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O dia que Telma vai gravar na pele

A judoca diz que vai tatuar no braço a data em que conquistou a sua primeira medalha olímpica

Alexandra Simões de Abreu

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Ana Monteiro é um ano mais velha que a “irmãzinha” — como carinhosamente a trata — e acompanhou-a em todos os JO, sempre com a mesma fé: a de que viria de lá com uma medalha. No Rio não foi diferente. Antes do combate final, sussurrou-lhe ao ouvido: “A francesa já apanhou a medalha de bronze na edição anterior e esta tem de ser tua. Esta é para ti, és tu que a vais lá buscar”.

Esta certeza vem da cumplicidade que une ambas, mas acima de tudo da confiança e admiração que Ana tem pela irmã. “Quando a vi no ginásio, três ou quatro dias depois de ser operada ao joelho, para não perder a forma; quando a vi a treinar pegas, sentada com uma tala, a cinco meses destes Jogos, pensei: ‘Deus é justo, o caminho vai dar certo para ti.’ Foi uma história incrível de superação”, conta Ana ao Expresso.

Superação, resiliência, perseverança e coragem são as palavras mais ouvidas no discurso de quem seguiu de perto o percurso de Telma Monteiro, 30 anos, e viveu ao seu lado o momento mais alto da sua carreira desportiva, a conquista da medalha de bronze nos JO. A primeira de Portugal no Rio.

Do futebol no bairro social para o judo

O caminho para chegar àquele degrau do pódio começou num bairro social, no Feijó, margem sul do Tejo. A primeira vez que Ana levou a irmã Telma ao clube Construções Norte-Sul, para experimentar o judo, a coisa não correu bem. Telma, então com 13 anos, preferiu continuar no futebol. Mas as viagens e os locais que Ana descrevia sempre que chegava de uma prova encheram de sonhos a cabeça da irmã mais nova. Telma voltou. O judo agarrou-a e ela agarrou-se ao sonho de um dia pendurar uma medalha olímpica ao peito.

Entretanto, alcançou dezenas de outras medalhas (incluindo 11 em europeus e cinco em mundiais), mudou de clube, de categoria, estreou-se nos JO, em Atenas (2004), voltou em Pequim (2008) e em Londres (2012), perdeu uma referência (o selecionador António Matias), mudou de treinador várias vezes, procurou ajuda psicológica, lesionou-se, caiu, levantou-se. Uma e outra vez.

Por isso, quando na segunda-feira o árbitro atribuiu a vitória à mongol Sumiya Dorjsuren — líder do ranking mundial (-57kg) —, no golden score, afastando a atleta portuguesa do acesso ao ouro, nem Telma nem Ana gastaram tempo com lamúrias. “O que pensei de imediato foi ‘este momento acabou, mas ainda há um novo caminho a percorrer, porque é possível chegar à medalha.’ Foi nisso que nos focámos”, revela Ana.

A francesa Automne Pavia já estava derrotada ainda antes de subir ao tapete. “Eu vim para ficar”, gritou Telma logo depois de aplicar um ippon. Um grito difícil de dimensionar para a romena Corina Caprioriu, que acabou por sucumbir ante a determinação da portuguesa. O sonho estava cumprido e ficará gravado não só na sua memória como na pele. Vai tatuar a data por baixo dos anéis olímpicos que tem no braço. “A Telma é obstinada pelos seus objetivos. Tem uma capacidade de superação e positivismo acima da média”, caracteriza Nuno Delgado, o primeiro judoca português a conquistar uma medalha olímpica, também de bronze, em Sydney 2000.

O chefe da equipa técnica revela que desde Londres “muita coisa mudou” e com isso Telma “melhorou as suas emoções, conseguiu ficar mais focada e concentrada”. Essas alterações passaram pelo acompanhamento do mestre japonês Go Tsunoda, com quem “treinou aspetos técnico-tácticos, em exclusivo, o que fez com que a qualidade aumentasse significativamente”; pela possibilidade de ter uma parceira de treino, a cabo-verdiana Sandra Borges, de 33 anos, que também a acompanhou no Rio; pelo apoio psicológico que teve em 2015: “Foi um período em que me conheci melhor e aprendi a lidar com certas situações de forma diferente”, explicou. E, no Rio, a judoca pediu para ficar alojada fora da Aldeia Olímpica, “para ter mais conforto e privacidade, e estar mais concentrada”, revela Nuno. Pormenores que, pelos vistos, também fizeram a diferença no dia que lhe ficará gravado na pele: 08/08/2016.

Texto publicado na edição de 13 de agosto de 2016 do Expresso

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    Depois dos falhanços de Atenas 2004, Pequim 2008 e Londres 2012, à quarta participação olímpica a judoca Telma Monteiro jogou também com essas experiências para ganhar a medalha de bronze. Aos 30 anos, fala para os que hão de vir a seguir a ela: “Só quero transmitir a mensagem de que se eu consegui, eu que precisei de quatro Jogos Olímpicos e 12 anos para ganhar uma medalha, e tive de ser operada, acho que os outros também conseguem”. E o futuro de Telma é já ali, nos Jogos de Tóquio 2020: “Quero aproveitar, desfrutar e despedir-me em grande nesse país, que é o país do meu desporto”