Tribuna Expresso

Perfil

Jogos Olímpicos

A guerra e o sonho de Hitler

A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

-

Partilhar

À semelhança do que aconteceu aquando da Grande Guerra (1914-1918), o segundo conflito mundial inviabilizou a grande festa dos Jogos Olímpicos — desta vez, de duas edições, em 1940 e 1944. Pierre de Coubertin já não estava vivo para defender o legado das “tréguas olímpicas”, como na Grécia Antiga — morreu em 1937.

Os Jogos de 1940 tinham sido atribuídos a Tóquio. Com a guerra sino-japonesa, desencadeada em agosto de 1937 após a invasão da China pelo Japão, o Comité Olímpico Internacional (COI) solicitou ao Japão que confirmasse se tinha condições para realizar o evento. Tóquio tardou em responder, o Comité interpretou o silêncio como um indício de dificuldades e transferiu os Jogos para Helsínquia. A Finlândia viria a retirar a sua candidatura, em virtude da conflitualidade no leste europeu.

Em março de 1938, a Áustria tinha sido anexada pela Alemanha (“anschluss”), em setembro a França e o Reino Unido tinham concordado com a anexação alemã da região dos sudetas (Checoslováquia) e em novembro, na “Noite de Cristal”, os nazis tinham mostrado ao que vinham, atacando violentamente e destruindo propriedades de judeus.

Londres, pela segunda vez

Em junho de 1939, o COI reuniu-se em Londres e atribuiu os Jogos de 1944 à capital britânica. Três meses depois, a 1 de setembro, a Alemanha invadiu a Polónia, condenando o Velho Continente ao conflito mais sangrento do século XX.

Em fevereiro de 1942 — quando as tropas nazis tinham já varrido a Europa e entrado em Paris —, Lord Aberdare, um britânico membro do COI, escreveu ao sueco Sigfrid Edström, presidente do organismo, dizendo que dada “a extensão [da guerra] poderia ser difícil organizar os Jogos de 1944”. Os segundos Jogos de Londres acabariam por ser cancelados.

Durante o conflito, foram-se revelando sintomas de que a Alemanha queria usurpar a autoridade do COI. Hitler tinha um plano para que os Jogos passassem a ser realizados, em permanência, na Alemanha.

No inverno de 1940-41, Carl Diem, Karl Ritter von Halt e Hans Tschammer, altos responsáveis do regime nazi para a área do desporto, visitaram o presidente do COI, Baillet-Latour, para lhe explicar as ideias do Führer para o desporto internacional.

Documentos escondidos na adega

Carl Diem, secretário-geral do comité organizador dos Jogos de Berlim de 1936, chegou a aparecer na sede do COI, em Lausana, com a intenção de tomar o controlo da situação. O presidente Baillet-Latour tinha sofrido um AVC, do qual não sobreviveria, e não havia necessidade do COI cair num vazio de poder.

A missão de Diem foi frustrada por Lydia Zanchi, secretária do COI desde 1927, que escondeu documentos importantes na adega.

Em agosto de 1945, o então líder do COI, Sigfrid Edström, o norte-americano Avery Brundage e o britânico Lord Aberdare encontraram-se em Londres, na primeira reunião do pós-guerra, para tratar da revitalização dos Jogos. Várias cidades eram opção: Atenas, Baltimore, Filadélfia, Lausana, Londres, Los Angeles e Minneapolis. Pela segunda vez num pós-guerra, a capital britânica seria “a bombeira de serviço”.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Tribuna

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Tribuna

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    Tribuna

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Tribuna

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Tribuna

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Tribuna

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Tribuna

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Tribuna

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    Tribuna

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    Tribuna

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Tribuna

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época