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A semana horrível do Sporting ficou ainda mais horrível

Uma vitória na Taça de Portugal na final frente ao Desportivo das Aves seria uma panaceia necessária para o Sporting se levantar após uma semana terrível. Mas o Sporting não se levantou: a derrota por 2-1 deixou adeptos e jogadores em lágrimas, perante um pesadelo demasiado real. Para a equipa da Vila das Aves (e para José Mota) é o primeiro troféu na prova. Há um par de semanas o Aves andava a tentar manter-se à tona da água, agora está qualificado para a Liga Europa

Lídia Paralta Gomes

MIGUEL A. LOPES/LUSA

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Derrota na Madeira, o bate-boca entre jogadores e adeptos no aeroporto do Funchal, depois em Lisboa, a suposta suspensão de Jorge Jesus, as agressões na Academia de Alcochete, as declarações de Bruno de Carvalho, adeptos no tribunal, uma equipa que não treina.

É este o filme horrível da semana mais horrível do Sporting. Uma semana que podia ter acabado um bocadinho menos horrível, mas não, ficou ainda mais horrível depois dos leões perderem a final da Taça de Portugal, dando ao Desportivo das Aves o seu primeiro troféu na prova rainha. E aos adeptos dos leões um enorme amargo de boca, eles que procuravam numa vitória na Taça uma qualquer panaceia, um penso rápido numa ferida aberta que agora vai demorar ainda mais a passar.

E mais horrível foi porque depois de se verem a perder por 2-0, os jogadores do Sporting olharam para o lado e perceberam a debandada dos adeptos leoninos, destroçados com o resultado, talvez com receio do que viria por aí. E mesmo assim conseguiram reduzir, mesmo assim ainda sonharam, mas já não deu. Talvez ainda se sofra mais assim, quando a esperança é defraudada. As lágrimas nas bancadas, as lágrimas dos jogadores, as de Rui Patrício principalmente, primeiro no relvado, depois agarrado a Marcelo Rebelo de Sousa, as lágrimas de Jesus, dizem isso mesmo.

O que em nada desvaloriza a vitória do Desportivo das Aves, que não tem culpa do tumulto constante que se tornou o Sporting nas últimas semanas e encarou o jogo com a máxima seriedade, conseguido suster o Sporting que, ainda antes do primeiro golo do jogo, viu Gelson Martins falhar duas oportunidades em frente a Quim, titular numa final da Taça aos 42 anos.

Não marcou Gelson, marcou Alexandre Guedes, formado pelo Sporting, aos 16 minutos, após um contra-ataque que começou em Amilton, passou por Nildo e depois por Braga que cruzou para o avançado voar e cabecear quase sem ângulo. Guedes que esteve sozinho durante todo o contra-ataque - a apatia do Sporting começava ali. Porque depois do golo os leões desapareceram, como se o peso de se verem a perder fosse demasiado para aguentar depois de uma semana em que, seguramente, foram obrigados a aguentar coisas piores. Mas ninguém é de ferro.

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Era o jogo 60 do Sporting 2017/18, um Sporting cansado, pouco reativo. E as mudanças de Jorge Jesus ao intervalo tiveram efeito fugaz. Os leões entraram bem na 2.ª parte, com Montero na frente e Bruno Fernandes um pouco mais recuado, à procura de construir lá mais atrás. Mas rapidamente a equipa da Vila das Aves adaptou-se às alterações e nunca deixou o Sporting criar grande perigo.

E no desespero, o Sporting abriu espaços. Tantos espaços que aos 72 minutos Alexandre Guedes pegou numa bola aparentemente inofensiva e sozinho fez tudo: correu para o contra-ataque, deitou Coates no chão e bateu Rui Patrício, que podia ter feito mais para suster o remate do avançado português.

O que se seguiu foram imagens de uma equipa despedaçada, com jogadores com as mãos na cara, a olhar para baixo, abatidos por esta semana horrível, a fazerem, eles próprios, um jogo pouco menos que horrível. Bas Dost falhou um golo de baliza aberta uns minutos depois, coisa que só pareceu estranha a quem não soube o que se passou durante toda a semana. E quando Fredy Montero marcou, num remate acrobático aos 85 minutos, a equipa acordou, percebeu que ainda era possível um final um pouco mais feliz - isto se era possível termos um final feliz nesta semana.

A reação foi tardia, demasiado tardia. O Sporting perdeu, o Aves teve mérito e no próximo ano vai estar na Liga Europa, algo impensável para quem ainda há dias estava a lutar para não descer de divisão. E José Mota, um dos históricos treinadores portugueses, um journeyman à antiga, já tem a sua Taça - e bem sabemos o que é que isso significa para um treinador que fez a sua carreira em clubes mais modestos.

Quanto ao Sporting, o drama não acaba aqui. Aliás, se calhar só começou. O que se passará a partir de segunda-feira é um mistério.

Mas nada será como dantes.