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Jogos Olímpicos

Londres, a cidade dos momentos difíceis

Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

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Na história dos Jogos Olímpicos, Londres tem sido uma espécie de “bombeira de serviço”. Foi assim, pela primeira vez, em 1908, quando Roma abdicou da organização a braços com graves problemas internos — a capital inglesa aceitou o encargo a apenas dois anos do evento.

Em 1948, após a II Guerra Mundial, que obrigou ao cancelamento de duas edições dos Jogos, Londres voltou a ser a solução de recurso. Disponível e intacta, a metrópole inglesa, um símbolo da resistência aos totalitarismos, foi escolhida para resgatar o evento das cinzas, naqueles que ficariam conhecidos como os “Jogos da Austeridade”.

A sociedade continuava a ser penalizada com racionamentos de roupa e comida, pelo que a organização propôs-se reabilitar o espírito olímpico sem grandes gastos. O governo trabalhista de Clement Richard Attlee tinha outras prioridades onde gastar o dinheiro público.

Sem aldeia olímpica, devido aos elevados custos, os atletas ficaram alojados em antigas casernas militares disponibilizadas pelo Governo. O Comité Olímpico Britânico pagou a adaptação dos espaços às necessidades do evento. Muitas equipas levaram consigo os produtos para confecionarem a comida e toalhas para os atletas, que a organização assumiu não poder fornecer.

Para os britânicos, o esforço era hercúleo, mas desejado: por um lado, atrairia turistas e receitas e, por outro, combateria a ideia de que o esforço da guerra tinha destruído o Reino Unido. O país estava de pé, ainda que as prestações dos seus atletas fossem as mais pobres de sempre: três medalhas de ouro, catorze de prata e seis de bronze.

“O importante nos Jogos Olímpicos não é ganhar mas participar. O essencial da vida não é conquistar mas lutar bem”, lê-se no quadro do estádio olímpico de Londres, citando Pierre de Coubertin

“O importante nos Jogos Olímpicos não é ganhar mas participar. O essencial da vida não é conquistar mas lutar bem”, lê-se no quadro do estádio olímpico de Londres, citando Pierre de Coubertin

Com as feridas da guerra ainda abertas, alemães e japoneses não foram convidados a participar. Outra ausência foi a União Soviética, afastada do concerto olímpico desde a Revolução de 1917. Em fevereiro de 1948, os soviéticos tinham orquestrado um golpe de estado na Checoslováquia e, desde então, controlavam politicamente o país. Este acontecimento esteve na origem da primeira deserção da história dos Jogos Olímpicos: Marie Provaznikova, dirigente da equipa técnica de ginástica da Checoslováquia, foi a Londres e não regressou a casa.

Apesar das dúvidas do Comité Olímpico Internacional (COI), o transporte do facho olímpico desde Olímpia realizou-se, como parte integrante das cerimónias. A caminho de Londres, fez-se um desvio até à campa de Pierre de Coubertin, em Lausana, e assim evitou território alemão.

Em Londres, a holandesa Fanny Blankers-Koen repetiu o feito desportivo de Jesse Owens. Ficou conhecida como “a dona de casa voadora”

Em Londres, a holandesa Fanny Blankers-Koen repetiu o feito desportivo de Jesse Owens. Ficou conhecida como “a dona de casa voadora”

Em Londres, foi recuperada uma pista em terra à volta do relvado de Wembley, onde se consagrariam, após pernoitarem em antigos barracões da Royal Air Force (RAF), dois dos mais lendários atletas olímpicos: o checo Emil Zátopek, que ganhou o ouro nos 10.000 m, a prata nos 5000 m e que viria a ser a estrela maior dos Jogos de 1952, e a holandesa Fanny Blankers-Koen, que impressionou pelas suas qualidades atléticas e pelo seu perfil que desafiava os padrões sociais da época.

Com 30 anos e dois filhos, Fanny não correspondia ao modelo de mãe de família de meados do século XX, o que quase significava a sua desqualificação do atletismo de excelência. Apesar da ocupação nazi do seu país, ela tinha conseguido manter-se ao mais alto nível, treinada pelo marido, chegando a Londres com sete recordes mundiais, dos quais poucos tinham consciência.

Em Londres, no espaço de nove dias, ela conquistou quatro medalhas de ouro, numa reedição da proeza de Jesse Owens nos Jogos de Berlim. Fanny venceu exatamente as mesmas provas: 100 e 200 metros, 80 metros obstáculos e estafeta 4x100 metros. Ficaria conhecida como “a dona de casa voadora”.

A Associação Internacional de Federações de Atletismo considerou-a a Atleta Feminina do Século. Durante a sua carreira desportiva, bateu 20 recordes mundiais em provas de velocidade, obstáculos, saltos em altura e comprimento e heptatlo.

O húngaro Karoly Takacs perdeu a mão direita durante a II Guerra. Aprendeu a disparar com a esquerda e, em Londres, ganhou o ouro no tiro rápido a 25 m

O húngaro Karoly Takacs perdeu a mão direita durante a II Guerra. Aprendeu a disparar com a esquerda e, em Londres, ganhou o ouro no tiro rápido a 25 m

Da geração de 1936, vários campeões tinham tombado nos campos de batalha, como o nadador húngaro Ferenc Csik e o saltador alemão Luz Long, o amigo de Jesse Owens. Entre os atletas que tinham combatido e sobrevivido, estava o atirador húngaro Karoly Takacs, que aderiu ao exército em 1936 e perdeu a mão direita na explosão de uma granada dois anos depois. Aprendeu a atirar com a mão esquerda e, em Londres, ganhou a medalha de ouro no tiro rápido a 25 metros.

Nos segundos Jogos de Londres participaram mais de 4131 atletas de 59 países, a maior afluência de sempre até então. Na maioria dos dias de competições, mais de 80 mil pessoas estiveram no Estádio de Wembley, de onde a BBC transmitiu num total de 56 horas.

As circunstâncias históricas de 1948, três anos apenas após uma guerra que matou 40 milhões de pessoas, e o facto do Reino Unido estar a erguer-se desse esforço contribuíram para uns Jogos tranquilos e sem polémicas.

Tudo mudaria dali a quatro anos, com a entrada em cena da União Soviética, após 40 anos de ausência. José Estaline percebeu o enorme potencial propagandístico dos Jogos Olímpicos que, nas décadas seguintes, tornar-se-iam reféns da política como nunca antes.

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