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Cochilando à frente do inimigo

O Benfica ganhou por 2-0 ao Vitória de Guimarães com dois golos de Jonas, um de penálti, outro após um cruzamento notável de Jiménez. Os encarnados são líderes do campeonato, pelo menos até à próxima segunda-feira, quando o FC Porto defrontar o Belenenses. Depois, logo se vê

Pedro Candeias

Carlos Rodrigues

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O jogo tinha algumas curiosidades, que passo a enumerar: Rui Vitória era treinador do Vitória de Guimarães antes de treinar o Benfica, algo repetido por toda a gente e eu não fujo à regra, porque toda a gente tem um passado. José Peseiro era o último treinador que vencera o Benfica na Luz para o campeonato, há dois campeonatos, com FC Porto (1-2). O Benfica de Vitória enterrou definitivamente o Benfica de Jesus em Guimarães uma volta atrás, a 5 de novembro de 2017, quando Jonas passou a jogar lá à frente sozinho e a equipa a jogar para ele em 4x3x3 (triunfo por 3-1, um dos golos foi do brasileiro, obviamente). E Jonas estava a um golinho apenas de igualar o seu recorde na Liga, coisa que fez e ampliou, porque, enfim, Jonas é Jonas.

Mas não foi fácil – foi de penálti, no último minuto, praticamente na última jogada da primeira parte e depois de uma consulta protocolar de Carlos Xistra ao VAR que assinalou uma mão de João Aurélio no centro da área. Nada de novo para João Aurélio, o defesa-azarado que fez autogolos no Nacional-Sporting de 2009, no Nacional-FC Porto de 2010 e no FC Porto-Vitória de Guimarães de 2016. Se há lógica retorcida no universo, João Aurélio estava a dever uma ao Benfica.

Já o 2-0, só visto. Jiménez cruzou de letra, ou seja, trocou os pés como Fred Astaire, e Jonas cabeceou para o seu 33.º golo – o que faz de Jiménez o melhor suplente e de Jonas o melhor jogador da Liga. Ambos de longe.

Só que chegar até ao ponto em que tudo mudou, pouca coisa se passou. Porque o último treinador que eu via poder converter-se ao pragmatismo, abraçou-o como um fundamentalista. E foi então que o ex-romântico José Peseiro montou a equipa com marcações individuais aos extremos do Benfica, muita gente e muito músculo no meio-campo, mas no seu meio-campo; e o talento de Matheus-filho-de-Bebeto a pôr bolas nos dois alas rápidos e valorosos.

O Benfica nunca conseguiu ligar o jogo entre Pizzi e Zikvovic, Rafa voltou a uma hibernação auto-imposta, Cervi tentava cruzar para o lugar onde estavam os centralões de Guimarães. Do outro lado, todas as oportunidades eram poucas para explorar as costas de André Almeida, através do notável Raphinha. Num lance à esquerda, o VAR confirmou um fora de jogo do auxiliar que negara o golo ao Vitória – e esse susto passou. Os outros foram sustidos por Grimaldo, diretamente de Liliput para o corte providencial.

E, depois, o penálti. Que desbloqueou tudo antes do intervalo e permitiu ao Benfica entrar a carregar sobre o adversário na segunda-parte. Não com a mesma energia com que vimos fazer nos jogos pré-paragem-das-seleções, é verdade, mas, ainda assim, uns níveis acima do que fizera antes do balneário. Aconteceu assim; Grimaldo teve dois lances de perigo, que Miguel Silva defendeu, e a entrada de Jiménez serviu para explorar a subida natural do Vitória que iria logicamente procurar o empate quando o relógio apertasse. E assim foi: num lance de contra-ataque, o mexicano pôs a bola na cabeça de Jonas e esta entrou para o 2-0 que fechou a história do jogo.

Agora, o Benfica, aqui e ali adormecido na Luz, poderá dormitar na liderança e à frente do inimigo. Pelo menos, até segunda-feira, quando o FC Porto encontrar o Belenenses.