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Jogos Olímpicos

O véu que encobriu a praia de Copacabana

Choque cultural. As olimpíadas são um espetáculo televisivo por vocação, mas coube a uma simples foto desnudar o preconceito

Plínio Fraga, no Rio de Janeiro

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Os Jogos Olímpicos são imagens em movimento e em altíssima velocidade, características de um espetáculo televisivo, por excelência e por vocação.

Os direitos de transmissão foram negociados a peso de ouro. A NBC, rede de TV americana, pagou 7,6 mil milhões de dólares para assegurar a transmissão das olimpíadas até 2032. Cada uma das emissoras que exibem o Rio-2016 tiveram que desembolsar 200 milhões de dólares, pagos ao Comité Olímpico Internacional.

Os 10.500 atletas de 206 países que competem no Rio disputam 2488 medalhas, das quais apenas 812 são de ouro. Cada medalha de ouro pesa 500 gramas. Uma medalha dita de ouro tem prata em 92,5% da sua composição; 6,16% de cobre e apenas 1,34% de ouro. Se avaliada pela quantidade de metal nobre da qual é feita, custa 540 euros e dá razão à sapiência shakespeariana de que nem tudo o que reluz é ouro.

Cada emissora de televisão pagou ao COI o equivalente ao custo de quase 340 mil medalhas de ouro — o suficiente para premiar atletas por 419 competições olímpicas, período coberto em 210 anos, se lembrarmos que há olimpíadas de inverno e de verão.

A digressão é absurda do tamanho do absurdo que é o poder da televisão nos Jogos Olímpicos. A NBC transmitiu a cerimónia de abertura e a competição de ginástica olímpica com horas de atraso para adequar o tempo dos jogos à grelha de programação — ignorando as queixas dos telespectadores que demoraram alguns poucos cliques nas redes sociais para se perceberem ludibriados.

A emissora americana já conseguira determinar os horários que lhe interessavam para as partidas mais importantes, por exemplo do basquete e do vólei de praia. São realizadas no avançado da noite brasileira, já madrugada na Europa, mas em momento perfeito para o horário nobre da televisão norte-americana.

Os brasileiros têm à disposição, entre emissoras da televisão aberta e da televisão paga, 30 canais transmitindo diariamente as competições olímpicas. Dá até certa aflição permanecer muito tempo num canal, porque logo se imagina que pode se estar perdendo algo excecional em algum outro. A síndroma do zapping de canais é uma espécie de labirintite televisiva, com ataques súbitos de tontura e mal-estar. Os telespectadores são passíveis de grave intoxicação desportiva, tal excessiva é a oferta de competições.

Na primeira semana do Rio-2016, histórias espetaculares já foram contadas. A lutadora de judo Rafaela Silva, primeira medalha de ouro do Brasil, nasceu na conflituosa comunidade da Cidade de Deus, entrou para o desporto para fugir da violência em volta, sofreu ataques racistas, alistou-se nas forças armadas e casou-se com uma ex-lutadora, apesar das críticas homofóbicas. A história de Rafaela tem pontos de aproximação com a da lutadora Telma Monteiro, medalha de bronze para Portugal. Li que Telma é do “problemático” bairro Branco do Monte da Caparica. Pelo adjetivo usado, compreendi tudo e vibrei, tardiamente, com a sua vitória.

Por maior que sejam as cargas de emoção trazidas pelas imagens em movimento das vitórias de Rafaela e Telma, a primeira semana do Rio-2016 foi dominado por um estático registo fotográfico. Uma simples foto. Um flagrante que não demandou tanto esforço do fotógrafo, mas guarda em si muita sensibilidade jornalística e algum toque artístico. Mérito da fotógrafa Lucy Nicholson, da agência Reuters.

A partida de vólei de praia entre Alemanha e Egito, disputada domingo em Copacabana, não chamava muita atenção pela disparidade das equipes envolvidas. O favoritismo das alemãs, no topo do ranking do vólei de praia, era evidente e confirmou-se em pouco mais de meia hora. As egípcias eram simples amadoras. Coube a Lucy Nicholson traduzir o que estava por trás de um simples jogo de praia numa imagem impactante que passou despercebida pela televisão — voltada para outros jogos mais importantes naquele exato instante. Nicholson desnudou o preconceito.

Na foto, estão, frente a frente, duas atletas subindo à rede do vólei de praia. Por si, a jogada seria banal. Mas o contraste da foto é espetacular. Sob o sol de 30 graus do inverno carioca, a atleta alemã Kira Walkenhorst, 25 anos, 1,84 m, 75 kg, aparece retilínea em seu biquíni cinza. Tem espelhada a atleta egípcia Doaa Elgobashy, 19 anos, 1,74 m, 80 kg, com o corpo plenamente coberto — a calça preta, a blusa verde, o véu muçulmano. Com alguma licença poética, parecem reproduzir o yin-yang, o conceito taoísta da dualidade do universo.

A imagem correu mundo. Os preconceituosos e autoritários se revelaram, como a agência de notícias iraniana que censurou a alemã por estar seminua. Mas a receção alegre, contemplativa e compreensiva do mundo multicultural desbancou, por alguns momentos ao menos, a tese do choque de civilizações do cientista político norte-americano Samuel P. Huntington. A sua hipótese central dizia que a fonte fundamental de conflitos do mundo moderno deixava de ser ideológica ou económica para ser cultural. Previu que o choque de civilizações dominaria a política global. “As falhas geológicas entre civilizações serão as frentes de combate do futuro”, escreveu em 1993.

Naquele choque específico da foto de Nicholson estava em jogo somente a bola do vólei de praia e as falhas geológicas eram apenas os naturais desníveis das areias da praia de Copacabana. Doaa Elgobashy e a colega Nada Meawad, 18 anos, entraram para a história do desporto por formarem a primeira dupla do Egito a disputar umas olimpíadas na modalidade de vólei de praia. Se o leitor se apegar à objetividade insensível dos placares desportivos, foram três jogos e três derrotas para alemãs, italianas e canadenses. Mas conquistaram medalhas afetivas — que valem mais do que ouro — dos espectadores do Rio-2016, que torceram por elas das arquibancadas enxergando algo mais naquele véu. Para confortá-las de alguma forma, torcedores entoaram músicas de Carnaval brasileiras, em geral com referências esdrúxulas à coisas do Egito, como pirâmides e faraós.

Confrontada com o espanto mundial perante a foto, Elgobashy foi incisiva como uma cortada no vólei é: “O desporto une todas as pessoas: muçulmanos, cristãos ou judeus. Esteja de biquíni ou de véu. Acho meu hijab algo bonito e tenho orgulho de usá-lo, jogando ou fazendo tudo o que quiser. Estou apenas praticando minha religião e não importa como me visto para isso.”

Meawad, sua companheira de equipa, também é muçulmana, mas acredita que não precisa do hijab para exercer sua religiosidade. Nas praias do Egito, usa biquíni, como grande parte do mundo. Jogou com o corpo coberto em respeito à Elgobashy, porque as regras olímpicas exigem que as duas jogadoras se vistam com uniformes iguais. Meawad só dispensou o véu.

O frenético sucesso da atleta com o hijab no vólei de praia atiçou os repórteres. No dia seguinte, um batalhão deles se postou a acompanhar a competição de esgrima. Ibtihaj Muhammad competia pela medalha de ouro. Tinha 13 anos quando a mãe a incentivou a experimentar a esgrima, por lhe permitir competir sem ter de abrir mão da roupa que lhe cobria todo o corpo. Hoje, com 30 anos, a atleta muçulmana tornou-se a primeira norte-americana a competir com hijab. “Estou entusiasmada por poder mudar estereótipos e conceções erradas que as pessoas têm acerca de mulheres muçulmanas”, afirmou.

Há quatro requerimentos fundamentais para a vestimenta islâmica feminina, na interpretação mais rígida dos textos sagrados muçulmanos. A roupa deve cobrir todo o corpo, exceto rosto e mãos; deve ser larga o suficiente para não marcar as formas do corpo; deve ser espessa o bastante para não mostrar a cor da pele nem as formas que deveria esconder; não deve chamar a atenção do homem para a beleza da mulher.

A obrigatoriedade do uso do véu na esfera pública é contestada por muitos muçulmanos. Há os ortodoxos que consideram o uso do hijab um aspeto fundamental da conduta da mulher muçulmana, por simbolizar a dignidade e a modéstia, além de ajudar ambos os sexos a manter a castidade até o casamento. Muitas muçulmanas, no entanto, afirmam que a fé é o sentimento que importa, estando acima do uso ou não do véu. Muitas delas limitam o uso ao ambiente doméstico, para que não se destaquem nas ruas em sociedades em que são minoritários como o Brasil.

O Estado brasileiro chegou a perseguir os muçulmanos no século XIX. Malês, africanos de origem Yorubá, de religião muçulmana, organizaram um manifestação em 1835 que tomou as ruas de Salvador por horas. Alguns dos participantes da revolta foram deportados, outros foram presos, sujeitos a castigos físicos ou mesmo condenados à morte. O Estado passou a ver a religião islâmica como algo a ser controlado e temido. País maioritariamente católico, crença com a qual se dizem identificar 110 milhões de brasileiros, o Brasil abriga cerca de 35 mil muçulmanos. Destes, apenas 30% são imigrantes.

É razoável imaginar que mulheres muçulmanas se sintam constrangidas a usar o véu num ambiente de total desconhecimento dos seus costumes. A uma pesquisadora que investigou os hábitos de muçulmanos no Rio de Janeiro, uma entrevistada que usa o hijab nas ruas relatou que um bêbado carioca se jogara aos seus pés no centro da cidade, chamando-a de “Nossa Senhora”. Na ocasião, ela usava um véu azul-turquesa com pequenos bordados prata, jeans e uma longa bata branca. Era uma combinação que poderia ter causado a confusão, já que o manto azul com bordados dourados integram a imagem de Nossa Senhora, na tradição católica brasileira.

Ao entrar na arena do vólei de praia com o seu hijab, Doaa Elgobashy merecia uma medalha de pacificação dos povos. Operou o milagre da transformação positiva da visão dos cariocas e brasileiros sobre os muçulmanos, em particular, e sobre o respeito à crença do próximo em geral. Haverá quem diga que o milagre foi de Nossa Senhora, demonstrando que fundamentalismo religioso, político ou ideológico não reside num grupo étnico específico, mas está dividido por toda a humanidade.

Texto publicado na edição de 13 de agosto de 2016 do Expresso