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Jogos Olímpicos

Tradição e modernidade na Cidade Eterna

A organização dos Jogos de Roma adaptou locais históricos às exigências das competições e com isso encheu-os de classe. O evento de 1960 marcou também o início dos chorudos contratos televisivos. Este é o décimo sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

Margarida Mota

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Roma foi o poder que, na Antiguidade Clássica, decretou o fim dos Jogos Olímpicos. No ano de 393, o imperador Teodósio aboliu-os por serem expressões de paganismo e entraves à afirmação do Cristianismo.

Foi também nas arenas do Império Romano, a mais importante delas o Coliseu, que lutadores combateram-se até à morte para gáudio dos imperadores.

Muitos anos depois, a Cidade Eterna redimiu-se desse pesado legado, abrindo as portas ao maior espetáculo desportivo do mundo. Celebrou-o com dignidade e sabedoria, conjugando o clássico com a modernidade e adaptando locais históricos para a realização das provas olímpicas: as Termas de Caracala para a ginástica, a Basílica de Magêncio para a luta, o Capitólio e a Via Ápia como partida e chegada da maratona.

Três princesas suecas assistem às provas de atletismo, no estádio olímpico de Roma

Três princesas suecas assistem às provas de atletismo, no estádio olímpico de Roma

Em 1960, passava pela Europa a fronteira que dividia o mundo em duas realidades geopolíticas, cada qual obediente a uma superpotência. Precisamente na capital italiana, a 25 de março de 1957, no Palazzo dei Conservatori, seis países europeus tinham assinado o Tratado de Roma, que criava a Comunidade Económica Europeia (CEE) e lançava a esperança da paz perpétua no continente.

O facto de, pelos segundos Jogos consecutivos, a Alemanha competir com uma equipa unida, contrariando a partilha do território em dois Estados soberanos (RFA e RDA), foi uma conquista elogiada pelo chefe de Estado italiano, Giovanni Gronchi, na cerimónia de abertura dos Jogos. “No desporto, podemos fazer essas coisas”, reagiu o presidente do COI, Avery Brundage.

A prova da maratona passando por baixo do Arco de Constantino

A prova da maratona passando por baixo do Arco de Constantino

Em inícios da década de 60, a competição pelo domínio do mundo entre EUA e URSS tinha chegado ao espaço. Em 1957, os soviéticos tinham enviado o primeiro satélite artificial (Sputnik) a caminho da Lua e, meses depois, a cadela Laika provava que era possível sobreviver no espaço.

Ainda antes do cosmonauta soviético Yuri Gagarin tornar-se o primeiro homem a viajar pelo espaço, em 1961, foi pois uma URSS muito confiante que surgiu em Roma. Os soviéticos — os únicos atletas que não foram benzidos pelo Papa João XXIII na Praça de São Pedro — ganhariam 103 medalhas (43 de ouro), deixando os norte-americanos a grande distância: 34 de ouro de um total de 71.

Uma das vitórias dos EUA deveu-se a um pugilista que se recusava a combater na guerra do Vietname: Cassius Clay, futuro Muhammad Ali. Vencedor na categoria de meio-pesado, Clay descobriu, no regresso a casa, no Kentucky, que a glória olímpica pouca influência tinha na forma como a sociedade o acolhia. Ameaçado num café por um gangue de brancos, escapou a uma rixa anunciada. Consternado com a situação, atirou a sua medalha de ouro para o rio Ohio.

Em 1996, durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, o COI homenageou Muhammad Ali, já visivelmente consumido pela doença de Parkinson, colocando-lhe ao pescoço uma medalha de ouro substituta.

Três norte-americanos medalhados com ouro no boxe, em Roma. Ao centro está Cassius Clay

Três norte-americanos medalhados com ouro no boxe, em Roma. Ao centro está Cassius Clay

O braço de ferro EUA-URSS não esgotava o potencial de animosidade nos Jogos. Em Roma, o grande foco de tensão chamou-se África do Sul, que se apresentou com uma equipa totalmente branca, chamando assim a atenção para a discriminação racial dentro de portas. O país tinha participado nos Jogos pela primeira vez em 1904, em St. Louis. Então, uma equipa de boers competiu na prova de tração à corda e dois zulus correram a maratona. Quatro anos depois, em Londres, a equipa já só incluía brancos.

A política de segregação racial (“apartheid”) adotada em 1948 era uma bomba relógio. Aos protestos internos juntavam-se cada vez mais vozes críticas do regime racista pedindo o isolamento internacional dos sul-africanos. Em 1957, na Taça das Nações Africanas de futebol, a África do Sul já tinha sido suspensa nas vésperas de disputar as meias finais contra a Etiópia, com o argumento de que a federação nacional recusava apresentar uma equipa mista.

Em Roma, a África do Sul fez desfilar 55 atletas — que ganhariam três medalhas —, mas o cerco estava a apertar-se. O processo das independências africanas — só em 1960, nasceram 17 novos Estados no continente negro — criava uma frente anti-“apartheid” que se previa cada vez mais interveniente.

O etíope Abebe Bikila, correndo descalço a maratona de Roma, que venceria

O etíope Abebe Bikila, correndo descalço a maratona de Roma, que venceria

Do conjunto dos países africanos que foram a Roma, estes Jogos foram históricos para a Etiópia, que conquistou a sua primeira medalha de ouro, na maratona masculina. Para os etíopes, a chegada de Abebe Bikila ao Arco de Constantino teve um simbolismo especial, já que acontecia 25 anos após a conquista da Etiópia pela Itália de Mussolini.

Bikila correu a maratona descalço. A Adidas, o patrocinador do calçado desportivo, destinara-lhe um par com o qual não se sentia confortável. Repetiria o triunfo quatro anos depois, em Tóquio, já devidamente calçado.

Com 16 edições já realizadas, os Jogos eram palco de uma competição paralela entre marcas de equipamento desportivo. Outrora sócios, os irmãos bávaros Adolph e Rudolph Dassler tinham-se tornado rivais no sector do fabrico de sapatos. Em 1948, Rudolph fundou a Puma e no ano seguinte o irmão criou a Adidas. Seguiu-se uma disputa desenfreada por atletas e eventos.

Atletas da República Árabe Unida (país nascido da união entre Egipto e Síria, e que existiu entre 1958 e 1961) junto a um balcão da Coca Cola, grande patrocinadora dos Jogos

Atletas da República Árabe Unida (país nascido da união entre Egipto e Síria, e que existiu entre 1958 e 1961) junto a um balcão da Coca Cola, grande patrocinadora dos Jogos

Os Jogos de Roma marcaram o início dos grandes contratos televisivos, negócio que viria a tornar-se a principal fonte de financiamento do evento: o Comité Olímpico Italiano e a Columbia Broadcasting System (CBS) assinaram um contrato no valor de 394 mil dólares. Avery Brundage opunha-se à comercialização dos Jogos, mas o Comité Olímpico Internacional, que ele dirigia, acumulava défice. Havia que fazer cedências.

Em Roma, manifestaram-se também os primeiros sintomas de um problema que não mais deixaria de se agravar até aos dias de hoje — o doping. No ciclismo, o dinamarquês Knud Enemark Jensen desfaleceu durante a corrida de estrada e morreu a caminho do hospital. A autópsia revelou a presença no organismo do estimulante Ronicol.

À luz deste caso, a federação internacional de ciclismo introduziu controlos antidoping e, dois anos depois, a Áustria tornou-se o primeiro país a instituir penalizações severas para atletas e clubes que recorressem a substâncias dopantes.

Aos Jogos, os testes antidoping só chegariam em 1968, na Cidade do México.

Soldados italianos de serviço na aldeia olímpica, em Roma

Soldados italianos de serviço na aldeia olímpica, em Roma

Três meses antes dos Jogos de Roma, “o maior tremor de terra do século XX”, de magnitude 9.5, devastou o sul do Chile, ao fim da tarde de 22 de maio. Matou mais de 1650 pessoas e fez mais de dois milhões de desalojados só no Chile. O tsunami que se lhe seguiu matou também no Hawai, Japão e Filipinas. Num gesto de solidariedade, o Comité Olímpico Francês patrocinou a viagem de três atletas chilenos até Roma. E o Comité Italiano financiou o alojamento de toda a equipa do Chile — nove atletas competiram em três modalidades. O Olimpismo a dar o exemplo.

  • Os Jogos do orgulho grego

    Desporto

    Ao atribuir à Grécia os primeiros Jogos da era moderna, em 1896, os pioneiros do movimento olímpico quiseram homenagear o país que os criou. Os cofres do erário grego não tinham verba suficiente, mas um benfeitor chegou-se à frente e tornou o sonho possível. Este é o primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Competir aos domingos não é para cristãos

    Desporto

    Os II Jogos Olímpicos, realizados em Paris, na pátria de Pierre de Coubertin, em 1900, ficaram na sombra de uma exposição universal e quase passaram despercebidos. Para complicar, atletas cristãos recusaram-se a competir aos domingos. Este é o segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • “Dias” da vergonha

    Desporto

    À terceira edição, os Jogos rumaram ao “Novo Mundo”, integrados, pela segunda vez, no programa de uma exposição comercial. Um conjunto de competições destinadas a “povos primitivos” manchou o evento em St. Louis, em 1904, e envergonhou Pierre de Coubertin. Este é o terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Organização inglesa, regras inglesas

    Desporto

    Numa corrida contra o tempo, os britânicos puseram de pé os IV Jogos, em 1908, sem gastar dinheiro dos contribuintes. À revelia do Comité Olímpico Internacional (COI), a organização de Londres definiu as regras das provas, arbitradas por juízes exclusivamente ingleses. Houve reclamações. Este é o quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A morte saiu à estrada

    Desporto

    Nuns Jogos bem organizados em que pela primeira vez participaram atletas dos cinco continentes — em 1912, em Estocolmo —, um português entrou para a história pelas piores razões. Ainda hoje, o drama de Francisco Lázaro é recordado na Suécia. Houve reclamações. Este é o quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Sem Jogos nem tréguas

    Desporto

    A eclosão da I Guerra Mundial levou ao cancelamento dos VI Jogos previstos para 1916, em Berlim. A política levou a melhor sobre o desporto, violando um dos princípios sagrados dos Jogos da Antiguidade: as tréguas olímpicas. Este é o sexto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Retomar as Olimpíadas para ajudar à paz

    Desporto

    Com alguns campeões mortos nas trincheiras da Grande Guerra e a preparação de muitos mais prejudicada pelo conflito, os Jogos de Antuérpia, em 1920, foram parcos em grandes marcas. A bordo do navio que transportou os norte-americanos, exigências relativas ao alojamento quase geraram um motim. Este é o sétimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Momentos de glória, como no filme

    Desporto

    Em 1924, vivia-se em todo o mundo a tranquilidade entre guerras. Paris assegurou a organização dos VIII Jogos Olímpicos e, à segunda, não comprometeu. As prestações de alguns atletas despertaram o interesse do cinema. Este é o oitavo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O casamento com a Coca Cola

    Desporto

    No pós-guerra, a Europa tornou-se a zona de conforto dos Jogos Olímpicos. Após Bélgica e França, o evento seguiu para a Holanda, que assegurou a IX edição, em Amesterdão (1928). Para as mulheres, a saída de Pierre de Coubertin da presidência do movimento olímpico foi uma boa notícia. Este é o nono de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Luxos e “glamour”, apesar da Grande Depressão

    Desporto

    A crise financeira mundial e a distância física até aos Estados Unidos fez diminuir o número de participantes nos Jogos de 1932. Para chegar a Los Angeles, atletas brasileiros tiveram de vender sacos de café pelo caminho. Amantes do desporto e talentosos para o espetáculo, os norte-americanos não pouparam nos luxos para os atletas. Este é o décimo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Ao serviço da propaganda nazi

    Desporto

    Ao atribuir os Jogos de 1936 a Berlim, o Comité Olímpico Internacional deu um passo no sentido da normalização da relação com a Alemanha, rejeitada pelo mundo olímpico após Grande Guerra. A subida ao poder de Adolf Hitler trocou as voltas. O Führer encarou os Jogos como um palco de demonstração da superioridade ariana sobre os “inferiores” judeus e negros. Um afroamericano do Alabama provou na pista que Hitler estava errado. Este é o décimo primeiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • A guerra e o sonho de Hitler

    Jogos Olímpicos

    A II Guerra Mundial inviabilizou duas edições dos Jogos Olímpicos, em 1940 e em 1944. E motivou o Führer a tentar concretizar um sonho: tornar a Alemanha a sede permanente do evento. Este é o décimo segundo de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Londres, a cidade dos momentos difíceis

    Jogos Olímpicos

    Símbolo da resistência aos totalitarismos, a capital inglesa foi escolhida para resgatar os Jogos das cinzas da II Guerra Mundial, em 1948. Ficariam conhecidos como os “Jogos da austeridade”. Este é o décimo terceiro de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • O regresso dos russos, 40 anos depois

    Jogos Olímpicos

    Os Jogos de Helsínquia, em 1952, marcaram o retorno da União Soviética ao convívio olímpico. Com o mundo dividido em comunistas e capitalistas, os Estados Unidos ganharam um adversário à altura. Este é o décimo quarto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época

  • Os Jogos do “sangue na água”

    Jogos Olímpicos

    Um mês após a intervenção militar soviética na Hungria, um jogo de polo aquático, entre os dois países, nos Jogos de Melbourne de 1956 transformou-se num facto político. Os primeiros Jogos realizados a sul do Equador foram menos participados do que os anteriores, pela distância a que fica a Austrália e pela conflitualidade que se vivia no mundo. Este é o décimo quinto de 29 artigos que revisitam cada uma das Olimpíadas — de Atenas (1896) a Londres (2012) —, inserindo-as no contexto político e social da época