Hoje é um bom dia para sofrer

Reportagem deLídia Paralta Gomes
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Hoje é um bom dia para sofrer

Reportagem deLídia Paralta Gomes

Esta é uma viagem a uma realidade paralela à das corridas que nos habituámos a ver nas televisões. É cru e primitivo, como se tudo tivesse começado aqui, num lugar sagrado. 

Daley Mathison carrega a filha num braço e a outra mão está agarrada à da mulher. Caminham em frente. Quando chega à zona das boxes dá um beijo à pequena, despede-se da companheira, com um ar entre o determinado e o temeroso. O momento é solene e o piloto engole o medo antes de acenar, dizer adeus e montar a sua moto. Daley não caminha para o cadafalso, mas parece: sabe que pode muito bem ser a última vez que beija a mulher e a filha.

Daley voltou são e salvo. São e salvo para os braços da família. O mesmo não se pode dizer de Jochem van den Hoek, holandês de 28 anos, que ficou mesmo ali, na 11th Milestone. Ou do irlandês Alan Bonner, umas horas depois. Eles foram as vítimas mortais número 147 e 148 do Isle of Man TT, a mais antiga e mais perigosa corrida de motos do Mundo.

1907

é o ano em que se disputou pela primeira vez o Isle os Man TT. É considerada a corrida mais antiga do mundo

40

mil aficionados das motos viajam todos os anos para a Ilha de Man para assistir ao Isle of Man TT. A capital da ilha, Douglas, tem uma população de 25 mil pessoas

60,72

km é a extensão do Sneafell Mountain Course, o circuito que todos os anos é percorrido pelos pilotos participantes do Isle of Man TT

148

é o número de pilotos que já perderam a vida nos 110 anos de história do Isle of Man TT, três deles na edição de 2017

Pode parecer insensível falar em números. Mas 110 anos após a primeira edição, a lista de fatalidades é tão longa que cada vítima parece um caso de ossos do ofício. Porque aqui todos os pilotos sabem ao que vão. Porque aqui não se corre num circuito com escapatórias, gravilha ou paredes de pneus que separam o corpo do betão.

Na Ilha de Man corre-se em ruas e corre-se em estradas.

E morre-se.

A Meca

São 60,72 quilómetros com início e fim em Douglas, a capital e maior cidade da ilha plantada a meio do Mar da Irlanda. Os pilotos rasgam-na a meio a velocidades que podem chegar aos 300 quilómetros por hora entre pequenas aldeias, vilas, montanhas. E nessas aldeias, vilas e montanhas há muros, postes, casas. Há ravinas, árvores, há piso desnivelado. Mais do que pilotos, os homens que se arriscam pelas ruas da Ilha de Man são gladiadores, heróis da classe trabalhadora, a mesma que todos os anos pega nas suas motos, de todos os pontos da Europa, e nas primeiras semanas de junho viaja para a pequena ilha, mãe de todas as corridas. 

Man é Meca para eles.

Os mais de 60 quilómetros do Snaefell Mountain Course, que percorre boa parte da Ilha de Man, estão cheios de locais emblemáticos para a corrida mais antiga - e perigosa - do Mundo

Clique no icon que se encontra antes do título do mapa para encontrar a lista dos locais assinalados ou clique directamente nas localizações

Mas Douglas é uma pequena cidade de 25 mil habitantes que vive 50 semanas à espera dos 15 dias que dura o Isle of Man TT. Os restaurantes e os pubs enchem, os poucos hotéis também. O relvado do clube de râguebi local transforma-se num improvisado parque de campismo: não há lugar para as mais de 40 mil pessoas que chegam de propósito para as corridas, a maior parte em ferries esgotados há um ano. A promenade de Douglas, cidade cinzenta, a condizer com o céu, que mesmo no verão parece viver num eterno inverno, torna-se um multitudinário estacionamento. Ali, viradas para o mar, estão motos de todas as nacionalidades. Há motos britânicas, claro, mas também centenas vindas de França, Alemanha, Itália, República Checa, Suécia. A União Europeia sobre duas rodas.

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Milhares de motos vindas de toda a Europa invadem todos os anos as estradas da Ilha de Man. Há os que vêm pela primeira vez, mas para boa parte é já um ritual anual

Localização (ver no mapa): Nobles Park

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Milhares de motos vindas de toda a Europa invadem todos os anos as estradas da Ilha de Man. Há os que vêm pela primeira vez, mas para boa parte é já um ritual anual

Localização (ver no mapa): Nobles Park

Estas pessoas não estão cá para ver Valentino Rossi ou Marc Márquez, os grandes campeões do glamoroso mundial de velocidade. Os heróis desta gente, que poupa um ano inteiro para estar cá, são gente como eles, gente comum que se arrisca em cima da improbabilidade que é pilotar em cima de duas rodas por lugares sinuosos - e sair vivo.

O cemitério ali ao lado

O paddock do Isle of Man TT fica em pleno Nobles Park e não podia ser mais distinto de um paddock de uma prova de circuito. Aqui não há enfeites, luzes, câmaras, pozinhos de perlimpimpim. Não há famosos ou modelos com uma sombrinha para afastar o sol. Aqui há frio e chuva, e estamos em junho. Cheira a fish and chips e outros fritos. Cheira a lama, a fuligem e a coragem, coragem com gravilha, aquilo que os anglo-saxónicos chamam de grit.

É na zona do Grandstand, onde começam e acabam as corridas, que bate o coração do Isle of Man TT. As pessoas passam por lá, depois espalham-se pela ilha. Os que ficam por Douglas encavalitam-se em gradeamentos de igrejas e escolas. Ou do cemitério, que está mesmo ao lado da reta da meta. Uma curiosidade mórbida, numa corrida em que a linha que separa a glória da desgraça é muito fina.

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O Grandstand, onde começam e acabam as corridas do Isle of Man TT, onde em 110 anos morreram mais de 140 pilotos, convive com o cemitério de Douglas, ali mesmo ao lado

Localização (ver no mapa): Grandstand

Saltam-se portões, invade-se propriedade privada à procura do melhor sítio para ver as motas passar. Não há bancadas. Quer dizer, haver há, mas são poucas e as pessoas safam-se como podem. Alguns, os locais, simplesmente abrem a porta de casa e põe uma cadeira no quintal: as motos passam mesmo ao lado, todos os anos. É ali que percebemos imediatamente: qualquer erro, qualquer saída de estrada, qualquer trajetória mal calculada, deslize pelos passeios, tangente nos postes de eletricidade tem grandes probabilidades de ser fatal ou de provocar lesões irreversíveis.

Toda a gente aplaude à passagem dos pilotos, mas toda a gente também está com o coração nas mãos.

Por todo o lado, em pequenos aparelhos ou em grandes altifalantes no paddock, ouve-se a Manx Radio, a estação pública local, que entre as novidades da corrida passa os primeiros sucessos dos Blur, Oasis, dos Crowded House - a Ilha de Man ainda está um pouco nos anos 90 e não há mal nenhum nisso.

O silêncio

É quarta-feira, dia da segunda corrida de Superstock, uma das muitas categorias que se disputam no Isle of Man TT. Na sala de imprensa, entre Liam Gallagher a cantar "She’s Electric, she's in a family full of eccentrics" ou o “Everywhere you go, always take the weather with you”, esse enorme refrão dos Crowded House, a emissão da Manx Radio é interrompida.

Há o anúncio de um acidente e de corrida suspensa. Há um silêncio pesado, sepulcral. 

Quem já cá esteve sabe perfeitamente que depois de um anúncio destes é provável que chegue a notícia da morte de alguém. Quem vem pela primeira vez, não demora muito a perceber.

E foi o que aconteceu, duas vezes nesse dia.

Alguns dos mais impressionantes acidentes da história do Isle of Man TT

Antes de Jochem van den Hoek e de Alan Bonner, na véspera tinha morrido Davey Lambert, inglês de 48 anos. As três vítimas mortais da edição de 2017 nem sequer são um número chocante: em 1970 morreram seis pilotos, naquela que é ainda hoje a edição mais dramática do Isle of Man TT.

Van den Hoek era o mais novo dos três, tinha apenas 28 anos. Era a segunda vez que competia no Isle of Man TT. Em 2016 tinha sido um dos melhores rookies. Descreveu na altura no blogue da equipa o entusiasmo com aquilo que dizia ser um sonho tornado realidade: “Nem sei bem por onde começar. Foram as duas melhores semanas da minha vida: não só cumpri o meu sonho de correr na Ilha de Man como foi muito melhor do que imaginava. Estou muito, muito feliz, até porque treinei muito duro para estar apto para este desafio”.

Custou-lhe caro, o sonho. Mas custa ainda mais passar uma vida inteira sem percorrer estas estradas.

O boxeur e o seu rival

O perigo não parece ser um problema para os pilotos. Aliás, há no perigo uma espécie de adrenalina que vicia, a mesma que faz com que, ano após ano, haja milhares de pessoas a assistir às corridas e dezenas de inscritos na prova. 

Porque esta é a prova que separa os meninos dos homens.

Em 2016, Michael Dunlop demorou menos de 17 minutos a percorrer os 60 km do Snaefell Mountain Course, um novo recorde do circuito. Veja aqui a volta completa do norte-irlandês

“Se tenho medo? Não”. Michael Dunlop não é rapaz de grandes subtilezas. “Pensar no medo é uma perda de tempo. Isto já me ocupa tanto o cérebro, quanto mais se tiver de pensar no medo. Não há espaço para isso na minha cabeça”, diz-nos o piloto de 28 anos, nascido em Ballymoney, onde os Dunlop são uma espécie de instituição: quem visita esta cidadezinha norte-irlandesa com 10 mil habitantes muito dificilmente não se deparará com as estátuas de bronze dos malogrados Joey e Robert Dunlop. Tio e pai de Michael.

FotoMonster Energy
Michael Dunlop vem de uma longa linhagem de pilotos de corridas de estrada. Aos 28 anos tem já 15 vitórias na Ilha de Man, duas das quais na edição de 2017

Fisicamente, Michael é um misto de boxeur amador com estivador em início de carreira. Tem um ar fechado, meio carrancudo, de quem quer fazer o seu trabalho e tudo o resto é secundário. Conhecido pelo estilo agressivo a conduzir, são públicos os confrontos com equipas, organizadores e outros pilotos. Nem o seu irmão William, que também faz carreira nas corridas de estrada — está-lhes mesmo no sangue —, escapa à sua fúria ocasional.

O sotaque cerrado dá-lhe um ar ainda mais duro: Michael não diz “bike” mas sim “beike”. Assim é na Irlanda do Norte. Ou assim é porque aos 28 anos, Michael já viu muita coisa. Depois de passar pela morte do tio Joey, em 2000, Michael seguia atrás do pai quando este se despistou num treino para a North West 200 de 2008. Foi o primeiro a socorrer Robert, que acabaria por morrer no hospital. “Estava a ver o meu pai a morrer à minha frente e não sabia”, pode ler-se na sua autobiografia, intitulada simplesmente de “Road Racer”. Cru e direto, tal como ele.

Nos anos seguintes, e com a morte do pai ainda muito presente, pensou desistir de tudo: lutava contra uma depressão ao mesmo tempo que tentava salvar o património da família, a casa que o seu pai construiu em Ballymoney, onde a sua mãe morava.

As pessoas normais gostam de Michael, porque Michael conhece o sofrimento e os problemas das pessoas normais.

Talvez seja por tudo isto que Michael não tem medo. Nos últimos anos tornou-se numa das figuras do Isle of Man TT: tem um total de 15 vitórias, duas das quais conquistadas este ano.

Perguntamos-lhe o que é mais importante para correr na Ilha de Man: talento ou balls. “Não te vale de nada teres balls se não tiveres talento. Tens de juntar tudo e fazer com que tudo funcione. Precisas dos dois porque há demasiadas coisas que são necessárias para pilotar uma moto aqui. E há dias em que tens de ter mais tomates e outros em que precisas de ir buscar o talento”.

FotoIan Walton/Getty Images
Michael Dunlop, sobrinho de Joey Dunlop, ainda hoje o piloto com mais vitórias na história da prova, estreou-se no Isle of Man TT em 2007, com apenas 18 anos
FotoIan Walton/Getty Images
Michael Dunlop, sobrinho de Joey Dunlop, ainda hoje o piloto com mais vitórias na história da prova, estreou-se no Isle of Man TT em 2007, com apenas 18 anos

Dunlop não quer dar lições a ninguém, mas avisa que a Ilha de Man não é para todos. “Tens mesmo de querer isto, sabes? Isto não é a ‘chávena de chá’ do dia-a-dia. Há quem queira fazer a prova só porque é a maior corrida de estrada do Mundo, mas não podes vir cá só para dizer que vieste. Porque isto é um sítio perigoso. Deves ter o teu tempo para aprender o circuito e depois a cada ano ir aprendendo um bocadinho mais”, explica. 

Voltamos ao medo. Quando ele surgir, numa qualquer curva do Mountain Course, é aí que Michael pendura o capacete? “Naaaa, não acredito no medo nem acredito que isso me vá acontecer algum dia. Só vou deixar de correr no dia em que deixar de me divertir com isto”.

Não vale a pena falar do medo a Michael, está visto. Mas há quem admita que ele existe, mesmo que adrenalina seja mais forte que o receio de se lesionar gravemente ou que o receio de morrer.

Ou que o receio de se lesionar gravemente outra vez.

O rival suave

Com o veterano John McGuiness fora de jogo, depois de ter caído e partido uma perna e várias vértebras na North West 200 (sim, a mesma prova onde o pai de Michael morreu), é Ian Hutchinson quem divide as paixões dos adeptos com Michael Dunlop. É fácil perceber, basta olhar para as camisolas e bonés de quem passa pelo paddock. A cada corrida, são os dois os favoritos e, como em qualquer boa rivalidade, não podiam ser mais diferentes: Hutchinson, de 38 anos, é alto, loiro, calmo como um veterinário a tentar amansar um cão nervoso. Há sete anos, o britânico de 38 anos chegou à Ilha de Man e numa só edição do TT venceu cinco provas, um recorde. Em 2017 ele está aqui, à nossa frente, e continua a ser um dos melhores em cima da moto. Mas podia não ser assim.

FotoMonster Energy
Ian Hutchinson é outra das figuras maiores da última década do Ilha de Man TT. Aos 38 anos, tem 16 vitórias na prova

Em 2010, numa das rondas do campeonato britânico de Supersport, Hutchinson viu-se envolvido numa grave queda coletiva. Partiu a perna esquerda em vários sítios e nos anos seguintes foi operado 16 vezes, com várias recaídas pelo meio. Em 2012, num evento de exibição, voltou a partir a mesma perna.

FotoAndrew Hone/Getty Images
Um grave acidente algumas semanas antes do Ilha de Man TT deitou por terra a 19.ª participação de John McGuinness na prova. O britânico de 45 anos é o piloto no ativo com mais vitórias na ilha

A recuperação foi longa e penosa, mas desde 2015 que Ian Hutchinson voltou a ser um dos melhores na Ilha de Man. E como é que se tem coragem de voltar a subir a uma moto, ainda para mais na Ilha de Man, depois de 16 operações?

“Na verdade, acho que nunca ultrapassas totalmente o medo, porque cair aqui é algo que continua a assustar-me”, revela-nos o britânico, que tem um total de 16 vitórias nas mais variadas categorias do Ilha de Man TT.

Hutchinson tem uma boa metáfora para explicar o que sente um piloto que cai, sofre os horrores da recuperação e volta à competição: “A maneira mais fácil de explicar porque é que se volta a competir após um acidente grave é pensando naquela ressaca que tens depois de beberes muito. Quando estás de ressaca a primeira coisa que dizes é ‘nunca mais vou beber álcool na minha vida’. E quando aquilo passa, lá vais tu beber outra vez. É o que acontece com os acidentes, com o tempo esqueces quão más foram as dores, esqueces tudo aquilo que passaste e fica tudo bem, porque estás de volta às corridas e de volta a fazer aquilo que te diverte”.

Mas não quererá isso dizer que as corridas são quase um vício? “É um bocadinho. Aqui na Ilha de Man, quando a semana termina ficas feliz porque acabou, mas às tantas, passado umas semanas já estás mortinho que chegue o próximo ano. É do género, chegas a casa e nem consegues olhar para uma moto. Mas logo, logo estás a sentir saudades das sensações da corrida”, confessa Hutchinson que frisa que estar na Ilha de Man sem qualquer pressão da vitória “é mágico”.

O que não é o seu caso: está numa das principais equipas e é piloto profissional, logo, está aqui para ganhar o mais possível.

FotoDavid Maginnis
A edição de 2017 começou com duas vitórias para Ian Hutchinson, mas a semana acabaria da pior maneira: despistou-se e partiu a perna esquerda
FotoDavid Maginnis
A edição de 2017 começou com duas vitórias para Ian Hutchinson, mas a semana acabaria da pior maneira: despistou-se e partiu a perna esquerda

“Quando ganhas… é tudo!”, diz-nos, na dificuldade de encontrar outras palavras.

Em 2017, Hutchinson sentiu esse “tudo” duas vezes. Mas se quiser voltar a ganhar, terá de passar de novo pela ressaca: já depois de deixarmos a Ilha de Man, na última corrida da semana, Hutchinson caiu e partiu a perna esquerda. De novo a perna esquerda, a tal das 16 operações.

Os portugueses

Do Grandstand ao centro de Douglas é uma caminhada de 15 minutos, a descer. Lá em baixo, junto ao mar e à praia de areia castanha, o vento é tanto que as gaivotas têm dificuldade em voar. O frio entra pelos ossos, sobe elétrico pelo corpo, rebenta os ouvidos e faz os dentes doer. Daí que, mesmo em junho, um cachecol dê jeito. E um cachecol de Portugal, então, dá muito jeito.

Foi assim que conhecemos João Saramago, Nuno Costa, Valdo Vitorino, Nuno Seguro, Pedro Ferreira e Nuno Antunes. São amigos, uns estão cá já pela terceira vez, para outros é a estreia. Nuno Costa foi um dos pioneiros: veio pela primeira vez em 2011. Daí até cá o grupo tem crescido. De Lisboa até à Ilha de Man foram três dias por estrada e mar.

“Fizemos Lisboa-Santander por estrada, que demorou um dia. Pernoitámos em Santander e de lá apanhámos o ferry até Portsmouth. Logo aí foram dois dias. Depois fomos até Liverpool, de Liverpool até Heysham e então daí ferry para a Ilha de Man… são três dias para aqui chegar!”, conta Nuno Costa, quase sem fôlego. Os ferries tiveram de ser marcados com quase um ano de antecedência, porque esgotam rapidamente para estas datas.

O convívio é uma parte importante na hora de decidir saltar para a moto e subir a Europa durante três dias. Mas é a paixão pelo Ilha de Man TT que os traz cá. “Ninguém se predispõe a uma viagem de 3500 quilómetros só para beber copos. Para isso vamos a Faro ou a Portimão. A piada é ver as corridas, porque são corridas que não existem em mais lado nenhum, pelo menos neste formato. A decisão de vir cá parte essencialmente por aí. Qualquer motard gosta da viagem em si, daquilo que passamos até cá chegar, o grupo de amigos, o convívio. Mas tudo culmina nas corridas”, explica Nuno.

É uma alucinação! Não tem nada a ver com uma corrida de circuito
Pedro FerreiraEspectador

O grupo optou por acampar, porque uma das grandes dificuldades é arranjar alojamento. A maior parte dos aficionados destas corridas vem todos os anos e quando sai da ilha já tem tudo marcado para o ano seguinte. Além disso, é uma forma de poupar. “É uma viagem que ronda os 3 mil euros, com acampamento, sem hotéis. Fica bastante caro”, assume Nuno.

Entre os estreantes do grupo está Pedro Ferreira que, por isso, é o mais entusiasmado quando começa a falar do que viu pelas montanhas da ilha. “É uma alucinação! Não tem nada a ver com uma corrida de circuito, em que tudo é controlado. Aqui tudo é imprevisível”, diz o português, que explica o fascínio que as corridas da Ilha de Man têm no motard comum. “Aqui tens tudo o que costumas ver nas estradas. Identificamo-nos muito mais com os perigos que existem e percebemos muito melhor toda a alucinação que aqueles homens têm na cabeça. Porque só um alucinado corre aqui desta maneira, não há outra hipótese!”.

Desta maneira, leia-se, a 300 por hora, no meio de casas ou da montanha, com escarpas mesmo ali ao lado. 

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1965: O italiano Giacomo Agostini, para muitos ainda o melhor motociclista de sempre, 15 vezes campeão mundial, venceu 10 vezes no Ilha de Man TT
FotoDon Morley/Getty Images
1978: Mike Hailwood, conhecido por “Mike the Bike” é outro dos maiores vencedores na Ilha de Man: aqui ganhou 14 vezes, antes de se tornar num dos poucos pilotos de motos a aventurar-se também no Mundial de Fórmula 1
FotoDon Morley/Getty Images
1978: Hailwood passa pelo mítico Keppel Hotel, na curva Creg-ny-Baa, um dos locais históricos do Snaefell Mountain Course
FotoDon Morley/Getty Images
1978: John Williams conduz a sua Honda na zona de Bray Hill. Williams morreria neste mesmo ano numa corrida na Irlanda do Norte e hoje dá nome a um troféu dado ao piloto mais rápido na categoria de Superbike TT
FotoAllsport UK /Allsport
1978: Joey Dunlop é ainda hoje o maior vencedor do Ilha de Man TT: 26 triunfos nas mais diversas categorias ao longo de 24 anos
FotoDon Morley/Getty Images
1978: Mike Hailwood no mítico salto da Ballaugh Bridge
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1981: O norte-irlandês Joey Dunlop
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1992: Steve Hislop na Ballaugh Bridge. “Hizzy” venceu 11 vezes na Ilha de Man
FotoIan Walton /Allsport
2000: O clube de râguebi local é um dos locais em que se juntam motos vindas de todos os pontos da Europa
FotoIan Walton /Allsport
2000: Uel Duncan atravessa a Ballaugh Bridge, um dos locais mais espectaculares (e perigosos…) do percurso
FotoIan Walton /Allsport
2000: A reta que se segue à curva de Creg-ny-Baa é um dos pontos mais icónicos das corridas da Ilha de Man
FotoIan Walton /Allsport
2000: As montanhas marcam a paisagem de parte do percurso de mais de 60 quilómetros que os pilotos têm de rasgar
FotoIan Walton/Getty Images
2007: O sidecar de Michael Thompson e Bruce Moore passa pela aldeia de Kirk Michael
FotoIan Walton/Getty Images
2007: Ian Hutchinson perto do Guthrie's Memorial, naquela que seria a primeira vitória de sempre do britânico no Ilha de Man TT
FotoIan Walton/Getty Images
2007: Ryan Farquhar rasga as montanhas da Ilha de Man
FotoIan Walton/Getty Images
2007: Michael Thompson e Bruce Moore passam no Grandstand, onde começam e terminam as provas do Ilha de Man TT
FotoIan Walton/Getty Images
2007: Ian Lougher faz o salto da Ballaugh Bridge
FotoIan Walton/Getty Images
2007: Ian Hutchinson e Martin Finnegan numa sessão de treinos para a edição de centenário do Ilha de Man TT

Nuno volta à conversa: “Acho que todos tiveram a mesma reação quando viram a primeira moto a passar: ‘O que é isto???’. É arrepiante. Se repararem, todos os postes estão protegidos - nós costumamos brincar e dizer que aquilo não é para proteger os pilotos, é mesmo para proteger os postes - mas ao lado, os muros já não estão protegidos”.

Pedro explica o tipo de situações que é possível ver nas estradas da Ilha de Man por estes dias: “Nós tivemos o privilégio - bem, não sei se isto é bem um privilégio ou não - de assistir a um ‘quase-acidente’ de um piloto que saiu de uma curva e raspou no muro. Se fosse eu parava, chamava o reboque, ia para casa e nunca mais pegava numa moto. É A-S-S-U-S-T-A-D-O-R. Mas ele pegou na moto, calmamente, e continuou… é alucinante!”

Algumas das melhores imagens da edição de 2017 do Ilha de Man TT

“Eu acho que é o espírito da corrida que traz as pessoas cá. Como o Pedro estava a dizer, é algo que não é visto em mais lado nenhum e é impressionante”, continua Nuno. “A primeira vez que vim cá éramos dois numa única moto porque queríamos poupar dinheiro. Fizemos quase tudo por estrada, mais de 6 mil quilómetros. Foi muito pesado. Quando chegámos a Lisboa dissemos ‘nunca mais vamos voltar’. E a verdade é que estamos cá”. 

A calma no caos

Numa pausa para almoçar, o agente Dave senta-se na mesma mesa que o comum adepto do Ilha de Man TT, numa barraquinha onde só se servem produtos locais. Há quem lhe peça para tirar fotos com o alto e pesado capacete branco que todos os polícias da ilha usam. Em outras latitudes, o mais certo era levarem com uma resposta brusca e negativa, mas Dave sorri e deixa toda a gente experimentar o seu curioso capacete.

Dave não é de cá. “Mudei-me da Escócia há uns anos”. Como ele, outros escoceses pediram transferência para a Ilha de Man, território autónomo do Reino Unido, com governo e leis próprias. “Na Escócia as condições de trabalho começaram a deteriorar-se. Aqui a qualidade de vida é bem melhor”, explica-nos o agente, enquanto come calmamente a sua pie. Não há muito trabalho para um polícia, nem mesmo nestas duas semanas em que a ilha ganha mais 40 mil pessoas.

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À noite, depois das corridas, o centro de Douglas enche-se de aficionados das motos. A cidade de 25 mil habitantes recebe mais 40 mil durante as duas semanas de competição
FotoDan Kitwood/Getty Images
À noite, depois das corridas, o centro de Douglas enche-se de aficionados das motos. A cidade de 25 mil habitantes recebe mais 40 mil durante as duas semanas de competição

“O pessoal só quer mesmo divertir-se, sem causar problemas. São semanas de festa, até as escolas fecham”, conta-nos, já com os olhos cheios de nostalgia: já não falta muito para as últimas corridas, para o fim da festa e para o regresso à pacatez que é o estado natural da ilha.

Não há um homicídio na Ilha de Man desde 2014. Antes disso, tinha havido um em 2008. A maior parte dos crimes são “distúrbios relacionados com o consumo de álcool”, conta o agente.

Dave despede-se, deseja-nos uma boa estadia. Volta a calcorrear tranquilamente o paddock. Provavelmente não terá de algemar alguém. Porque quem está aqui, só é culpado de um crime: o crime de amar a adrenalina e o perigo, o crime de adorar heróis anónimos, os mesmos que todos os anos arriscam a vida nas estradas da Ilha de Man, não pela glória do mundo, mas pela glória da sua gente.

*A jornalista viajou a convite da Monster Energy

Site oficial da Ilha de Man TT