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Paulo Fonseca e o sucesso na Ucrânia com jogadores “habituados a fazer quilómetros à volta do campo”

Campeão pelo Shakhtar Donetsk e de novo em 1ºo lugar no campeonato ucraniano, Paulo Fonseca confessa não ter saudades do futebol português, desagradado com o clima de guerrilha fora de campo e o excessivo protagonismo dos dirigentes

Isabel Paulo e Rui Duarte Silva

Paulo Fonseca no Fórum do Treinador, em Braga

Rui Duarte Silva

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De visita a Portugal, o ex-treinador do FC Porto e Sp. Braga veio contar, no Fórum do Treinador, a decorrer na universidade do Minho, como é ser campeão no estrangeiro.

No caso de Fonseca, foi chegar, ver e vencer, mesmo num país culturalmente diferente e num clube exilado em Kiev há dois anos, por força do conflito armado na Crimeia contra os separatistas pró Rússia.

Apesar de treinar em Kiev e jogar em Kharkiv, longe dos adeptos do Shakhtar (o que obriga a equipa a fazer mais de uma centena de viagens de avião por época), e apesar das temperaturas negativas e da barreira da língua, Paulo Fonseca confidenciou hoje que não passa pelos seus planos voltar para Portugal, pelo menos tão cedo.

Além de no estrangeiro o treinador português ser mais valorizado do que na sua terra, defende o técnico que prefere falar do futuro do que no passado (em especial da sua passagem pelo FC Porto na hora errada), Fonseca justifica a resistência do regresso com as eternas polémicas e desconfianças no futebol português.

Paulo Fonseca recusa, contudo, apontar o dedo aos principais culpados, até porque rejeita falar de presidentes de clubes: "Já têm protagonismo a mais no futebol nacional".

Paulo Fonseca foi um dos oradores da edição de 2018 do Fórum do Treinador, organizado pela Associação Nacional de Treinadores de Futebol

Paulo Fonseca foi um dos oradores da edição de 2018 do Fórum do Treinador, organizado pela Associação Nacional de Treinadores de Futebol

Rui Duarte Silva

A oito jogos do final da época, líder do campeonato com mais seis pontos do que o arquirrival dínamo de Kiev, Fonseca tem tudo para revalidar o título nacional, após ter sido eliminado na Champions nos oitavos-de-final, pela Roma.

O sucesso longe de casa já lhe valeu o convite de alguns clubes europeus e a proposta para renovar com o Shakhtar, mas Paulo Fonseca diz ser ainda cedo para decidir.

Numa conversa que teve Domingos Paciência e Carlos Dinis como moderadores, Paulo Fonseca conta que, no seu caso, o segredo de ter sido campeão logo na época de estreia na Ucrânia foi não ter abdicado da sua identidade de jogo. "Não foi fácil. Era uma equipa treinada por Lucescu há 12 anos", lembra, acrescentando haver no país um futebol muito físico e fechado.

Fonseca conta também que, quando chegou, na pré época, os jogadores não estavam sequer habituados a treinar com bola, "mas a fazer quilómetros à volta do campo".

Aos poucos, refere que a equipa trocou o modelo de jogo anterior, de defesa em bloco baixo, marcações individuais e contra ataque, trocando-o por um jogo dominante nos últimos 40 metros.

Os treinadores Domingos Paciência, Carlos Dinis e Paulo Fonseca no Fórum do Treinador 2018, em Braga

Os treinadores Domingos Paciência, Carlos Dinis e Paulo Fonseca no Fórum do Treinador 2018, em Braga

Rui Duarte Silva

Paulo Fonseca não esconde, contudo, que o poderio financeiro do Shakhtar ajuda, principalmente num campeonato desnivelado competitivamente e em que por sistema jogam duas equipas pelo título, e outras três ou quatro lutam para a Europa, enquanto a maioria do pelotão joga para não descer.

A deficiente formação de jogadores devido a dificuldades financeiras é outra das facetas negativas do futebol ucraniano, fator que o coloca "a 20 anos do futebol português", segundo o ex-treinador do FC Porto.

Um cenário combatido com o recurso a muitos estrangeiros, sobretudo brasileiros. "A explicação é simples: é uma forma de entrarem no futebol europeu e o Shakhtar é um ótimo palco por jogar na Champions", conclui Paulo Fonseca, após referir que jogadores do primeiro mundo do futebol, como italianos ou espanhóis, nem por muito dinheiro querem jogar na Ucrânia.