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Jogos Olímpicos

O regresso dos russos, 40 anos depois

Os Jogos de Helsínquia, em 1952, marcaram o retorno da União Soviética ao convívio olímpico. Com o mundo dividido em comunistas e capitalistas, os Estados Unidos ganharam um adversário à altura. Este é o décimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

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Helsínquia tinha sido opção como cidade organizadora dos Jogos em 1940, mas a invasão soviética da Finlândia, no ano anterior, e a II Guerra Mundial que se lhe seguiu deitou tudo a perder. O momento da capital finlandesa chegaria 12 anos depois. Com apenas 367 mil habitantes, um quinto da população da cidade cabia dentro do estádio olímpico, com capacidade para 70 mil pessoas.

A cidade era um mar de tranquilidade e, por isso, um palco pouco óbvio para o primeiro confronto direto entre os dois protagonistas da Guerra Fria — Estados Unidos e União Soviética —, que duraria mais de três décadas.

Após 40 anos de ausência — marcados por uma revolução interna e duas guerras mundiais —, os russos (agora soviéticos) estavam de volta aos Jogos.

Para os soviéticos, a participação teria de ser vencedora. “Ganhamos a guerra, devemos ganhar no desporto!”, era o slogan que refletia a nova realidade. Perder contra capitalistas não seria admissível.

Ainda que o profissionalismo não fosse admitido pelo Comité Olímpico Internacional (COI), os melhores atletas começaram a receber subsídios públicos para se dedicarem ao treino. Paralelamente, as autoridades de Moscovo investiram no desporto escolar e na construção de centros de treino por todo o país.

Confrontados com a questão dos subsídios estatais aos atletas, os soviéticos defendiam-se dizendo que não eram rotina e que a maioria dos atletas eram estudantes, funcionários públicos ou membros das forças armadas.

Robert Richards, dos EUA, agradece a Deus a vitória no salto à vara, em Helsínquia

Robert Richards, dos EUA, agradece a Deus a vitória no salto à vara, em Helsínquia

O mundo dividia-se entre comunistas e capitalistas e os Jogos eram aproveitados pelos dois blocos geopolíticos para medir forças. Cada sucesso dos atletas do “seu lado” era visto pela respetiva superpotência como prova da superioridade do seu sistema social sobre o do rival.

Em Helsínquia, essa rivalidade fez-se sentir ainda antes das provas, com os soviéticos a recusarem-se a partilhar a aldeia olímpica em Käpylä com os desportistas capitalistas. Solidários, os restantes atletas do bloco de Leste acompanharam os soviéticos até um alojamento isolado.

Para os XV Jogos, a URSS levou apenas atletas politicamente alinhados. De fora ficaram alguns atletas com espírito independente, como o estónio Heino Lipp, um dos maiores atletas do decatlo dos anos 40.

A presença da URSS nas competições intensificou a pressão sobre os EUA, que temeram o fim da sua hegemonia. Em Helsínquia, isso ainda não viria a acontecer: os norte-americanos conquistaram 40 medalhas de ouro e os soviéticos 22.

No atletismo masculino, os soviéticos não conquistaram qualquer medalha, enquanto os americanos levaram 14 para casa. Mas era claro que, no futuro, os EUA teriam um concorrente à altura, com quem disputar cada centímetro, cada ponto, cada golo.

“Havia muito mais pressão sobre os atletas americanos por causa dos russos”, diria o norte-americano Bob Mathias, que em Helsínquia sagrou-se bicampeão olímpico no decatlo. “Em certo sentido, eles eram o verdadeiro inimigo. Adorávamos bate-los. Tínhamos de o fazer. Este era um sentimento partilhado por toda a equipa.” Derrotar a URSS não era o mesmo que “bater um país amigo como a Austrália”.

O checo Emil Zátopek entra no estádio olímpico de Helsínquia em direção à vitória na maratona

O checo Emil Zátopek entra no estádio olímpico de Helsínquia em direção à vitória na maratona

Os resultados ditariam que o grande herói dos Jogos de Helsínquia seria um representante do bloco de Leste, ainda que não alinhado com a doutrina política oficial — o checoslovaco Emil Zátopek, vencedor dos 5000, 10.000 e da maratona. Seria rotulado de “locomotiva checa”.

Dana Zátopeková, esposa de Emil, venceria o lançamento do dardo. Entre o casal, havia muito mais em comum do que o sentimento: tinham nascido ambos no mesmo bairro de Koptivice, no mesmo dia (19 de setembro de 1922) e tinham frequentado a mesma universidade.

Em Helsínquia, Emil Zátopek foi grande a vários níveis. Um gesto seu quase lhe custou as conquistas desportivas. Homem modesto, ele era alvo da admiração de muitos jovens compatriotas que sonhavam rivalizar com ele em grandeza e reconhecimento. Entre eles, estava Stanislav Jungwirth, um talentoso atleta dos 1500 metros. O seu pai, um ativista anticomunista, era prisioneiro político, o que ditou o afastamento de Stanislav da equipa olímpica. Zátopek reagiu com uma ameaça: “Se ele não for, eu não vou”.

A equipa checoslovaca arrancou para Helsínquia, deixando para trás Emil e Stanislav. O prestígio de Zátopek era tal que as autoridades nacionais cederam. Uns dias depois, ambos seguiram para a Finlândia. Stanislav falhou por pouco a final dos 1500 m. Dali a cinco anos, o recorde mundial seria seu.

Quanto a Emil Zátopek, continuaria a desafiar as autoridades comunistas com o seu espírito independente. Após a invasão soviética da República Checa, em 1968, para esmagar o movimento democrático de Alexander Dubcek, o desportista sugeriu que a URSS fosse banida dos Jogos desse ano, na Cidade do México. Foi demitido do exército, onde tinha um alto cargo, e enviado durante seis anos para trabalhar nas minas de urânio na Boémia.

Aos 55 anos, Paavo Nurmi, um herói para os finlandeses, foi escolhido para acender a pira olímpica, nos Jogos de Helsínquia

Aos 55 anos, Paavo Nurmi, um herói para os finlandeses, foi escolhido para acender a pira olímpica, nos Jogos de Helsínquia

Para os finlandeses, os Jogos de Helsínquia foram uma oportunidade de ouro para “vingar” o seu herói nacional, Paavo Nurmi, banido em 1932 por profissionalismo, e a quem os finlandeses reverenciavam como a Sibelius.

Na cerimónia de inauguração dos Jogos, a emoção tomou conta das bancadas quando Paavo Nurmi, então com 55 anos, entrou no estádio em passo de corrida e sob aplausos contínuos, transportando o facho olímpico, numa espécie de reabilitação tardia.

Helsínquia marcou também a readmissão dos proscritos Japão e Alemanha. Nos Jogos, alinharam, aliás, duas equipas alemãs: a República Federal Alemã (RFA), criada em 1949 (como a República Democrática Alemã/RDA, que esteve ausente em Helsínquia), e a equipa do protetorado de Saar, independente, disputado por alemães e franceses. Em 1955, seria integrado na RFA.

Fundado em 1948, Israel fez a sua estreia com uma delegação de 25 atletas. Uma presença que não tardaria a tornar-se incómoda para alguns países e a transformar-se num foco de grande conflitualidade.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Tribuna

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Tribuna

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    Tribuna

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Tribuna

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Tribuna

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Tribuna

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Tribuna

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Tribuna

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

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    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    Tribuna

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Tribuna

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A guerra e o sonho de Hitler

    Jogos Olímpicos

    A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Londres, a cidade dos momentos difíceis

    Jogos Olímpicos

    Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época