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Jogos Olímpicos

Os Jogos do “sangue na água”

Um mês após a intervenção militar soviética na Hungria, um jogo de polo aquático, entre os dois países, nos Jogos de Melbourne de 1956 transformou-se num facto político. Os primeiros Jogos realizados a sul do Equador foram menos participados do que os anteriores, pela distância a que fica a Austrália e pela conflitualidade que se vivia no mundo. Este é o décimo quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

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Aos 60 anos de vida, os Jogos mudaram de hemisfério. Melbourne recebeu o primeiro evento a sul do Equador, o que introduziu algumas condicionantes às competições e tornou a cidade australiana uma escolha controversa.

A primeira prendeu-se com a própria data dos Jogos, entre 22 de novembro e 8 de dezembro, era verão na Austrália e inverno na Europa e na América.

Uma segunda especificidade envolveu as provas de hipismo. Em virtude da legislação australiana que obrigava todos os cavalos que entrassem no país a um período de seis meses de quarentena, a competição hípica foi transferida para... Estocolmo, na Suécia, onde teve lugar no mês de junho.

A distância de grande parte do mundo para a Oceânia realçou as tradicionais dificuldades relativas ao financiamento das deslocações. Para agravar, havia que viajar com alguma antecedência para que os atletas se adaptassem às condições locais.

O cavaleiro sueco Petrus Kastenman ganhou uma medalha de ouro nos Jogos de Melbourne, disputando a prova no seu país natal

O cavaleiro sueco Petrus Kastenman ganhou uma medalha de ouro nos Jogos de Melbourne, disputando a prova no seu país natal

Linda Sandgren

Em Melbourne participaram menos 1600 atletas do que nos Jogos anteriores, em Helsínquia. Para tal contribuíram também alguns contenciosos políticos. A China Popular boicotou devido à presença da China nacionalista (Taiwan). O Egito e o Líbano não participaram por causa da crise no Suez. Liechtenstein, Holanda, Suíça e Espanha faltaram em protesto contra a entrada das tropas soviéticas na Hungria, a 4 de novembro, faltava já menos de um mês para arrancarem os Jogos.

“Não deve haver blocos e não deve haver qualquer nacionalismo no Comité Olímpico Internacional [COI]”, defendera Avery Brundage, presidente do COI, numa circular enviada aos membros do organismo, em janeiro de 1954.

Com o mundo em polvorosa, o facto de RFA e RDA comparecerem em Melbourne com uma equipa unida — sob bandeira olímpica — era uma conquista contracorrente.

Partida de futebol entre a União Soviética e a Alemanha. Os soviéticos venceram 2-1

Partida de futebol entre a União Soviética e a Alemanha. Os soviéticos venceram 2-1

Apesar do “banho de sangue” em Budapeste, uma delegação húngara viajou até Melbourne. Os resultados ficaram aquém dos alcançados quatro anos antes, mas para a história — da participação húngara e das próprias Olimpíadas — ficou a meia final em polo aquático que os magiares disputaram contra os soviéticos e que mais pareceu uma extensão da crise política bilateral.

Com os acontecimentos de Budapeste em mente, os atletas mergulham na piscina com os nervos à flor da pele. O jogo decorreu em clima de grande tensão transformando-se, à medida que o relógio avançava, numa batalha física e verbal entre as duas equipas.

Paralelamente aos lançamentos da bola dentro de água, os atletas recorriam a insultos, socos e pontapés. Nos últimos minutos da partida, quando os húngaros venciam confortavelmente por 4-0, um gesto daria origem à imagem icónica deste jogo. O soviético Valentin Prokopov agrediu o húngaro Ervin Zador, que foi obrigado a sair da água com um sobrolho aberto. “Vi umas 4000 estrelas”, recordaria o húngaro. “Depois pus a mão na cara e senti sangue quente a escorrer. Pensei imediatamente: ‘Meu deus, não vou poder jogar a próxima partida’.”

A violência contagiou as bancadas, com espectadores em fúria, o que obrigou à intervenção da polícia. A Hungria foi à final e venceu a Jugoslávia por 2-1. Ferido, Ervin Zador não jogou esse jogo, como receava. Nem regressaria à Hungria, como vários outros companheiros que, aproveitando a viagem até Melbourne, desertaram.

O “Jogo do Sangue na Água”, como ficou conhecido, foi descrito por Quentin Tarantino, um dos produtores do documentário “Freedom’s Fury” (2006), como “a melhor história de sempre não contada”. Narrado por Mark Spitz — o nadador norte-americano que seria a estrela dos Jogos de Munique de 1972 e que chegou a ser treinado por Ervin Zádor —, o filme conta a história daquela partida e do que levou àquela violência.

Um atleta sueco mostra a medalha conquistada em Melbourne a um grupo de admiradores

Um atleta sueco mostra a medalha conquistada em Melbourne a um grupo de admiradores

No “campeonato da Guerra Fria”, a URSS arrecadou 98 medalhas (37 de ouro) e os EUA ficaram-se pelas 74 (32 ouros). À segunda participação nos Jogos, desde o seu regresso, os soviéticos superavam os norte-americanos e assumiam-se como a grande potência mundial do desporto.

Mas entre os dois blocos geopolíticos não havia só histórias de rivalidade e ódio. O norte-americano Harold Connolly ganhou o lançamento do martelo e o coração da checoslovaca Olga Fikotová, campeã do lançamento do disco. Casaram três meses depois dos Jogos.

Prova de ciclismo em Melbourne

Prova de ciclismo em Melbourne

Alguma pomposidade à volta dos Jogos, em particular do ritual do transporte da tocha olímpica por ruas de toda a Austrália, incomodou um grupo de nove estudantes do St. John’s College da Universidade de Sidney que planeou um protesto original.

“Alguns amigos meus e eu próprio pensamos que havia um grande exagero à volta do transporte da tocha. Estava a ser endeusada, quando na verdade tinha sido originalmente inventada pelos nazis para os Jogos de Berlim de 1936”, explicaria Barry Larkin, um dos estudantes rebeldes. “Então pegamos na perna de uma cadeira, alguma tinta prateada e uma velha lata de pudim de ameixa, e fizemos a nossa própria tocha.”

Lançaram-se a percorrer o percurso oficial com grande seriedade e convenceram quem os via passar. Acabaram por ser levados à presença do “mayor” de Sidney, Pat Hills, que julgou ter a tocha chegado à cidade mais cedo do que o previsto.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Tribuna

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Tribuna

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    Tribuna

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Tribuna

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Tribuna

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Tribuna

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Tribuna

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Tribuna

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    Tribuna

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    Tribuna

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Tribuna

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A guerra e o sonho de Hitler

    Jogos Olímpicos

    A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Londres, a cidade dos momentos difíceis

    Jogos Olímpicos

    Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O regresso dos russos, 40 anos depois

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    Os Jogos de Helsínquia, em 1952, marcaram o retorno da União Soviética ao convívio olímpico. Com o mundo dividido em comunistas e capitalistas, os Estados Unidos ganharam um adversário à altura. Este é o décimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época