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Eu sou mais maior grande do que tu (a crónica do ponto que separa o Sporting do Braga)

O Braga ganhou ao Sporting por 1-0 num jogo adulto, sério e intenso, como se quer num clássico, encerrando uma semana de discussões e trocas de argumentos entre dirigentes dos dois clubes, cuja linguagem infantil inspirou o título deste artigo

Pedro Candeias

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Era impossível começar a crónica deste jogo sem recapitular o diário da guerrinha infantil que opôs António Salvador a Bruno de Carvalho durante a semana que passou. Aparentemente, o problema entre ambos era o dinheiro que o Sporting devia ao Braga por Battaglia, mas rapidamente a coisa deixou de ser estritamente business, transformando-se, como é inevitável neste futebol português, numa patética discussão pessoal com argumentos tão esclarecedores como estes: trafulhice, chico-espertice, má-fé, labrego, trolha e aldrabão. Tudo feito atrás de um teclado e nas redes sociais, talvez com híbridos comandados à distância - não nos devíamos admirar, porque já antes estes dois personagens da bola trocaram ideias nas mesmas plataformas e mais ou menos nos mesmos termos sobre outras temáticas, como contratações, o G-15, e assim. Houve, até, um uso muito particular do Tinder, só porque sim.

A sorte – a nossa sorte – é que os treinadores e os jogadores são um bocadinho mais adultos do que os tipos que os dirigem (vá, Coentrão é um caso à parte, faz parte do folclore), e é por isso que o Braga-Sporting foi um encontro entre homens feitos de um clube que se quer fazer grande e de outro que já o é. Quer isto dizer que houve agressividade controlada, velocidade, intensidade, remates, oportunidades, jogos mentais e táticos, que começaram logo que o árbitro apitou para o início.

Um início em que o Sporting esteve por cima, com uma extraordinária capacidade de recuperação de bola (e de pressão, também) para quem se apresentou com Battaglia mais Bryan, Gelson, Bruno Fernandes, Acuña e Bas Dost. Ou seja, sem William, Jesus pôs Battaglia a ‘6’, Bryan a ‘8’ e Bruno Fernandes a ‘10’, e, ainda assim, os leões empurraram o Braga lá para trás, apertando o meio-campo com a vontade e confundindo as marcações com constantes trocas posicionais sem bola.

E enquanto os talentosos Bruno Fernandes e Gelson conseguiram criar desequilíbrios, o Braga foi incapaz de criar alguma coisa, optando pelo chuto-para-a-frente e na fé em Deus nosso senhor Jesus Cristo.

Foi assim até ao minuto 25.

Depois, Abel corrigiu Ricardo Horta e juntou-o a André Horta e Vukcevic, e os arsenalistas lá levaram a pressão para o lado contrário, equilibrando as estatísticas. Às tantas, depois de algumas correrias dos manos Horta, de Wilson Eduardo e de Esgaio, a bola acabou por entrar na baliza de Rui Patrício, num disparate de Mathieu que apenas não foi total porque o árbitro foi ao VAR e de lá saiu com uma falta sobre Gelson – tudo o que dali para a frente se fez, tornou-se irrelevante. Golo anulado, isqueiros no chão e braços no ar. E intervalo.

Na segunda-parte, o Braga entrou melhor do que o Sporting, sem que isso significasse algo mais do que mero controlo territorial. O jogo andou mais perto de Patrício do que antes, mas poucas vezes a bola foi chutada para a baliza – e, quando foi, ou saiu ao lado do poste, ou frouxa às mãos do guarda-redes. O Sporting, por sua vez, tentava o contra-ataque e responder à pressão efetiva com a pressão possível, porque as pernas não eram as mesmas de antes. Por arrasto, as cabeças também deixaram de o ser.

E quando Piccini foi expulso a dez minutos do fim, o Braga marcou um golo logo a seguir, pelos ares, por Raúl Silva, ficando o Sporting entregue a oito jogadores de campo, mais um que andou por lá mas é como se nunca estivesse lá estado – Rúben Ribeiro entrou ao minuto 62 e acabou substituído ao 90.º, depois dos constantes raspanetes de Jorge Jesus junto à linha. E é nestes momentos que se começa a olhar para o banco do Braga e se descobrem jogadores como Dyego Souza, Danilo e Fábio Martins, e se percebe que a equipa de Abel não está assim tão longe das outras que lhe estão historicamente acima. O Sporting, para já, tem um pontinho apenas a mais.

P.S.: Bruno de Carvalho regressou ao banco de suplentes em Braga. Curiosamente, foi na Pedreira que o presidente do Sporting se ‘estreou’ nesta condição, há cinco anos.

P.S.2: Começa a ser óbvio o desgaste físico nos jogadores de Alvalade, facto que tenderá a piorar nas próximas semanas, com as duas mãos dos quartos-de-final da Liga Europa, diante do Atlético de Madrid.