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“As minhas expectativas são bastante comedidas”, diz ela. Mas nunca se sabe porque “há qualquer coisa por aí”

Campeã europeia de triplo salto, Patrícia Mamona diz que o mais difícil é lidar com a pressão da classificação para a final olímpica, porque depois de lá estar “tudo pode acontecer”, inclusive uma medalha

Alexandra Simões de Abreu

Patrícia Mamona na cerimónia da entrega de medalhas do Campeonato Europeu de Atletismo de 2016, em Amesterdão, onde arrebatou o ouro

KOEN VAN WEEL/ EPA

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As superstições e os rituais - às vezes inconscientes - fazem parte da vida de (quase) todos os atletas. Uns levam amuletos ou benzem-se, outros ouvem sempre a mesma música, alguns não dispensam “aquela” camisola ou os calções com que venceram a última prova, muitos fazem sempre o mesmo gesto. A campeã nacional (e europeia) do triplo salto, Patrícia Mamona, bebe café. “Adoro café e tenho de beber café para sentir que estou pronta”. De resto, garante, não tem “mais nada de interessante”. As meias altas que já se tornaram uma imagem de marca sua, só as usa por vaidade: “Acho que me ficam bem”. Crente nas suas capacidades, considera que as coisas “não acontecem por acaso”, porque “nós temos o controlo” e assume não ser religiosa. Mas acredita que “há qualquer coisa por aí” que não sabe o que é e que isso a deixa “de pé atrás” por ser muito curiosa e gostar de explicações. Para uma estudante de engenharia biomédica que já fez quatro anos teóricos de medicina nos EUA, faz sentido.

Filha de angolanos, nascida em Lisboa, Patrícia Mamona passou a infância na zona do Cacém e só se meteu no atletismo “porque queria ter cinco a Educação Física” e o professor disse-lhe que para isso tinha de participar na prova de corta-mato. Quis o destino, ou essa “qualquer coisa que anda por aí”, que José Uva lá estivesse “à caça” de novos talentos para o Juventude Operária de Monte Abraão (JOMA). Ainda hoje é ele o seu treinador.

Ao fim de dois anos no JOMA a experimentar de tudo um pouco percebeu que o talento e a vontade não estavam no corta mato ou na resistência mas antes na velocidade e nos saltos. Na primeira época a competir, com 13 anos, ganhou logo o título de Atleta Completo. Como iniciada, em 2003, liderou os rankings de 80 m barreiras (12,19), altura (1,60), comprimento (5,30), triplo (11,69) e hexatlo (3515), batendo os recordes nacionais destas duas últimas especialidades.

Sempre a crescer também como atleta, Patrícia parte para os EUA, em 2008. Foi estudar medicina para a universidade de Clemson, na Carolina do Sul. Durante quatro anos foi duas vezes campeã nos EUA, com 14m, numa competição “que parecia fácil”, diz ela. “Foi uma das razões porque regressei a Portugal. Lá, treinando pouco, ganhava. Na Europa é diferente. As melhores atletas estão na Europa e a competição tem um nível mais alto”. Ainda assim reconhece que a experiência americana foi essencial. “Cresci muito, aprendi muito. Aprendi a ser mais confiante do que era. Tinha as condições todas.”

Com os pais a viver em Inglaterra, duas irmãs mais novas e um meio irmão mais velho, Patrícia preferiu manter-se em Portugal e depois de descobrir que os quatro anos teóricos de medicina nos EUA não lhe davam as equivalências que pretendia, optou pelo curso de Engenharia Biomédica, na Lusófona, vai para o terceiro ano. “Fascina-me a área da ciência, principalmente a biológica.

A estreia nos Jogos Olímpicos

Em 2012, Patrícia Mamona fez a sua estreia olímpica, nos Jogos de Londres. Como ela própria resume, “foi a experiência de uma rapariga que não tinha experiência, que era um bocado medricas”. Ficou a 5cm de um lugar na final. Revela que “o objetivo era ir aos Jogos” mas depois de lá estar foi apanhada pelo bichinho olímpico e percebeu que “queria mais”. “Nunca me tinha acontecido estar às 10h da manhã numa competição num estádio completamente cheio e sem saber onde é que estava o meu treinador porque estava nervosa”, conta.

A atleta no mais recente campeonato europeu, em Amesterdão

A atleta no mais recente campeonato europeu, em Amesterdão

OLAF KRAAK/ EPA

Vice-campeã europeia em Helsínquia 2012, Patrícia Mamona terminou os Jogos na 13.ª posição e conseguiu o melhor salto logo na primeira tentativa, com 14,11 metros, piorando nas tentativas seguintes, com 13,97 e 13,96.

Com a qualificação direta fixada nos 14,40 metros, a portuguesa ficou longe dos 14,52, o seu recorde nacional e que lhe valeu a prata em Helsínquia.

Custou-lhe lidar com a desilusão, sente que os nervos acabaram por falar mais alto, mas aquela experiência e as competições que se seguiram no novo ciclo olímpico deram-lhe o à vontade para dizer agora que “a Patrícia que vai ao Rio sabe lidar melhor com a pressão e tem mais controlo sobre si e sobre o salto”.

Ainda assim evita subir muito a fasquia. “As minhas expectativas são comedidas”, começa por afirmar sem conseguir calar que “se chegar à final tudo pode acontecer”.

Patrícia chegou ao Rio com o título de campeã europeia alcançado há um mês, em Amesterdão, com a marca 14,58m, novo recorde nacional.

No Rio considera a colombiana Caterine Ibarguen a favorita ao ouro (tem a melhor marca do ano, 15,05m), mas recorda que a campeã olímpica é Olga RypaKova, do Cazaquistão, que no último Campeonato do Mundo, em 2015, foi terceira classificada. “Tudo pode acontecer. Por isso tenho que pensar que também tenho uma oportunidade”, afirma a atleta portuguesa, de 27 anos, revelando que está na sua melhor forma de sempre e muito confiante.