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Uma mudança de estratégia sem resposta que pode ter custado o penta ao Benfica: aí está a análise tática ao clássico

O analista de futebol Tiago Teixeira dá uma explicação tática para o que se passou no domingo no Estádio da Luz, num clássico em que o Benfica até começou por cima, com mais bola, mas que acabou por sucumbir à mudança de estratégia de Sérgio Conceição, que na 2.ª parte colocou o FC Porto a jogar de forma mais subida e pressionante

Tiago Teixeira, analista de futebol e criador do blogue Domínio Tático

Pedro Fiuza/Getty

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Não se pode dizer que tenha sido uma primeira parte muito bem jogada do ponto de vista ofensivo, embora o Benfica tenha sido a equipa com mais capacidade para chegar à área adversária, em ataque organizado. Essa capacidade em muito se deveu à estratégia inicial de Sérgio Conceição, que optou por não condicionar a 1ª fase de construção do Benfica.

Organizado em 4x4x2 num bloco médio (linha defensiva posicionada a meio do meio campo defensivo e a linha avançada perto da linha do campo), o Porto não foi uma equipa agressiva e pressionante sem bola. A facilidade com que os jogadores do Benfica conseguiram construir desde trás permitiu-lhes ter mais bola que o Porto (ao intervalo a posse de bola era 59% a favor do Benfica) e chegar mais vezes a zonas próximas da área de Casillas (o Benfica nos primeiros 45 minutos chegou à área do Casillas mais do dobro das vezes que o Porto conseguiu chegar à de Varela).

A primeira linha de pressão do Porto composta por Soares e Otávio posicionada perto da linha de meio campo (para manter o bloco compacto) nunca adotou um comportamento agressivo e pressionante perante Jardel, Fejsa e Rúben Dias, dando-lhes todo o tempo e espaço que precisavam para conseguir ligar o processo ofensivo com os jogadores da frente. No lance que serve de exemplo, não sendo pressionado por ninguém, Rúben Dias não teve nenhuma dificuldade em realizar um passe vertical e fazer a bola chegar a Rafa.

O Benfica por sua vez, posicionou-se num bloco mais subido e tentou condicionar a construção do Porto de maneira mais agressiva. Como referido na antevisão, o avançado (Jimenez foi o titular dada a indisponibilidade de Jonas) teve como função cortar a linha de passe entre os centrais Felipe e Marcano. O médio interior do lado da bola (Pizzi na direita e Zivkovic na esquerda) tapava a linha de passe para o apoio frontal (Brahimi no lance que serve de exemplo), enquanto que Fejsa dava cobertura defensiva numa zona mais recuada. A linha defensiva posicionou-se alta (perto da linha de meio campo) de modo a tornar o bloco defensivo compacto (pouco espaço entre-linhas) para que o Porto não conseguisse construir de forma apoiada e tivesse de optar por um futebol mais direto.

Organização defensiva do Benfica

Organização defensiva do Benfica

Focando-me num lance em particular, a melhor oportunidade do Benfica na 1ª parte (remate de Pizzi em posição frontal, já dentro da grande área) nasce numa recuperação de bola ainda no meio campo defensivo do Porto.

Com Jimenez posicionado de modo a cortar a linha de passe entre Felipe e Marcano, com Zivkovic a condicionar a progressão de bola de Felipe, Cervi a tapar a linha de passe para Ricardo, e com Fejsa e Pizzi pressionantes, o Benfica conseguiu rodear o jogador do Porto que recebeu a bola (Brahimi), recupera-lá e dar início à transição ofensiva que terminou com uma grande oportunidade de golo.

Na segunda parte foi um jogo completamente diferente, muito por mérito do Porto. Apesar de ter continuado a ser um futebol pouco esclarecido a nível ofensivo por parte ambas as equipas, a mudança na estratégia de Sérgio Conceição quando o Porto não tinha a bola permitiu-lhes ser mais dominantes do que tinham sido nos primeiros 45 minutos (conseguiram equilibrar a % de posse de bola e entrar na área do Benfica o dobro das vezes que conseguiram na primeira parte).

O Porto começou a ser uma equipa muito mais agressiva e pressionante quando não tinha a posse de bola. Subiu as linhas e começou a pressionar a construção do Benfica mesmo em zonas próximas da área de Varela. Soares e Marega próximos de Jardel e Rúben Dias para que estes não recebessem a bola com espaço, Sérgio Oliveira a pressionar Fejsa pelas costas para que este não recebesse a bola atrás da 1ª linha de pressão do Porto, e Otávio e Brahimi preparados para pressionar os laterais do Benfica (Grimaldo e André Almeida) caso a bola fosse para eles.

Pressão alta do FC Porto

Pressão alta do FC Porto

Mesmo nos lances em que o Benfica, após a recuperação da bola, realizava um passe atrasado para Varela com o objetivo de manter a posse de bola e construir de forma apoiada, o Porto subia as suas linhas e pressionava a todo o campo obrigando o Benfica a jogar longo na frente.

O golo

Como não podia deixar de ser, é em Brahimi que nasce o golo do Porto. Posicionado entre a linha defensiva e a linha média do Benfica, é ele que recebe o passe de Óliver e que depois de enquadrar consegue fazer a bola chegar a Marega. Salvio estava aberto de mais, ou seja, mais preocupado com um passe para Alex Telles do que em oferecer cobertura defensiva a Fejsa, e Samaris pouco basculado para a zona da bola também não ofereceu cobertura defensiva ao sérvio.

O golo de Herrera

O golo de Herrera

Com estes posicionamentos, o Benfica permitiu ao Porto entrar pelo corredor central em vez de os ter obrigado a ir pelo corredor lateral (se Salvio e Samaris estivessem a dar cobertura defensiva a Fejsa como sugerido na imagem, era mais provável que o passe de Óliver fosse para Alex Telles e em vez de ir para Brahimi). Após um ressalto, Herrera resolve o clássico à bomba.

O Benfica foi incapaz (ou não quis) de reagir à mudança estratégica por parte de Sérgio Conceição. Rui Vitória demonstrou durante toda a 2ª parte estar satisfeito com o empate que se verificava e as alterações que fez foram sempre no sentido de não sofrer golos.

Não houve por parte do treinador do Benfica qualquer preocupação com o facto do Benfica estar a revelar uma enorme dificuldade em chegar à área do Porto e isso pode ter custado o penta.