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O Caldas é o vencedor da Taça de Portugal

O Desportivo das Aves irá, pela primeira vez, jogar a final do Jamor, porque venceu (1-2) nas Caldas da Rainha. Mas é a equipa da terceira divisão, com os seus professores, os estudantes e os repositores de armazém que jogam futebol nos tempos livres, que já ganhou antes de todos os outros clubes por ter esticado uma aventura até à sua presença na decisão da Taça de Portugal se resumir a uma questão de golos

Diogo Pombo

MIGUEL A. LOPES

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Este funcionário não é mecânico nas ideias, ou tem a rudeza criativa de um chassis, como as máquinas agrícolas com que trabalha, quando se lembra de devolver um passe, quase à entrada da área, pressionado por um tipo que corre contra ele. Quer lá saber. Liga uma tabela com o repositor de material clínico que tem à direita, por ali há espaço, e dois passes rasteiros mais tarde, a bola é cruzada para a área, onde quase chega à careca cabeça, e coordenadamente mexida, do professor primário, que também dá aulas de Educação Física.

Esse jogador, parco em cabelo e farto em barba, tem 37 anos, é o segundo mais velho em campo, mas não é bem um jogador. Não como o único tipo que lhe ganha na idade e estava mesmo à sua frente, na baliza, os 42 anos do guarda-redes a quem, assim de repente, associados Benfica, seleção, títulos de campeão, carreira na primeira liga e uma vida feita de futebol.

Entre Pedro Emanuel e Quim há um mundo, bem maior do que existe entre o Caldas e o Desportivo das Aves. Tão grande quanto o que há se continuássemos a comparar tipos que acordam, levantam-se da cama, vão trabalhar pelo dinheiro, ou estudar para o terem um dia, antes de arranjarem tempo para jogar à bola, com homens cujo trabalho é o futebol.

Onde quero chegar com isto é que esta segunda mão da meia-final da Taça de Portugal é um choque entre dois mundos opostos, como já fora o primeiro jogo.

Nesse fosso entre amadores e profissionais deveria caber, também, muito mais do que o salto e a cabeçada de Alexandre Guedes, numa bola cruzada com meia hora de jogo, que passa a rasar um dos postes da baliza de Luís Paulo. O tal com salário vindo das maquinarias agrícolas, que saiu do trabalho para vestir umas luvas e arriscar no jogo com os pés. O guarda-redes nos tempos livres que só faz uma parada até ao intervalo e é quando Nildo Petrolina remata num livre do qual se esperava um cruzamento.

Ele está tranquilo porque neste vale de diferença, em que o Caldas perde em tudo o que é dinheiros, números, ou experiências, ganha em coisas que não são palpáveis - na raça, na luta e na garra com que jogadores da terceira divisão atacam bolas e dividem lances com futebolistas profissionais, de primeira liga.

O jogo não é bonito, tão pouco agradável de se ver. Há mais pés e pítons a serem medidos do que jogadas com cinco passes seguidos. Mérito do Caldas, que pressiona e chateia e aperta com o Aves, cujo desmérito é não evitar que o que se veja de futebol seja isto - que não se imponha contra uma equipa que não tinha outra hipótese senão jogar desta forma.

É assim que os jogadores do Caldas disfarçam o talento e o jeito, coisas intangíveis em que mais perdem. Neste futebol não espetacular e sim batalhador, há demasiadas jogadas feias e muitas faltas, circunstâncias onde quem mais luta e faz pela vida costuma estar mais perto de ter sucesso ao que chamamos de sorte e azar. E no livre que Nuno Clemente, a fazer por um dia ser licenciado em Turismo, cruzou para a área, as cabeças de Vítor Gomes e Jorge Filipe uniram-se para marcarem um auto-golo a meias.

Um estádio à pinha berrou. As gentes gritaram em uníssono e já não esporadicamente, como os disparos de palavrões brejeiros de incentivo ou os estridentes sons de cornetas baratas. Coisas que se ouvem pela televisão por virem de um tipo de estádio que associamos à Taça de Portugal e à festa da taça, onde ainda há placas de plástico para o quarto árbitro e árvores a darem sombra a bancadas.

MIGUEL A. LOPES

Tudo ali é rústico, amador e como um veículo que nos leva numa viagem atrás ao tempo em que o futebol era ser do clube da terra. Com a eliminatória empatada, os cansados jogadores do Caldas mantêm a vontade em viver cada bola como a última em que poderão tocar nesta vida, agravando a fadiga, alargando os espaços entre os jogadores, abrindo buracos na pressão que tentam fazer.

Eles afastam-se tanto que seria elogio chamar desorganização à distância entre as linhas e jogadores. Põe-se a jeito de sofrerem sem a bola, mas o Aves sofre com a sua própria desorganização e não cresce, não controla, muito menos domina. As más decisões multiplicam-se e têm a cara na opção de Elhouni em tentar um chapéu a Luís Paulo, quando estava isolado, com uma opção de passe de cada lado e ainda com muitos metros por correr.

O guarda-redes nem se deu ao trabalho de encarar a bola, o contrário do que teve de fazer nos descontos, para agarrar um remate num canto e levar o Caldas ao prolongamento. Mais trinta minutos de um jogo destes iria, sempre, fatigar e agravar mais uma das equipas.

O Caldas, com os minutos, resumiu-se cada vez mais às bolas longas e à reserva de esforço, esporádica, de alguém que tinha em campo. De Pedro Emanuel, o avançado, ou de João Rodrigues, o extremo que é o melhor marcador português (21 golos) das três principais divisões em Portugal. Ficou, de vez, só a lutar.

A luta tornou-se grande demais no canto em que Vítor Gomes sentou o guarda-redes antes de rematar. E ficou hercúlea quando, longe da área, de primeira, sem deixar a bola ir à relva, inventou um golaço, o único momento no meio de 210 minutos em que a diferença entre dois futebóis foi, na prática, o que é em teoria - abismal. Por isso o Caldas tinha muito mais pessoas a torcer por uma graça do que aquelas que no estádio gritavam, pela mesma razão que os gregos tinham Hércules e outros heróis, ou que a Bíblia criou um David contra Golias.

Porque ver humanos a desafiar e a levar a melhor das probabilidades e do contexto adverso, neste caso uma equipa de futebol, é bonito. Encanta ver tipos, para quem o futebol é um passatempo que insistem em levar mais a sério, a resumirem a uma questão de golos a presença na final de uma Taça de Portugal. Tipos que acabam a chorar por saberem que não terão, quase seguramente, outra fábula como esta. Um conto que agora é do Desportivo das Aves, cujo próprio desafio à lógica apenas era ofuscado pelo que se tinha estado a passar nas Caldas da Rainha, até hoje.

O Aves irá pela primeira vez ao Jamor, mas esta Taça é, como já era, do Caldas Sport Clube, a equipa do Campeonato de Portugal que fez todas as eliminatórias da prova e ficou muito perto de jogar o toda a gente quer jogar.