cinco deles obrigatórios, clicar na caixinha que garante que uma pessoa é uma pessoa e não um robô T-800 da Cyberdyne Systems – e, pronto, já está.

O resultado será o mesmo, independentemente da modalidade delatora preferencial: a queixa tornar-se-á pública, aparecerá nos jornais, o jogador será linchado nas redes sociais e nas TV’s, um segundo jogador irá ao Facebook jurar a integridade do primeiro.

“Mano, estou contigo.”

E assim se cumpre um ciclo mediático estúpido, insípido e sujo, mas que deixa marcas, porque a partir desse momento todos os futebolistas são suspeitos de se entregarem a troco de uns trocos em favor de A ou de B. De certa forma, os jogadores tornaram-se os novos árbitros e os antigos árbitros são os videoárbitros, na medida em que se erram, é porque estão comprados pelo Benfica, FC Porto ou Sporting – escrevo por ordem alfabética, não vá alguém achar que estou a ser pago para dizer mais mal de uns do que de outros.

Ora, o que vem a seguir a isto? A relativização da queixa que baixará vertiginosamente à categoria de queixume, até cair, fatalmente, na anedota popular.

Essa banalização folclórica é perigosa, porque o dia em que algo de verdadeiramente grave vier a acontecer, porque é sempre possível haver corrupção no futebol, a reação da malta será a indiferença e não a indignação. Nessa altura, estaremos tão anestesiados pela exposição a estes histerismos ridículos que deixaremos passar esta, só mais esta história como se fosse igual a todas as outras que a antecederam.

E é nesse pântano, em que tudo parece o mesmo à superfície enquanto a vida acontece lá em baixo, que nascem os populismos e as análises acríticas, cuja finalidade é manipular as massas e tornar a verdade, seja ela desportiva ou civil, num assunto cromático: azul, encarnado ou verde. Novamente, por ordem alfabética, não vá o tipo do telefone estar à escuta.