Tribuna Expresso

Perfil

Futebol nacional

Qual o segredo de Conceição? E onde deve estar Bruno durante o jogo? A Psicologia responde

Sporting e FC Porto decidem esta quarta-feira, a partir das 20h30 em Alvalade, um dos lugares na final da Taça de Portugal. Jorge Silvério, especialista em Psicologia do Desporto, explica de onde vem o segredo de Conceição e o lugar que Bruno de Carvalho deve ocupar no dia do jogo

Isabel Paulo

Partilhar

O apuramento para a final da Taça de Portugal é mais importante para o Sporting ou para o FC Porto?
Neste momento, e face ao contexto de conflito vivido em Alvalade, julgo que um desaire será mais dramático para o Sporting. A cinco pontos do FC Porto na Liga, a três do Benfica, não sendo impossível é muito difícil ganhar o título nacional. Analisando a frio, é o único troféu ainda passível de ser conquistado sem depender de terceiros.

O Sporting já ganhou a Taça da Liga esta época e o FC Porto está quase há quatro épocas em jejum absoluto de títulos. A pressão maior está do lado de Jorge Jesus ou de Sérgio Conceição?
Claramente do lado de Jorge Jesus. Apesar de apresentar títulos e troféus no currículo, tem uma carreira longa e mudou de clube com o objetivo de provar que era capaz de ganhar títulos sem ser apenas no Benfica. E uma Taça de Portugal e uma Taça da Liga são pouco para as suas ambições e dos sportinguistas. Sérgio Conceição, não sendo um novato, está em início de carreira, lidera o campeonato e na sua primeira época no FC Porto só depende de si para ser campeão nacional. E tem a dobradinha ao seu alcance, até porque joga com um golo de vantagem da primeira mão.

Como explica que sem reforços, com jogadores enjeitados e emprestados, Sérgio Conceição tenha montado a equipa mais competitiva das últimas quatro épocas?
Provou que é um excelente motivador de grupos e que sabe potenciar ao máximo os recursos que lhe são disponibilizados. Nem todos os treinadores o conseguem, principalmente quando não contam com jogadores por si escolhidos e da sua confiança. Ainda não conquistou nada mas já revelou que sabe pôr um balneário a funcionar. Que mantém a tenacidade que tinha como jogador, fundamental no rendimento desportivo. Um dos principais papéis de um líder é potenciar a tenacidade dos profissionais no treino, nos jogos e na busca de metas. Só uma equipa mentalmente forte seria capaz de chegar à Luz nesta altura da época e recuperar a liderança da Liga após duas derrotas consecutivas.

Foto José Sena Goulão / Lusa

Uma das grandes dúvidas é se Bruno de Carvalho vai para o banco ou se assistirá ao jogo ao lado de Pinto da Costa na tribuna presidencial, depois de ter ficado longe da equipa no encontro com o Belenenses. Perante o clima de guerrilha, ter o foco do conflito no banco é um fator de desestabilização ou pode unir a equipa?
Apesar do cisma instalado entre o presidente e a equipa e boa parte dos sócios e simpatizantes, em teoria Bruno de Carvalho faz bem em ir para junto dos jogadores.

Não pode parecer uma provocação?
Não me parece. Não conheço os problemas por dentro, mas em abstrato faz sentido estar no banco, transmitindo a mensagem que as coisas estão sanadas ou em vias disso. Em termos de estratégia e para se resguardar de ataques, é importante que deixe claro que o clube não é gerido de fora para dentro, até para os adeptos. O responsável máximo de uma organização não pode ser autista, mas também não pode deixar-se comandar de fora, permitindo que o poder caia na rua. E no futebol, em que as opiniões dos sócios são tão voláteis, é imprescindível vincar essa liderança.

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Bruno de Carvalho já cedeu ao recuar nos processos aos jogadores e ao desistir do Facebook. E disse entretanto “ser tão mais fácil não ter nada a dizer aos meninos...”
Por já ter cedido invocando “os superiores interesses do Sporting” é que, em minha opinião, terá de agora mostrar firmeza. Quando há conflitos internos, o melhor é não deixá-los arrastar a médio e longo prazo, sob pena de os problemas serem cada vez maiores.

Que tipo de problemas?
Jogadores que provavelmente vão querer sair no final da época, vaias cada vez maiores por parte dos adeptos.

E Jorge Jesus deixa o clube?
Não faço ideia, mas essa vontade dependerá da forma como o confronto for gerido até ao fim da época.

Após as críticas públicas, Jorge Jesus colocou-se ao lado do plantel, dizendo que só com a polícia é que não jogariam os melhores. Ainda segunda-feira o presidente disse à SportingTV que “não podemos ter paninhos quentes” numa alusão aos apupos dos sócios e à atitude jogadores. Como vão reagir com Bruno de Carvalho no banco?
A equipa já demonstrou que não treme com o presidente em campo ou longe dele. Respondeu com um dos melhores jogos da época com Bruno de Carvalho no banco, contra o Paços de Ferreira, e de igual forma no Restelo, sem a presença no estádio do presidente.

Bruno de Carvalho pode estar em burnout?
Não faz qualquer sentido fazer diagnósticos à distância. Esta época já foram ultrapassados os limites a diversos níveis, sobretudo por parte dos dirigentes dos grandes, que se esquecem que são modelos de comportamento perante os adeptos. A estratégia da permanente provocação é errada, como se viu pelos episódios vividos nos últimas duas semanas em Alvalade.