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Precisamos de continuar a falar sobre este FC Porto

Já era campeão nacional, mas ainda não tinha todos os 27 jogadores do plantel a merecer o título, nem igualara o recorde de 88 pontos. Ganhando (1-0) em Guimarães e fazendo jogar Vaná e Fabiano, a equipa de Sérgio Conceição fê-lo e mostrou muitas coisas que nos obrigam a falar muito dele, e do FC Porto

Diogo Pombo

MIGUEL RIOPA

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Precisamos, primeiro, de falar sobre Óliver.

Por convenção, temo-lo como o tipo mais capaz que o FC Porto tem a passar uma bola de futebol, seja a curta, longa ou média distância, cortando-a com o peito do pé ou ajeitando-a em pancada seca, com a parte interior. Segundo essa convenção, seria natural que o espanhol, no seu jeito de rodar com a bola e olhar para o próprio corpo como um obstáculo a ter entre ela e qualquer adversário, jogasse quase sempre ou muitas vezes. E não de vez em quando e apenas 14 vezes desde início.

A última é neste sábado soalheiro em Guimarães, onde as convencionais qualidades de Óliver o têm como o jogador que mais passa e mexe com a bola. Requere menos toques por segundo e a quem mais natural sai a tarefa de buscar o espaço, pedir a bola, rodar com ela e remetê-la para outro sítio.

É do espanhol, à entrada da área, o mais ameaçador dos três remates que a equipa acerta na baliza entre os dez que tenta em meio jogo. É dele grande parte da culpa de o FC Porto ter muito mais bola e passes feitos do que o costume.

Mas também é de Óliver o mau passe picado, à entrada do seu meio campo, que é intercetado a custo, e a forma mansa e passiva com que ataca a bola em terra de ninguém que podia tornar a ser dele. Heldon vestiu-lhe uma cueca pela falta de agressividade e prosseguiu até deixar Wakaso sozinho, na área, a rematar o que mais pareceu um passe rasteiro às mãos do guarda-redes, que era Vaná.

MIGUEL RIOPA

E, a partir de aqui, precisamos de falar sobre Sérgio Conceição.

Neste último jogo da época em que ele era, possivelmente, o treinador que menos recursos alguma vez teve ser campeão nacional com o FC Porto, pôs na baliza a única compra que o deixaram fazer, desde o verão, para o título também ser de Vaná. Olhou para esses recursos e percebeu como o melhor para o estilo agressivo, vertiginoso e direto com que pretendia para chegar à baliza dos outros era não ter quem, na bruta teoria, era um dos melhores recursos do plantel.

Porque a outra face do muito bom passador de bola, filtrador de jogo e domador de jogadas, que Óliver é, esteve naquele momento, em Guimarães. E em todo um encontro em que um esperto Vitória manteve a linha defensiva perto da área, não se colocando a jeito de dar ao FC Porto o espaço na profundidade que mais jeito lhe dá. Quando assim o é, uma das formas de dar a volta ao imbróglio está na agressividade com que se invade as alturas em que o adversário tem a bola ou a acabou de roubar, para se roubar de novo e aproveitar um contrapé.

O que Óliver tem de bom e que o faz um bom jogador é, muitas vezes, mau para o que Sérgio Conceição quer para o FC Porto. E neste choque de estilos entre que nunca piora o futebolista, mas sim a equipa, que está habituada a outra rapidez, menos passinhos e passes por cada 10 metros de avanço no campo.

Nestes últimos 90 minutos da temporada que contam com o espanhol, tal e qual a primeira hora e meia que se jogou em agosto, ouvimos o treinador, duas ou três vezes, a berrar com o jogador para ele dar menos toques na bola ou levantá-la para a área em vez de lá a fazer chegar pela relva.

MIGUEL RIOPA

Agora, precisamos de falar sobre como o FC Porto ganha este jogo e o que isso significa.

Com um livre onde Alex Telles, quem mais assiste no campeonato, cruza para da cabeça de Marcano sair o 1-0. Os dragões marcaram quando a bola parou e fora um remate de Maxi às mãos de quem tinha luvas e um, ou outro, contra-ataque do Vitória a fechar em cruzamentos incertos, o jogo continuou pausado, letárgico em emoção, órfão das jogadas com que o FC Porto mais costumou fazer mossa nos adversários.

A culpa não foi, nem podia ser, de Óliver, um dos melhores em campo que não faz dele um paradoxo, mas a personificação de um desencontro de estilos que o tempo, treino e aprendizagem poderão aproximar. A culpa desta 28ª vitória que fez 88 pontos no campeonato é, sim, dele e de todos os 27 jogadores que Sérgio Conceição tornou campeões nacionais.

Um treinador que tem toda a culpa pela tanta coisa boa e estável que juntou, quando lhe auguravam possíveis chatices pelo seu feitio, previam conflitos em momentos de derrota e antecipavam picardias no balneário.

Sérgio Conceição foi um prático, inteligente, esperto e bom treinador, sendo antes de tudo isso um homem bom, por tudo o que se pode ler nesta reportagem do "MaisFutebol" e por gestos como o de fazer questão de dar minutos aos quatro guarda-redes do plantel, acabando com um deles, Fabiano - único que já fora campeão nacional pelo FC Porto - a chorar, no relvado, pelos primeiros 15 minutos que lhe deu esta temporada.

Este FC Porto, feito por este treinador e com estes jogadores, com Marega como o improvável mais decisivo e mesmo com Óliver ainda a estranhar, como uma criança estranha uma mudança de casa, é campeão nacional com recorde de pontos. E tanta coisa parece ficar por dizer por eles.