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Jogos Olímpicos

A chama de Hiroxima

Tóquio não se poupou a esforços para concretizar os primeiros Jogos no continente asiático, em 1964. Para os japoneses, o evento foi, a vários níveis, inesquecível, desde logo porque constataram, em choque, que não eram imbatíveis no judo. Este é o décimo sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

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Os primeiros Jogos realizados no continente asiático confirmaram a reintegração do Japão na comunidade das nações, após a derrota na II Guerra. Tóquio era, à semelhança de Roma, uma cidade que vinha esperando longamente para receber o evento.

Em 1964, o país estava em vias de se tornar uma grande potência e a organização não se poupou a esforços para mostrar o milagre económico nacional, construindo recintos desportivos modernos e colocando a eletrónica ao serviço do desporto. Avery Brundage, presidente do Comité Olímpico Internacional (COI), referiu-se à piscina olímpica como a “catedral do desporto”.

Para o povo nipónico, os Jogos começaram sob o signo da emoção. Durante a cerimónia de abertura, a pira olímpica foi acesa por Yoshinori Sakai, um estudante nascido perto de Hiroxima no mesmo dia em que os EUA lançaram a bomba atómica, a 6 de agosto de 1945.

Yoshinori Sakai nasceu perto de Hiroxima no dia em que caiu a bomba atómica, 6 de agosto de 1945

Yoshinori Sakai nasceu perto de Hiroxima no dia em que caiu a bomba atómica, 6 de agosto de 1945

The Asahi Shimbun

A escolha de Yoshinori simbolizava a reconstrução do país, homenageava as vítimas da guerra e constituía um apelo à paz no mundo, que tão conturbado continuava. Com os Jogos em curso, Nikita Khrushchev foi afastado do poder na URSS e a China fez com sucesso o seu primeiro teste nuclear.

No ano anterior, o Presidente dos Estados Unidos John Fitzgerald Kennedy (JFK) tinha sido assassinado em Dallas, o ativista negro Martin Luther King tinha discursado sobre o seu “sonho” em Washington e a guerra no Vietname agitava a sociedade norte-americana.

Na Europa, a Alemanha continuava dividida em dois países. Nos Jogos de Tóquio — onde, com 377 atletas, os alemães foram o contingente mais numeroso —, acabaria a utopia de que, no desporto, os germânicos poderiam competir como uma equipa unida.

O Muro de Berlim começara a erguer-se em 1961 e o COI concedeu à RDA o direito de participar com uma equipa própria. De Tóquio em diante e até aos Jogos de Barcelona (1992), os atletas da RFA e da RDA passariam a travar duelos quase tão intensos quanto os de norte-americanos e soviéticos.

Em África, as independências continuavam a “varrer” o continente e as consequências chegavam ao Japão. A Rodésia do Norte, por exemplo, iniciou os Jogos com uma bandeira e terminou com outra — e um nome diferente, Zâmbia.

O pódio da maratona: Abebe Bikila da Etiópia (ouro), Basil Heatley da Grã-Bretanha (prata) e Kokichi Tsuburaya do Japão (bronze). Este não aguentou a humilhação de ter sido ultrapassado já dentro do estádio e matou-se

O pódio da maratona: Abebe Bikila da Etiópia (ouro), Basil Heatley da Grã-Bretanha (prata) e Kokichi Tsuburaya do Japão (bronze). Este não aguentou a humilhação de ter sido ultrapassado já dentro do estádio e matou-se

A seguir a Estados Unidos e União Soviética, o Japão foi o país que mais medalhas de ouro conquistou. Mas algumas prestações nipónicas foram traumáticas. Com o judo, o desporto tradicional japonês, como modalidade de estreia, o país anfitrião ficou em estado de choque quando o holandês Anton Geesink derrotou o japonês Akio Kaminaga na categoria absoluto e provou que os nipónicos não eram invencíveis.

Diante do seu público, alguns atletas japoneses lidaram mal com prestações menos conseguidas. Para se livrarem da desonra, fizeram “harakiri”, o suicídio com uma espada, segundo o código de honra dos samurais. Um desses casos foi o maratonista Kokichi Tsuburaya. O japonês entrou no estádio em segundo lugar, mas foi ultrapassado na última volta ao estádio pelo britânico Basil Heatley, perdendo a medalha de prata por três segundos.

Envergonhado perante uma nação orgulhosa, não aguentou viver com aquele desgosto. A 9 de janeiro de 1968, durante a preparação para os Jogos na Cidade do México, suicidou-se cortando o pulso no dormitório.

Vitória do norte-americano Billy Mills nos 10.000 metros

Vitória do norte-americano Billy Mills nos 10.000 metros

Vencedor surpreendente dos 10.000 metros, o norte-americano Billy Mills frequentara a mesma escola que o lendário Jim Thorpe. Entre ambos havia 51 anos de diferença, mas, a atentar nas palavras de Mills, a mesma dificuldade de aceitação social. “Sendo metade índio sioux e metade branco, eu era rejeitado por ambas as culturas. Mas encontrei outra cultura chamada desporto, que me aceitou em condições de igualdade.”

Os Jogos de Tóquio ficaram também associados à maior tragédia num estádio de futebol. Na fase de qualificação, a 24 de maio de 1964, Peru e Argentina disputaram o apuramento no Estádio Nacional de Lima. A Argentina ganhava 1-0, faltavam seis minutos para esgotar o tempo de jogo e o árbitro anulou o golo do empate ao Peru, que manteria a equipa ainda na luta pelo apuramento.

A decisão do árbitro enfureceu as bancadas, onde estavam mais de 53 mil espectadores. A política respondeu à invasão de campo disparando gás lacrimogénio, o que gerou o pânico e um movimento em massa descontrolado. Oficialmente, morreram 328 pessoas, número que muitos dizem pecar por defeito.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Tribuna

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Tribuna

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    Tribuna

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  • Organização inglesa, regras inglesas

    Tribuna

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Tribuna

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Tribuna

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

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    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Tribuna

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    Tribuna

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    Tribuna

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Tribuna

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A guerra e o sonho de Hitler

    Jogos Olímpicos

    A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Londres, a cidade dos momentos difíceis

    Jogos Olímpicos

    Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O regresso dos russos, 40 anos depois

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    Os Jogos de Helsínquia, em 1952, marcaram o retorno da União Soviética ao convívio olímpico. Com o mundo dividido em comunistas e capitalistas, os Estados Unidos ganharam um adversário à altura. Este é o décimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

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    Um mês após a intervenção militar soviética na Hungria, um jogo de polo aquático, entre os dois países, nos Jogos de Melbourne de 1956 transformou-se num facto político. Os primeiros Jogos realizados a sul do Equador foram menos participados do que os anteriores, pela distância a que fica a Austrália e pela conflitualidade que se vivia no mundo. Este é o décimo quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Tradição e modernidade na Cidade Eterna

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    A organização dos Jogos de Roma adaptou locais históricos às exigências das competições e com isso encheu-os de classe. O evento de 1960 marcou também o início dos chorudos contratos televisivos. Este é o décimo sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época