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Estes são os Maregas do ano (ou o melhor onze do campeonato)

A razão para o artigo que junta o melhor onze esta época, no campeonato, aludir a um prémio com o nome do avançado do FC Porto deve-se ao facto de Moussa Marega ser a presença mais surpreendente, e inesperada, nestas escolhas. Esta é a equipa do ano da Tribuna Expresso e nela cabem cinco dragões, três leões, dois encarnados e um minhoto

Diogo Pombo

HELDER SANTOS

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Iker Casillas

Ser o advogado de defesa de um guarda-redes de quem se ouvem rumores de relaxamento, falta de empenho, ou do vulgar cochilar à sombra de uma bananeira, é tarefa para quase valer uma reprimenda do chefe por mau julgamento (e, também, por no mesmo campeonato existir um tipo chamado Rui Patrício).

Quando o indivíduo de luvas postas é Iker Casillas, mais ainda, já que o espanhol não joga entre a oitava e a vigésima terceira jornadas, precisamente devido à suposta quebra de rendimento nos treinos que Sérgio Conceição catalogou com a velha e útil designação de “opção técnica”.

O espanhol desapareceu e reapareceu com o mesmo repentismo, mas se antes de sumir não brilhou por aí além, depois de ressurgir deu, bastante, nas vistas. Não que o FC Porto, como equipa, o tenha muitas vezes obrigado a saltar, voar, esticar-se e dar uso a braços e pernas contra a bola - foi, sim, porque Casillas, tantos anos volvidos, teve uma época sem aquela espécie de ave que todo o guarda-redes teme, e foi o autor de grandes paradas nos clássicos contra Benfica e Sporting em que participou.

É a primeira de três épocas em que houve um Iker fiável, decisivo e constante, mesmo que a venha a terminar, no máximo, com 20 partidas feitas no campeonato.

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Ricardo Esgaio

Sinceramente, entre todo o vosso otimismo e bem-dizer, quem de vós esperava que este tímido português lograsse engatilhar a forma que manteve durante quase toda a época? Talvez Abel fosse mesmo o único a ter tamanha fé e por isso lhe deu o que todo o futebolista precisa para poder, ao menos, tentar mostrar o melhor de si - confiança e minutos.

Esgaio foi a aposta para o lado direito do Braga, partido de trás com uma velocidade de ponta indomável e uma certeza nos cruzamentos que nunca se lhe tinha visto. É o lateral com mais golos feitos (quatro) no campeonato e o segundo com mais passes (10) para outros marcarem, perdendo apenas para um defesa que bate tudo o que é bolas paradas na sua equipa.

Mais do que o lateral direito mais decisivo, consistente e desequilibrador para o adversário sem afetar o equilíbrio da própria equipa, Ricardo Esgaio era, provavelmente, o lateral de uma equipa média/grande sobre quem menos se esperava ler uma descrição deste tipo. O tipo que antes andava pelo Sporting a dar auxílio, a emergência de recurso que ia aparecendo quando alguém não estava, é agora um dos mais influentes cruzadores de bola da liga.

Carlos Rodrigues

Felipe

Nem vou perguntar, porque o senso comum e as modas são coisas que prevalecem no tempo. Mas, quando um defesa central ganha fama de duro, agressivo, impetuoso e outros adjetivos que servem para suavizar quem, no fundo, é tido como um jogador que dá muita pancada, presume-se que os cartões que os árbitros lhe vão mostrando sejam fiéis a esta noção geral.

Ora, no caso de Felipe, foi preciso clicar no botão para a página seguinte da lista dos defesas com mais cartões vistos no campeonato. Até à penúltima jornada, o brasileiro era o 22º indivíduo nessa classificação, com sete amarelos (dois no mesmo jogo) e nenhum vermelho. Tal suposto desfasamento com a ideia que se tem de Felipe não invalida que ele, de facto, seja um central duro, agressivo, intenso e muitas vezes precipitado na força com que aborda jogadas, quer seja um corpo humano ou uma bola a primeira coisa no seu caminho.

Também não invalida que o brasileiro seja, talvez, o central que mais dominador da liga, que fisicamente mais se superioriza a qualquer adversário e que, pelo ar, é muito pouco falível pela impulsão e posicionamento que tem. É de esperar que Felipe continue a ser Felipe, aqui e ali com a pressa desmedida de querer ganhar todos os lances, o mais rápido possível, pelo uso da força, uma forma de existir que ele, ao menos, já vai conseguindo domar.

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Jérémy Mathieu

Vinha de três épocas no Barcelona, habituado conviver com Messi, Iniesta, Suárez ou Neymar e a ganhar Ligas dos Campeões ou lá perto, é um facto. Mas o francês chegou com 33 anos, entretanto já 34, outro facto que fazia pensar se este não seria mais outro pôr-do-sol de carreira a ganhar muito dinheiro e a relaxar na garantir de ter qualidade de sobra para ser titular, sem grandes trabalhos, numa equipa de outro nível.

Foram mais as vezes, contudo, em que Mathieu jogou para subir o nível do Sporting e dos que o rodearam, do que o contrário. Mesmo que a consistência não tenha sido o forte do francês, ele foi o género de central não ultrapassável - fosse pela velocidade, o engenho de fintas ou o contorno de bolas nas costas - na maioria das partidas em que jogou, a par de ter os pés que mais qualidade dão à saída de bola na sua posição.

À sua consistência, ou à de qualquer outro central, nem sempre ajuda a tantas vezes demasiada confiança que Coates, o central que mais vezes teve ao lado, deposita na (boa) técnica que tem nos pés e que o condena a errar, muitas vezes. Ou, como quem diz, a inventar, deixando quem o rodeia a ter de se preocupar em compensar esses erros.

Carlos Rodrigues

Alex Telles

A época passada, o brasileiro era o lateral que atacava bem, cruzada muito bem e batia tudo quanto era bola para a área ainda melhor. Só que, sem a bola nele, ou na equipa, Alex Telles também era o canhoto intempestivo, imprudente e sem olho para optar pela contenção em vez de pressionar a todos os momentos em que alguém o atacava. Era mais um lateral que nos levava a pensar nos “ses” no que poderia ser se lidasse com as coisas menos boas.

Esta época, esse lateral apareceu, muito fruto da forma como o FC Porto se comportou, a defender, apertando quase sempre a saída de bola contrária e reagindo, com tudo, quando era altura de contra-pressionar. O estilo prosperou e com ele Alex Telles, pois as posses de bola adversárias andaram mais longe dele e o fomento do jogo interior de Brahimi foi abrindo autoestradas no seu lado do relvado.

Alex Telles terminará o campeonato como o jogador que mais golos deu a marcar (12, pelo menos) e o lateral mais viável. Até poderíamos estar a aqui a divagar sobre a sua ida ao Mundial com o Brasil, não fossem inúteis quaisquer argumentos a seu favor: porque, na mesma posição, há um dos tipos com mais técnica do planeta (Marcelo), outro dos que mais pulmão (Alex Sandro) tem e ainda outro, que se lesionou entretanto, que era dos mais imbatíveis no um-para-um (Felipe Luís).

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Fejsa

Não sei bem qual será a tradição perfeita para “tackle”, uma palavra tão inglesa e específica, mas, aplicada ao futebol, penso que será uma mutação entre “entrada à bola” e “desarme”. Seja lá o que isso for, Fejsa fá-lo, em média, 3.7 vezes por jogo e ninguém que tenha pelo menos uns 15 jogos no campeonato faz melhor. Como qualquer estatística, esta precisa de um contexto.

Acontece que o médio sérvio, cada vez mais um trinco, jogou na versão mais instável do Benfica dos últimos três anos, por tudo - a mísera campanha na Liga dos Campeões, o dependência acrescida e excessiva em Jonas, os tipos que teve ao lado, no meio campo, sempre a trocarem.

Fejsa foi o único a manter a qualidade e a constância da época anterior, logrando a imunidade a lesões ou a oscilações de forma e desempenho consoante o clima que afetaram Danilo e William Carvalho, em respetivo, os outros principais modelos de bem-fazer na sua posição. O internacional sérvio pode ser discreto na escolta que dá à feitura das coisas simples e não marcar golos, mas, depois do tipo que muito os marca no Benfica, é - e continuou a ser - o jogador mais importante dos encarnados.

Gualter Fatia

Bruno Fernandes

Durante uma época, e, desconfio, um ano civil, ele foi e será o mais aproximado de craque português que temos a jogar em Portugal. Uma raridade cada vez mais inóspita nestes tempos de milionárias compras e clubes demasiado endinheirados, em que não deverá faltar assim tanto tempo para que um deles cometa uma pequena extravagância para levar do Sporting o melhor médio do campeonato.

Porque, com ele, levará uma cabeça que pensa em remates de qualquer sítio do campo e uns pés que os executam com pancadas secas, fortes e espetaculares; a versão modernas de um médio, capaz de conduzir a bola, fintar em drible ou simulação, pausar o ritmo de jogo quando em altura de respirar ou acelerar em momentos de desequilíbrio contrário; e alguém que está sempre a tentar servir e assistir e ligar-se a atacantes que estão mais próximos da baliza.

É o tipo de craque em quem depende a produção criativa por metro quadrado de uma equipa, pois Bruno Fernandes arrisca a fixar adversários, a atacar o espaço e a quase dirigir desmarcações dos companheiros com os passes. É por isso que falha tantos (nove, em média) por jogo, mas também a tal se devem os 11 golos marcados e as oito assistências. E o muito, mas muito, futebol jogado e fabricado.

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Marega

Sem desprimor, ninguém levará a mal que num onze até com Ricardo Esgaio, seja este corpulento e musculado e corredor maliano a presença mais inesperada. No verão passado, se alguém achou que Marega se estava a preparar para crescer como o jogador mais decisivo e fulcral para a forma como o FC Porto ataca a baliza, então esse alguém poderá começar a tentar a sorte no Euromilhões.

Ele é avançado, também jogou como extremo à direita, e no fundo pode partir de onde for preciso, porque a questão em Marega é ser envolvido por um estilo de jogo que lhe dê metros de espaço pela frente. Sérgio Conceição montou uma equipa para se focar na profundidade adversária e ser ladra de bolas perto da área dos outros, onde, das duas uma: o maliano teria muito espaço para correr atrás da bola ou pouco tempo para pensar em dar mais do que dois toques.

A sua força da natureza imperou nestas condições. Marega está no topo dos marcadores e no cume da forma como surpreendeu toda a gente. É o jogador mais fisicamente dominante do campeonato e quem mais depende (e sucesso tem) das qualidades que retira do seu físico. O que é hoje uma espécie de exceção numa altura em que parece estar a ficar moda valorizar, apenas, o toque de bola.

Carlos Rodrigues

Brahimi

Se a fotografia em baixo tem um Brahimi que vos possa parecer demasiado contorcido, numa posição morfologicamente estranha, porque não é suposto um corpo humano estar virada para tantas direções num só gesto, foi propositado.

Não é de agora, nem desta época. Desde que pôs os pés em Portugal, o argelino sempre foi o extremo que mais desafios coloca às leis do contorcionismo e evasão, pela forma como rodopia com a bola e explodir para uma direção oposto para a qual estava aponta um segundo antes. Brahimi é driblador, abusa das corridas com a bola, tenta a terceira e a quarta finta se a primeira e a segunda não resultarem. E isso faz a diferença.

Esta foi a época e o campeonato em que tal mais aconteceu, da mesma forma que vimos a versão mais consistente e altruísta de Brahimi. Ele continuou a fintar quando já chegava e a não dar um passo ao toque certo na bola, claro, senão deixaria de ser Brahimi, mas reduziu, muito, essa quantidade de más decisões. O simples facto de pensar mais um pouco na forma como as suas ações dariam proveito a quem joga na mesma equipa fizeram dele, ainda mais, o extremo mais imprevisível do campeonato. Continua a faltar-lhe mais golo, capacidade de cruzar a bola sem ter que entrar na área com ela e aparecer em jogos grandes.

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Jonas

Também há uma razão para este peculiar avançado brasileiro ser o único a ter direito a uma fotografia em que surge, no mesmo plano, com quase todos os outros jogadores da equipa que representa. Não é apenas pelos mais de 30 golos que fez nesta liga, aliás, esta época, isso até quase que é o menos - é pela desmesurada importância que Jonas adquiriu no Benfica e num desporto em que das coisas mais arriscadas que há é ter uma dependência tão aditiva em alguém.

Porque, sempre que o Benfica tem a bola, Jonas é-lhe quase tudo: é quem decide por onde se joga e a que ritmo, é quem descobre espaços mesmo que não toque no que todos querem tocar, é o avançado fabricador de jogo. E é, apesar dos 33 anos, cada vez mais, quem mais tino e pensamento dá ao futebol do Benfica. É a presença que, só por estar lá, faz os outros jogarem melhor.

Jonas pode ter acabado a temporada sem títulos, mas continua a ser o melhor indivíduo a jogar futebol em Portugal. Uma das razões que faz o Benfica ser a equipa mais dependente num jogador e, por arrasto, a que mais sofre quando ele não está.

Pedro Fiuza

Bas Dost

Como o brasileiro do Benfica, este holandês do Sporting encanta por razões várias que não se prendem apenas com os golos que marca. Bas Dost, ao todo, tinha 69 golos marcados em Portugal no momento em que este texto foi escrito, quase setenta momentos em que aponta para alguém da sua equipa, sorriu como uma criança, barafustou coisas sabe-se lá em que idioma e correu para o abraçar. Só um tipo humilde, simpático e com bom fundo dá tanta atenção a quem o assiste para cada golo que marca.

O que revela a simplicidade de pessoa que é Bas Dost, o rasgo da sua personalidade que mais transparece na forma como joga, como nos lembrou a curiosa estatística que apareceu, a meio de abril, algures pela internet: descontando os (12) penáltis, o holandês apenas marcara quatro golos no Sporting sem rematar a bola ao primeiro toque. O que torna seguro deduzir que, além de simples, é o avançado mais eficaz do campeonato.

O holandês nunca resolverá um jogo sozinho a sobrepôr-se a adversários com dribles fantásticos, remates potentes à distância, raides de inspiração épica. Ele é dependente, precisa que uma equipa jogue em função dele, mas é quem mais retribuiu se isso for feito consoante as suas necessidades - passes que não o obriguem a muitos toques, jogadores a aparecerem de frente para tabelas, bolas perto da baliza que lhe peçam só um remate. Enquanto a equipa do Sporting pensar em Bas Dost, o holandês deverá continuar a ser assim.

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