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A crónica de como a melhor notícia do dia do Sporting foi uma vitória do Rio Ave

Lento, previsível, só a fazer cruzamentos para a área e sem soluções. Antes e depois do frango de Rui Patrício e de saber que tinha mesmo de marcar golos para não ficar sem a Liga dos Campeões, o Sporting foi como já tinha sido em muitos jogos. Perdeu (2-1) com o Marítimo e agora precisa, mesmo, da Taça de Portugal para salvar a época

Diogo Pombo

GREGORIO CUNHA/LUSA

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Jogar com um olho no burro e o outro no cigano não é bom. Pior, é mau, ou aliás, é péssimo, quando uma equipa de futebol nos dá a impressão de estar a personificar esta espécie de ditado. Por norma, isso é sinal de quem nela joga, ou quem a treina, está mais preocupado no que outrem faz, antes de se ocupar com o que tem de fazer, e quando se torna urgente que o faça, o comboio que só passa uma vez já partiu da estação.

Junto dois lugares comuns proverbiais no mesmo parágrafo, e logo o primeiro, porque findos dez minutos o Sporting auto-impõe um marasmo no jogo que joga na Madeira. Onde é suposto jogar de forma atacante, decidida, sem espinhas e cercando a baliza contrária para aproveitar o facto de apenas depender si, a equipa antes age lentamente. Com dose quase nula de risco, como que a poupar energia caso do banco saísse o sinal de que, na Luz, o resultado já não era o mesmo do que eles tinham ali.

Os leões, melhor escrevendo, deixaram de agir passado uma dezena de minutos. Preferiram ir reagindo ao que o Marítimo comedido, mas sabiamente montado na estratégia, lhes fosse causando. Aos poucos, o jogo de bolas diretas entre os laterais Bebeto e Rúben Ferreira e um dos atacantes, Edgar Costa, Joel ou Ghazaryan. Não se tratava de pontapé para a frente, mas de saltar os constrangimentos a meio campo, onde os madeirenses pareciam não querer arriscar qualquer bola perdida.

Feita essa ligação, os médios do Marítimo chegavam de frente à jogada ou eventual segunda bola, enquanto os do Sporting tinham que rodar, arrancar, acelerar e reagir. William fazia-o à velocidade de William e Battaglia acorria a demasiados problemas sozinho, deixando os laterais igualmente solitários a lidar com os seus problemas.

Fábio Coentrão lidou com uma bola que se encaminhava para a linha de fundo, a pedir proteção, empurrando um adversário e dando o livre que foi cruzado à cabeça agressiva de Joel. O Sporting não agira, porém, reagiu logo, marcando no minuto seguinte na bola que conectou Bruno Fernandes e Gelson e acabou rematada na área à maneira de Bas Dost, com um toque.

Reposto o empate e empatadas que estavam as coisas na Luz, a cautela no Sporting prosseguiu, mesmo que Acuña destoasse com um remate de pé direito, à entrada da área, e sobretudo Bruno Fernandes.

Magro no corpo e obeso em talento, o médio ia-se desgastando em diagonais sprintadas para a área, em remates secos disparados fora da área e em conduções de bola para atrair adversários antes de tentar lançar Gelson no espaço. Um dos problemas é que o português não é mais do que um peso-médio em energia e, portanto, falível. Um dos outros, por exemplo, é a quase inexistência de tabelas, gente a pedir a bola entrelinhas ou apoios no centro do campo, o tal jogo interior.

Costuma ser redutor uma partida ser resumida numa frase, ou duas, mas não esta. A equipa de Jorge Jesus é uma acumulação de cruzamentos para a área, apontar uma bola atrás da outra para Bas Dost, estejam ele e a bola onde estiverem, na esperança que o primeiro toque do holandês remate (como bem o fez, aos 52’) ou deixe alguém em condições de rematar.

GREGORIO CUNHA/LUSA

Só que isso, além de muito pouco, é previsível, exigindo apenas concentração a uma linha defensiva que se mantenha bem posicionada. Mas foi essa a forma preferencial de o Sporting atacar a baliza, antes e depois de saber que o Benfica marcara um golo ao Moreirense, e que o Marítimo foi contrariando, digamos, facilmente.

Jorge Jesus fez a equipa acabar com Dost, Montero e Doumbia na área, três avançados à espera dos despejos de Acuña, por essa altura já lateral esquerdo, com Piccini a mancar do outro lado, desde o intervalo. Tudo a acontecer à lei do previsível ou da improvisação ocasional de Bruno Fernandes. Não se viram jogadores nas alas a dar largura e puxar adversários, para abrir espaços; não se viu gente a aparecer entre linhas, nesses buracos que fossem criados; não houve alternativas planeadas em ataque posicional e outras formas de jogar com o espaço - e não com o cruzamento.

Quando Rui Patrício não agarrou a dócil e gentil bola rasteira quase que passada por Ghazaryan, portanto, a equipa de Jorge Jesus desesperou-se na mesma medida em que, até então, apenas existiu. O frango do guarda-redes pode ter feito a equipa perder, mas será sempre o treinador a fazer com que o Sporting jogasse, neste e em muitos jogos, tão pouco, tão aos solavancos, tão lenta e previsivelmente.

A temporada não se resume neste jogo, mas para acabarmos como começámos, se há lugar-comum no futebol que é relevante, é o que diz que o que interessa é como acaba. E o Sporting termina no terceiro lugar do campeonato e sem a Liga dos Campeões e o que seriam uns respetivos 25 milhões de euros - e com a melhor notícia do dia a ser a vitória do Rio Ave contra o Braga, a evitar que uma coisa má, pior ficasse no quarto lugar.

E acabo com Jorge Jesus, porque o oiço, pela segunda vez, a queixar-se de paragens, de jogadores do Marítimo no relvado, de anti-jogo e dos 59 encontros que o Sporting tem nas pernas, como se a equipa não tivesse sido tão pobre quanto o foi quando ainda só tinha 20, 30 ou 40 feitos.

Para o bem do treinador e do clube, quererão treinar e jogar mais para o 60º encontro da época, no Jamor, não ser como este.