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Quem tem medo de perder estará sempre mais perto de perder

Ou, como quem diz, o Benfica, que fora melhor e mais perigoso na primeira parte do clássico e resolveu, aos poucos e na segunda parte, quase que aceitar a forma como o FC Porto cresceu e se tornou mais intenso. E parte da culpa tem que estar, e esteve, em Rui Vitória, cujas substituições deram os sinais à equipa de que o empate até seria bom - até um pontapé de Herrera, aos 90', lhe dar o mau de uma derrota. O FC Porto ganhou (1-0) e é o novo líder do campeonato, a quatro jornadas do fim

Diogo Pombo

CARLOS COSTA

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O pequeno argentino que vive à esquerda e de vermelho, sentindo-se mais pequeno ainda com a pressão de um adversário, mal fita os olhos para a área antes de cortar a bola com o pé; o cruzamento é tão a meia altura que provoca a mesma medida em Marcano, autor de um frouxo meio corte que deixa a bola, a pingar, à frente de Pizzi e nas barbas de Casillas. O adulto português remata com o direito e o velho espanhol defende com as mãos e o instinto.

Menos de um minuto passa, é a réplica dessa jogada, a bola é acelerada e passada a poucos toques até Soares, que foge dos centrais para receber um passe e rodar o corpo. Ele espera pelo embalo de Ricardo Pereira, à direita, para o lateral cruzar rasteiro, mira no espaço desocupado pelo avançado brasileiro e preenchido por Marega, o maliano que remata de primeira, rodando o corpo. A bola sai rodopiante e rasteira e rasa o poste direito.

As últimas jogadas da primeira parte de um Benfica-FC Porto são dois contra-ataques a contra-atacarem-se, um par de esticões no jogo. Dá a impressão que a partida está animada, frenética e perigosa para as balizas, sabemos que as últimas impressões são as que ficam. Só que não.

E este não engloba a cara do Professor Neca. Sim, ele, o impávido e triste treinador que antes de o clássico arrancar dá conta, na televisão, da pena que sente por “um jogador com uma cultura de jogo fantástica” e que faz, “com critério e grande inteligência”, o jogo de segurar a bola e abrir espaços para os outros. Uma lesão priva o Benfica de Jonas e o clássico do seu, porventura, melhor jogador a acalmar a bola e mantê-la com vida na relva.

Coisa que nem Brahimi é capaz de fazer, consistentemente, até se entrar nos últimos 15 minutos pré-intervalo.

Antes dessa fronteira, e por muito que se desdiga, as duas equipas que jogam o título na Luz comportam-se como tal. A pressão média-alta que atiram uma à outra é um incentivo para os jogadores despacharem bolas para a frente, preferirem a procura de companheiros ao longe e não arriscarem inventar futebol desde trás, pela relva.

Só aos 16’ se vê dois pares de tabelas no Benfica no seu melhor lado, à esquerda, até Pizzi encarar Felipe; Apenas aos 19’ o FC Porto acerta dois passes verticais até libertar Brahimi, na esquerda, para o argelino tentar encontrar um dos avançados e ganhar um canto. Esperamos até aos 22’ para vermos Cervi ir por dentro de Grimaldo e provocar um defesa a Casillas. É o primeiro remate na baliza sem crises de identidade, verdadeiro ao invés do falso cruzamento com que Rafa já acertara com a bola no poste, dois minutos antes.

O Benfica não encontra Zivkovic ou Pizzi ao centro, nas costas dos médios adversários, mas flanqueia essa impossibilidade com as acelerações de Rafa e Cervi aos espaços entre central e lateral da defesa adversário. O FC Porto não é rápido o suficiente a chegar a Brahimi ou a Otávio, para os deixar receber e orientar para a baliza, mas abusa de Alex Telles e (sobretudo) de Ricardo para dar corda aos sprints de Marega na profundidade.

Esta forma de as equipas coexistirem e de se atacarem acontece um pouco a medo, e aos repelões, até ao quarto de hora e aos tais dois remates que antecedem o intervalo. Pressiona-se, aperta-se e luta-se pelas segundas bolas mais do que se joga.

O que cansa, claro.

Gualter Fatia

Os dragões, cansados de tanto encravarem por terem Sérgio Oliveira e Herrera no colete de forças apertado por Fejsa e os quatro velozes escudeiros que a ele se juntavam sem a bola, puxam Otávio para o centro do campo. A receção que Ricardo orienta para dentro, mal recomeça o jogo, livrando-se de Grimaldo no controlo orientado e avistando logo a diagonal de Marega, parece que faz o resto. Dá um clique.

O maliano descontrola um pouco a bola com a receção e dá tempo a Varela de lhe bloquear o remate, na área, mas é aí que o FC Porto cresce no clássico. Na jogada seguinte, Marega volta a ser achado na profundidade, embora seja tido em fora-de-jogo. E, a pouco e pouco, uns dragões mais intensos empurram para trás uns encarnados fatigados e já não tão reativos na pressão às bolas perdidas.

Os médios do Benfica encostam-se aos defesas, Sérgio Oliveira e Herrera já respiram com bolas que recebem dos centrais. Os encarnados vão-se resumido aos esticões que Rafa, sozinho, inventa nos contra-ataques que o têm como prioridade. O barbudo extremo dá oxigénio à equipa e cartões amarelos aos adversários, que só podem travá-lo em falta. O Benfica só ainda vai encontrando Jiménez, por fim titular num clássico à terceira época e quase sempre engolido por Felipe e Marcano, porque o constante Rafa leva as jogadas até à área.

Mas, contudo, porém e no entanto, Rui Vitória tira-o do jogo.

A substituição acontece aos 66 minutos, pouquíssimo depois de um contra-ataque espaçoso do FC Porto terminar onde sempre quer, nos pés de Brahimi e com o argelino no dueto com um adversário. André Almeida é obrigado a fazer contenção e a dar espaço ao remate em arco que passa muito perto do poste direito da baliza. Estão os dragões a lamentar o desacerto enquanto Rafa sai para Salvio entrar em campo. A ideia seria ter um tipo fresco para dar cobertura do lado onde mora o mais perigoso e criativo dos perigos adversários.

De uma equipa resumida, quando com a bola, à sua capacidade de encontrar um extremo com o primeiro passe e às arrancadas que ele era capaz de fazer, o Benfica passou um conjunto encolhido - e com os jogadores afastados uns dos outros, com os laterais descompensados e os médios a não conseguirem ocupar os espaços à entrada da área.

Pedro Fiuza

Olhando para tanto problema causado pelo sua preferência em querer precaver, em vez de procurar tentar, Rui Vitória olhou para o centro do campo. E juntou Cervi a Rafa no banco. O Benfica, uma equipa cada vez mais encolhida, ficou, de vez, sem homens rápidos para contra-atacarem e a presença de Samaris nunca incomodou, sequer, a posse de bola ditada por Óliver Torres, o espanhol que Sérgio Conceição usou para tirar proveito de tanto espaço para jogar pelo centro do campo.

Os dragões controlavam a posse de bola, dominavam o espaço, cresciam na metade do campo que não lhes pertencia e jogaram os derradeiros 10 minutos em torno da área contrária. O Benfica que fora melhor, mais rematador e agressivo nos ataques à baliza durante a primeira parte, acabava o jogo minguado pelo recuar das suas linhas e pela estratégia que parecia encarar um empate como um mal menor. Ou um bem melhor.

Ou, em bom português, pôs-se a jeito.

Tão sem capacidade de sair com a bola controlada e tão comprimido na própria área estava, que o Benfica deixou de ter jogadores a circundar a área, nos últimos minutos, nas enésima bolas que os dragões fizeram lá chegar. E não os tinha quando um ressalto deixou a bola a saltitar à beira da área para Hector Herrera, com a fúria de quem, a época passada, custou um empate por querer ganhar um canto, disparar uma bomba que valeu uma vitória.

Nesse momento, naquele remate, couberam a euforia do mexicano em tronco nu; a vitória do FC Porto; a consequente nova liderança do campeonato; a incapacidade do Benfica em reagir, nos parcos minutos que restavam; e coube o castigo a uma equipa que assim ficou porque, a certa altura, o seu treinador quis reagir e não agir. Adaptar-se e não provocar mudanças. Tentar anular em vez de ousar afetar o adversário.

O que Benfica e Rui Vitória mais temiam, aconteceu. Perdeu a equipa que mais teve medo de perder e ganhou a que, na segunda parte, mais fez por ganhar para estar como ficou no fim desta clássico: líder do campeonato, com mais dois pontos e com quatro jornadas por jogar.