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Mo Farah: "Nas férias descanso, como e fico bem gordo"

Mo Farah, que conquistou este domingo a medalha de ouro nos 10 mil metros no Rio, esteve em Portugal em março de 2015 e, antes de vencer a meia-maratona de Lisboa e estabelecer um novo recorde europeu, falou com o Expresso, numa conversa a correr, como não podia deixar de ser

Mariana Cabral e Nuno Botelho

Mo Farah fotografado em Lisboa no ano passado, depois de ser entrevistado pelo Expresso

Nuno Botelho

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Que um tipo que já ganhou tudo nos 5 e nos 10 mil metros é rápido já nós sabíamos. Mas mesmo assim arriscámos numa corrida contra o tempo, numa entrevista que só durou uma viagem entre as Amoreiras e Belém. Partida, largada, fugida

É a primeira vez que faço uma entrevista num carro. Tu também?
Não [o agente interrompe: "Vês como ele gosta de ser sempre o primeiro? É o teu primeiro" - risota geral]

É a primeira vez que estás em Lisboa?
Sim. Fui às compras aqui à frente e andei a tirar fotografias. E fomos passear ao pé do rio - para o sítio onde vamos agora, acho. É muito bonito. Mas não posso andar muito, tenho de descansar as minhas pernas [risos].

Já percebes algum português?
Nem por isso. Mas sei que devia aprender algumas coisas, já que os Jogos Olímpicos vão ser no Rio [de Janeiro]. Tenho de começar a praticar.

Quando ganhares dizes "obrigado".
"Thank you". Essa sei [risos]. Só falo inglês e somali.

Nasceste na Somália e foste para Londres com 8 anos, sem falar inglês. Foi muito difícil?
Como era miúdo, não foi muito difícil aprender. O teu cérebro ainda está fresco e aberto a novas aprendizagens quando és jovem. O que era estranho era estar num país novo e não conseguir comunicar com ninguém. Queria brincar com os outros e era mais difícil.

O professor de educação física que te iniciou na corrida disse que tinhas muito mau perder, mas agora andas sempre com um sorriso na cara.
Na vida vais aprendendo com o caminho que vais percorrendo. Quando era novo era difícil para mim: não sabia inglês, não compreendia as pessoas... Agora já aprendi a perder corridas e a ganhar corridas. Às vezes não é o teu dia.

Normalmente os dias são teus.
Sim [risos]. É tudo fruto do treino. Claro que às vezes pensas "se calhar devia ter ganhado aquela corrida", mas taticamente as coisas nem sempre correm bem. Temos de seguir em frente e sorrir.

És um vencedor, mas és adepto do Arsenal. Não vês aí um problema?
[o agente intervém: "Esta foi dura"] Quando é a tua equipa, é sempre. Hoje sou um campeão, mas amanhã ou daqui a três ou quatro anos já não sou ninguém, não vou ficar sempre no topo. Toda a gente tem os seus períodos melhores e piores. Quando pensas na Premier League aposto que as tuas primeiras memórias vão ser United e Liverpool a ganhar. Agora já temos o Chelsea... E o City, que há três ou quatro anos não lembrava a ninguém. [entretanto vemos a Ponte 25 de Abril] Olha, ali está a ponte.

Já conheces?
Sim, já conhecia a corrida e a ponte é muito famosa.

Nuno Botelho

Quando foi construída tinha o nome do teu treinador, Salazar.
[risos] Ele não veio, mas tenho de lhe dizer essa.

Entretanto o nome já mudou.
Agora é a ponte Mo Farah [risos].

Se bateres o recorde do mundo [58 minutos e 23 segundos] amanhã...
[risos] Não sei onde foram buscar essa ideia.

A ti, provavelmente.
Nada disso. Só prometo correr o que puder. Vou dar 110% de mim.

Disseste que correr maratonas é muito difícil. As meias são fáceis?
O treino custa muito mais, é duro. Quis tentar, mas as coisas não correram bem, paciência. Mas não mudava nada. Quer dizer, mudava a classificação [risos]. É como pegares num carro e ires dar uma voltinha no bairro ou ires fazer uma longa viagem. É muito diferente.

Já sabes que se bateres o recorde do mundo aqui ganhas 94 mil euros.
É o meu aniversário na segunda-feira, portanto posso gastar isso num instante [risos]. Era um bom presente, não? Deviam dar-mo e pronto. Posso fazer muitas coisas: comprar boas roupas, um carro bonito, marcar umas férias...

Tens tempo para ir de férias?
Claro. Normalmente vou em setembro ou outubro, com a minha mulher e as minhas filhas. O importante é descansar mentalmente.

Nesses dias não corres?
Nem pensar. Descanso, como e fico bem gordo. Sou um bocadinho maroto. Quando volto, o meu treinador diz "és mesmo tu, Mo?" Respondo que sou o Hassan, o meu gémeo, que é bastante maior do que eu.

Isso do cabelo é para ficares mais aerodinâmico?
Rapo sempre antes das corridas. Amanhã de manhã já sabes que devo estar a rapar o cabelo. Faz-me sentir bem.

Conheceste a tua mulher em Londres?
Sim, andámos no mesmo liceu.

Isso é coisa de filme romântico.
Romeu e Julieta? Não... [risos] Já foi há muito tempo, éramos bons amigos e casámos e agora temos três filhas.

Elas nunca viajam contigo?
É muito difícil. Às vezes vão ver-me, como nos Jogos Olímpicos. Claro que queres estar com a tua família e fazer coisas normais de pais. Mas há o Skype, o Facetime, o Viber... [risos] E a Playstation [risos].

Então é Playstation no quarto e Mike [o agente] para os copos.
Não, não saímos. Já sou velho, vou fazer 32 na segunda [risos].

Bater o recorde do mundo antes do aniversário era bom.
Era lindo, não era?

ENTREVISTA PUBLICADA NA EDIÇÃO DO EXPRESSO DE 21 DE MARÇO DE 2015