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As lições do professor Rui Vitória, o jogador “da treta” que gosta mesmo é de ser treinador (e quer mais “tempo útil de jogo” em Portugal)

O treinador bicampeão pelo Benfica regressou ao Minho para explicar "os caminhos para chegar a campeão nacional". Rui Vitória não revelou fórmulas secretas mas deixou pistas sobre o que que falta ao futebol português: menos paragens e mais tempo de jogo útil. No encerramento do Fórum do Treinador, em Braga, numa conversa conduzida por Rui Quinta, perante uma sala cheia, falou do passado e do presente, sem cair na tentação de prever o futuro

Isabel Paulo e Rui Duarte Silva

Rui Vitória no Fórum do Treinador 2018, em Braga

Rui Duarte Silva

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O desafio lançado a Rui Vitória era explicar “os caminhos para chegar a campeão nacional”. Apesar de já ter bisado a experiência e estar na luta pelo desejado penta, jamais alcançado pelo Benfica, o técnico que chegou à Luz sem floreados no currículo vindo do Paços de Ferreira e Guimarães começou por alertar que “pouco se revia no tema proposto”.

Porquê? “Na carreira de um treinador, há trabalhos mais árduos e até mais valiosos do que ser campeão num grande clube, com grandes jogadores”, garante o treinador que se estreou no banco do Vilafranquense, poucos dias depois de ter pendurado as botas, aos 32 anos.

Ao contrário da maioria dos jogadores, confidencia que o fez sem dor, por ter sido “um jogador da treta” e ter descoberto depressa que “o que gosta mesmo” é de ser treinador de futebol. Conta que apesar de ter recebido convites de equipas seniores, achou que seria importante começar pelas camadas jovens, nos juniores do Benfica, decisão que assegura ter influenciado para sempre a sua identidade enquanto treinador, a par da aprendizagem feita na prática com os seus antigos técnicos, cimentada pelo conhecimentos teóricos no curso de Educação Física.

À pergunta de como chegou à sua ideia de jogo, respondeu que todas as ideias são boas, “o difícil é passá-las à prática, e sobretudo funcionar”. Até hoje, conta que nunca parou de fazer ajustamentos, avançando que todas as equipas são diferentes pelo seu contexto. “Quando chego a um clube a minha primeira preocupação é perceber o contexto. Treinar uma equipa bicampeã nacional, como era o caso do Benfica, é diferente de treinar o Paços de Ferreira ou Vitória”, diz, razão pela qual, apesar da proximidade, fez questão de mudar de casa quando foi para Guimarães. “Morava do outro lado da rua e ia a pé para o estádio”, lembra.

Sem abrir demais o jogo, afiança ainda que o seu modelo de jogo passa muito pelo perfil de jogadores que encontra à sua chegada, afiançando que, não sendo possível ser justo com toda a gente, há duas coisas que tenta ser o mais possível: coerente e de confiança. “Os jogadores não são máquinas, têm problemas em casa, por mais dinheiro que ganhem”. Por isso, independentemente da grandeza do clube, nunca abdica de conhecer os homens e não só os profissionais, convicto que quanto melhor os conhecer maior será a sua capacidade de influenciar o rendimento da equipa.

“Quando chega um jogador novo, preocupo-me em saber se tem filhos, se está bem instalado, se tem SportTV, etc”, refere Vitória, afirmando que na sua relação com os jogadores do Benfica, em relação aos do Paços ou do Guimarães, o que mudou foi uma maior preocupação com o mediatismo: “A um nível mais elevado, tudo tem mais impacto, tudo tem de ser mais controlado para que não haja desestabilização”.

Até aos 12 anos, pensar só em futebol é um erro

Rui Vitória à conversa com Rui Quinta

Rui Vitória à conversa com Rui Quinta

RUI DUARTE SILVA

Questionado sobre o que o leva a apostar em jovens jogadores, responde de pronto que, contra a corrente, acha que não é preciso ser “um super homem” nas camadas jovens para se chegar a jogador de primeira linha. “Ninguém faz de uma vassoura um jogador, mas quando um jogador tem qualidade cresce mais depressa na equipa principal. A exigência dos colegas aumenta-lhe o foco. São uma espécie de disco rígido em que é mais fácil carregar informação do que nos mais velhos”, diz, acrescentando que gosta ainda de ter jogadores jovens nas suas equipas por se lesionarem menos e recuperarem das cargas de trabalho mais rapidamente.

Comparativamente aos jogadores do seu tempo, Rui Vitória diz que, por norma, os jovens futebolistas são mais preparados e mais profissionais. “Sabem que o seu trabalho não se esgota em hora e meio de treino, sabem que é importante acordar a horas e ter horas de descanso”. A faltar alguma coisa, o técnico do Benfica destaca a ausência de “atrevimento, até uma certa malandrice”. Avesso a jogadores robotizados, diz que o jogador do futuro tem de ser cada vez mais inteligente, capaz de encontrar soluções rápidas dentro de campo, capacidade que defende não se adquirir com a especialização precoce.

Para Rui Vitória, é errado um miúdo até aos 12 anos praticar só futebol, sublinhando ser importante praticar judo para aprender a cair ou basquetebol para se desenrascar numa situação de dois contra um. “Quando maior for a sua bagagem de formação geral, mais inteligente será dentro de campo”, conclui.

A ambição não se apregoa

No pais campeão europeu de futebol e futsal, de treinadores de provas dadas pelo mundo, afinal o que ainda falta ao futebol português? “Melhor organização e bons tapetes de jogo, salto em que a FPF e a Liga têm responsabilidades”, defende.

Aos treinadores e jogadores deixa uma advertência: “Temos de caprichar, pois somos a Liga com menos tempo útil de jogo entre as principais ligas europeias. Esta época, temos 49 minutos e tal de jogo, enquanto na Champions são quase mais 20 minutos de tempo global de jogo. Há que ter essa preocupação para deixarmos de ser a Liga com mais tempo de jogo parado”, conclui.

Sobre o futuro, um manto de silêncio. “Vivo muito o dia a dia. O tempo é reduzido e regulo-me para ter tempo para ler, estar com a família e os filhos, senão perde-se a lucidez”. Tal como não foi capaz de prever no passado que ia treinar o Benfica, Rui Vitória também não cai na tentação de prever o que gostaria de estar a fazer daqui a cinco anos: “A ambição não se apregoa. O que tiver de acontecer há de surgir fruto do trabalho”.

Rui Vitória no Fórum do Treinador, em Braga

Rui Vitória no Fórum do Treinador, em Braga

RUI DUARTE SILVA